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O ganhador do Prêmio Nobel de economia de 1998 foi um indiano chamado Amartya Sen. Um de seus livros, “Uma ideia de Justiça”, pretendeu resolver uma questão aparentemente simples: como hierarquizar e tornar possível uma discussão racional envolvendo um conflito entre razões ou valores que são igualmente justificáveis? Como escolher entre um valor em detrimento de outros? Complexo? Nem tanto. Vamos a um exemplo claro.

O que devemos respeitar: a liberdade de expressão ou o respeito às crenças alheias? Obviamente que a resposta é que ambos os valores, ambos os princípios morais, precisam ser respeitados. Essa foi fácil!

O que devemos respeitar com mais afinco? Ou seja, qual desses princípios de ação deveria estar em primeiro plano se quiséssemos montar uma “hierarquia de valores”? É difícil responder a essa questão, especialmente em um mundo que, ao mesmo tempo que nega guiar-se por respostas metafísicas e se debate com as questões do que deveria ser um Estado laico, se depara também com a inevitabilidade do fato religioso que acompanha o homem desde os tempos mais primórdios.

Eis mais um daqueles que poderíamos chamar de paradoxos da modernidade: a preocupação com uma racionalidade científica e uma política que seja laica convivendo com a redescoberta do senso religioso que se nega a delimitar a razão à uma mera racionalidade científica.

Voltando ao assunto, Amartya Sen ganhou o prêmio Nobel, mas não criou uma fórmula matemática que resolvesse o problema.

Se você estava em outro planeta nessa última semana, a França teve uma de suas revistas satíricas mais importantes atacada por extremistas islâmicos. No dia 7 de janeiro, a revista Charlie Hebdo foi invadida por homens com metralhadoras em punho que mataram doze pessoas.

A revista tinha uma postura bastante áspera com o Islã e com as religiões em geral. Fazia piadas com a imagem de Maomé, a Trindade, os Judeus e seus estereótipos.  O atentado divide opiniões: liberdade de expressão ou o respeito às crenças alheias? A pergunta é tão difícil porque os dois princípios são basilares na cultura ocidental e pedir que se escolha um em detrimento do outro causa certa esquizofrenia, um curto-circuito.

Ouvi discursos radicais dos defensores do princípio da “liberdade” e dos defensores do “respeito”. Primeiro: por que chamo esses discursos de radicais? Porque eles não abriam portas para afirmar a “justiça”, a “legitimidade” do outro princípio em questão. Ou seja, eram discursos unilaterais. Segundo: por que eram unilaterais? Porque o outro princípio era altamente “legitimável” na cabeça dos interlocutores e na do próprio escritor. Respeito ou liberdade? Os dois são muito importantes!

Fazer uma concessão à liberdade quando se está defendendo o respeito em primeiro lugar, e vice-versa, é criar uma grande possibilidade de defesa contrária da hierarquia de valores que se adotou. Por que essa mínima concessão se torna um perigo? Porque ambos são altamente justificáveis na construção ocidental do mundo.

Diante dos radicalismos afirmo: antes de hierarquizar esses dois princípios, acredito nos dois. Sim, grande parte da minha resposta se baseia nessa que inicialmente parece só uma saída pela tangente. Mas essa saída evita muitas coisas.

Evita algumas afirmações que ouvi de algumas pessoas (um colunista da Veja entre eles). Coisas do tipo: defender a idéia de que os cartunistas foram desrespeitosos em algumas charges era paquerar com a justificação das mortes. Afirmava esse colunista, ainda que as pessoas começassem seus discursos com um “eu não concordo com terrorismo...”; “nada justifica...” elas estariam culpando as vítimas. Besteira! Uma das besteiras mais canalhas possíveis.

E é canalha por afirmar: “não importa o que você diga, se você apresentar discordâncias e críticas da postura da publicação nesse momento traumático você apoia o terrorismo”.

E se eu quiser defender a ideia de que tanto terroristas quanto chargistas passaram dos limites? Se eu quiser criticar ambos? Mesmo que essa crítica não pretenda construir uma simetria entre as ações exageradas? Não posso?

O que estou dizendo é: discordo dos dois. Eu não sou homem bomba, nem Charlie! Simples!

Dirão: “Mas automaticamente você cria a simetria entre os dois criticando os dois”; “Você justifica!”. Se eu digo que não é justificável a ação terrorista eu digo exatamente o que eu disse!

Se o Islã precisa construir a partir da própria tradição religiosa a sua forma de lidar com a liberdade religiosa e com a forma de lidar com o diferente, o mesmo também está em processo no Ocidente. Trata-se de (re)pensar e colocar em perspectiva a forma como o Ocidente, especialmente os franceses, especialmente uma parcela da esquerda, têm tratado e interpretado os valores democráticos e republicanos.

Por vezes, sob uma ótica da liberdade há uma liberalização extrema que descamba para o desrespeito irresponsável. Capaz de gerar conseqüências mais sérias do que se supõe que páginas de uma revista podem causar.


Breno Rabello
Mestrando em Sociologia (UFRJ) / Oficina de Valores


     

2 comentários:

Anônimo disse...

Ótimo texto, Breno.

Anônimo disse...

Meu caro Breno, nos últimos tempos nossa sensibilidade espiritual está muito fraca, se comparada ao que era há alguns séculos. Perdemos a noção da gravidade de se publicar blasfêmias. Sobre o fato de que esse Charlie publicou blasfêmias, reincidindo diversas vezes no erro, concordam cristãos, judeus e muçulmanos, eles conseguiram blasfemar contra as crenças das 3 maiores religiões monoteístas do Mundo! Parecem, portanto, fortemente empenhados na péssima prática de blasfemar. Blasfemando, de certo modo chamaram a si o atentado.
E os terroristas, atentaram contra a vida em defesa do respeito à religião? A intenção deles talvez tenha sido essa, mas o efeito, no contexto de uma mentalidade cada vez mais influenciada pelas trevas do neo-ateísmo, foi contra o possível objetivo. A ação terrorista despertou e recrudesceu o preconceito contra o Islã e, devido às generalizações, infundadas porém freqüentes devido ao contexto cultural, chega ao cúmulo de ser citada como argumento contra as religiões em geral (pois são todas iguais, do ponto de vista dos neo-ateus e laicistas fanáticos hodiernos).
Tendo isso em vista, também critico as ações de ambos, porém, diferente de ti, não tenho nenhum medo de criar simetria. Se existe alguma simetria, foi eles mesmos que a criaram, as ações de ambos, terroristas e cartunistas desrespeitosos, são ambas de uma gravidade tão imensa que é difícil mensurar ou comparar.

PS.: Rapaz! O captcha desse site é muito difícil!

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