Por: Rodrigo
imagem de: veja.abril.com
Essa frase de um poeta russo figurava entre as postagens do Facebook de Humberto Moura Fonseca, o estudante de engenharia elétrica que faleceu no último fim de semana, em decorrência de um coma alcoólico após tomar mais de 30 doses de vodka. O “lombadinha”, como era chamado pelos colegas de faculdade, preferiu de fato morrer de vodka do que de tédio. Creio que não podemos deixar passar desapercebido essa “tentativa de suicídio coletivo”.


Tratava-se de uma festa universitária (realizada no último sábado, 28/02), com convites entre R$ 28,00 e R$ 42,00, contendo bebida liberada. Uma das atrações do evento era uma maratona para ver quem conseguia beber mais! O saldo da brincadeira foi uma morte e 5 pessoas hospitalizadas, das quais duas já foram liberadas e três continuam internadas. A primeira e inevitável pergunta é: pra que? Qual é o sentido de se divertir dessa forma?

Creio que a resposta passe por uma reflexão mais profunda, a frase encontrada no perfil do estudante, que mais do que uma mera postagem ganhou contornos de profecia na vida do rapaz, pode nos ajudar a pensar de forma mais ampla o ocorrido. Afinal de contas, o tédio é tão amedrontador assim? Impossível tocar no assunto sem fazer referência à clássica letra do Biquini Cavadão:

Tédio, não tenho um programa
Tédio, esse é o meu drama
O que corrói é o tédio
Um dia, eu fico sério
Me atiro deste prédio.


O tédio é um estado com ausência de estímulo, seus sintomas se manifestam através de uma sensação de vazio, ou simplesmente na falta de vontade de realizar as atividades rotineiras. É uma experiência de incompletude, de que falta algo que aparentemente não vai chegar. Bem como o Biquíni Cavadão cantava na década de 80, não temos remédios que nos tire dessa sensação, e na falta do remédio vamos de analgésicos. A vodka pode ser um excelente, as drogas também. Cumprirão muito bem esse papel. Afinal de contas, o objetivo de um analgésico é fazer com que a dor passe, e vai passar num primeiro momento, porém o seu retorno é inevitável. Tomar qualquer bebida ou qualquer substância química esperando curar-se do tédio é como tomar novalgina para curar-se de um câncer, totalmente ineficaz.

Sei que não estou trazendo novidades aqui, o próprio Humberto sabia disso, não esperava ser curado pela vodka e desejava, portanto, sentir a dor de morrer de vodka por considerá-la menos dolorosa que morrer de tédio. No fundo, o Humberto constatou que não havia saída para a sensação de incompletude, de vazio. O ser humano está fadado a mediocridade, e essa é uma reflexão fundamental... Isso não foi uma descoberta dele, filósofos como Albert Camus diziam que a vida é uma insistente busca por algo que nunca encontraremos. E como isso parece fazer sentido, sabendo que ano após ano, conquista após conquista, nos vem aquela sensação de que nada é suficiente, de que queremos mais, não é mesmo?! Isso nos angustia e nessa busca por mais a gente tenta tanta coisa.... Não tenho dúvidas de que essa foi a tentativa dos universitários que lá estavam, e isso responde à pergunta feita no início do texto, fizeram porque queriam mais da vida. Jovens, a maior parte deles, bem sucedidos financeiramente, bonitos, com futuros brilhantes pela frente, insatisfeitos com pouco, queriam mais e esse mais os levou a uma tentativa coletiva de suicídio. Isso nos coloca diante de um grande drama da vida: parece que nascemos para morrer... e as aulas de ciências do ensino fundamental nos indicam isso quando aprendemos o ciclo da vida: “O ser humano nasce, cresce, se reproduz e morre”. Não tem escapatória, a vida é isso aí. Talvez o Humberto, o filósofo Camus e o poeta russo Vladimir Maiakóvski tenham entendido essa dinâmica melhor do que nós e partiram dessa para uma melhor, ou talvez não.

Se por um lado tudo parece apontar para a ausência das possibilidades de nos realizarmos, por outro, podemos e devemos pensar que se desejamos mais do que a vida oferece, é porque em algum lugar essa experiência deve existir. Existe uma correspondência para cada necessidade humana - isso é evidente. Temos sede porque existe água, temos fome porque existe alimento, temos frio porque existe calor e por aí vai. A conclusão a que desejo chegar, que também não é uma invenção minha (autores como o C.S. Lewis e Viktor Frankl já diziam isso muito antes), é que se temos esse vazio enorme dentro de nós é porque necessariamente existe algo que pode preenchê-lo.

Notem que essa saída é diferente da encontrada pelo Humberto, pois não estamos falando de substituir um vazio pelo outro, estamos falando de preenchimento de vazio. Seria isso possível? Eu, particularmente acredito que sim. Isso é o que motiva a minha vida! Confesso para você, caro leitor, que padeço de muitos males e muitas sensações ruins, sofro bastante, sou humano e não tenho como fugir disso. Contudo, um mal que passa longe de me afetar é o tédio, minha vida é totalmente preenchida do que me realiza. Não me faltam estímulos para fazer minhas atividades rotineiras e devo isso ao fato de que encontrei coisas pelas quais valem a pena viver e gastar a minha vida. Creio que essa seja a grande questão, talvez a nossa cultura insista em querer preencher o vazio com vodka*, enquanto que o vazio na verdade só pode ser preenchido com algo que dê sentido a vida. O que dá sentido à sua vida? A minha conclusão a respeito disso é que não é melhor morrer nem de vodka, nem de tédio, é melhor morrer só pelo que tenha valido a pena dedicar a vida inteira! Ah, e não vale a pena gastar a vida por 30 doses de vodka, pois a vida pede mais! 

Rodrigo Moco
Psicólogo / Coordenador da Oficina de Valores


*Em alguns momentos do texto, a vodka é um termo figurativo para referir a qualquer substância química.


*Deixo claro os meus sentimentos pelo falecimento do estudante, o objetivo do texto não é julgar suas escolhas, mas produzir uma reflexão a partir do ocorrido.

0 comentários:

Postar um comentário