Por: Fernanda




E eu, por que não vou assistir ao filme 50 tons de cinza?


Reuni ideias para este texto a alguns dias atrás, e confesso que está sendo bem difícil colocá-lo aqui, pois em alguns dias, parece que todo mundo resolveu escrever sobre este filme, seja para elogiar ou criticar.

Pois bem, sem o menor compromisso de ser original, escrevo este texto para dizer os motivos pelos quais eu nunca li o livro e agora não vou gastar duas horas da minha vida e dez reais da minha carteira para ver esse filme*.

Poderia começar com algumas críticas em relação à qualidade, como o fato da história se tratar de uma fanfic da saga de Crepúsculo, ou, como muitos disseram, de o livro ser mal escrito. Mas, sinceramente, acredito que existe uma questão mais determinante em um livro do que a forma: a mensagem que ele passa.

Poderia também falar de como é triste que um livro que não é considerado bom tenha feito um sucesso tão grande somente porque fala de sexo, e como as pessoas tem a ilusão de serem livres por poder ler esse livro. Mas como o blog já apresentou outros textos sobre esse tema, vou criticar esse livro sob outro aspecto.

Particularmente, gosto muito de histórias de ficção, mas quando elas se encontram em uma linha muito tênue com a realidade, julgo que podem carregar certos problemas. A história de Harry Potter, por exemplo, é muito claro que é uma ficção, ninguém acredita; já o Código da Vinci tem muitos elementos irreais e historicamente incompatíveis, mas eles são muito mesclados com fatos verídicos, e muita gente lê acreditando que tudo é verdade.

Considero 50 tons de cinza um livro de ficção, e considero do tipo perigoso. Vou dizer por quê.

Sem medo de dar spoiler (seja porque nada mais desse livro é surpresa, ou porque meu objetivo é afastá-los de ler/assistir), a história é sobre Anastasia, uma menina insegura, de 21 anos que se impressionou com a possibilidade de viver um romance com um homem muito atraente e bilionário, o tão falado Christian Gray. Gray, no entanto, não é um homem romântico e não é companheiro. Ele se revela como adepto de práticas sadomasoquistas (BDSM), e deixa claro que essa é a condição para eles ficarem juntos. Anastasia, então, passa a sofrer uma enorme pressão para ceder, sendo este o ponto em torno da qual o primeiro livro gira.

O que tem, então, de tanta ficção? Este livro, assim como tantos mais, passa uma imagem que estar com alguém, que se sentir “querida” é a coisa mais importante da nossa vida, e para isso Anastasia negocia sua própria vontade, o respeito por si mesma e até seu bem estar físico. E o mais triste, ao contrário do que parece, ela não troca isso tudo nobremente por amor.

"Como não?!"

Olhando toda pressão que Christian Gray faz sobre ela, toda a chantagem, toda a violência física e psicológica, como poderíamos chamar isso de amor? Em um diálogo do livro, o personagem chega a assumir que se satisfaz com ela chorando de agonia. Gente, amor é outra coisa.

Mas se não é por amor, por que Anastasia insiste em ficar com ele? No inicio do livro, ela se achava uma menina sem graça, solitária, e era virgem, fato que o livro faz questão de enfatizar como uma anomalia. E de repente, ela encontra alguém que se interessa por ela e tem a opção de não estar mais sozinha. Li resenhas que pensam que ela se amarra a ele porque ele é rico, ou porque lhe dá prazer sexual, mas acho essas duas opções seriam ainda piores que a primeira... Ainda que exista esse tipo de dependência afetiva, acredito que é mais comum às mulheres (e os homens, também!) se submeterem a relações muitas vezes abusivas por medo de ficarem só.

Seja qual for o motivo, ela decidiu vender sua felicidade por um preço muito baixo.

O que há de mais perigoso, na minha opinião, é como uma ideia errada pode moldar a impressão das pessoas dentro de um relacionamento. A postura de Anastasia faz muitas pessoas acreditarem que viver em um estado de paixão intensa é condição para ser feliz. Quantas mulheres comentam “nas internets” que adorariam viver um romance desses, que adorariam achar um Christian Gray... Acontece que na vida real, uma relação que tira sua paz não é algo bonito. Violência doméstica na vida real não é algo bonito.

E por outro lado, acho a história particularmente ofensiva para as mulheres, pois deixa a impressão que mulher gosta de ser tratada com desrespeito, com violência, e que quando diz “não” na verdade está dizendo “sim”. O livro passa a imagem de que uma mulher apaixonada é capaz de tolerar abusos e seria um perigo que os homens acreditassem que isso é verdade. E um perigo ainda maior se as próprias mulheres acreditassem...

Mas mesmo se eu discordar de tudo, qual o problema de assistir? Antes de tudo, acho muito triste pensar que este tipo de enredo ganha tanta publicidade, e não quero financiar seu crescimento. Mas mesmo sabendo que minhas duas horas e meus dez reais não fazem a menor diferença para a indústria desse filme, eu deixaria de ir principalmente porque não quero ser só mais alguma coisa levada pela correnteza.

Levando em conta o conteúdo da história, eu acredito que esse é um dos casos em que eu não preciso assistir para poder criticar. Existe muita coisa boa para ser lida, vista e vivida, e não vale a pena gastar meu tempo e encher meus pensamentos com coisas que eu não quero dentro da minha cabeça.


Fernanda Gonzalez
Mestranda em Engenharia Urbana
Oficina de Valores


*obs: Caso alguém se pergunte como posso comentar sobre algo que não li ou assisti, digo apenas que o filme e o livro foram tão comentados que julgo muito difícil alguém não conhecer os pontos principais do roteiro; além disso, tenho, já que meu tempo é escasso, o costume de buscar informações sobre minhas possíveis leituras (e sobre os filmes) antes de começá-las. 

1 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns! Se mais pessoas tivessem sua sensibilidade e lucidez, o filme não faria tanto mal ao imaginário coletivo mundial.

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