Por: Fernando


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Islã e Cristianismo: convergências e divergências


Os mais recentes ataques terroristas, da Al Qaeda ao Charlie Hebdo, decapitações cometidas pelo grupo terrorista denominado "Estado Islâmico", e os atentados do Boko Haran, repercutem de forma negativa na complicada relação que o ocidente tem com o Islã. E produz em nós ainda mais medo e temor dos muçulmanos. Nesse sentido, devemos nos informar melhor sobre o Islam (ou Islã, ou Islão), para separamos essas ações terroristas do significado real dessa religião que se expande cada vez mais e já possui mais de 1 bilhão de adeptos mundo afora.

Entender o islamismo, ainda que seja de maneira breve, também deve ser do interesse dos cristãos; sobretudo porque mais de 80% dos territórios que os cristãos leem na Bíblia e também os territórios dos Pais da Igreja, hoje são territórios ocupados pelo Islã.

Evidentemente, não há condições entendermos o que é o Islamismo num único texto, como também não haveria caso fosse o Cristianismo e o Judaísmo. Mas não é pretensão deste blog oferecer um tratado sobre as religiões. Então, comprometo esse texto a uma leitura breve, informal, com os mínimos apontamentos que considero serem necessários para entendermos um pouco do assunto. Comprometo também, muito mais importante do que o texto, a deixar referências bibliográficas ao final. Espero despertar o leitor para o aprofundamento do tema.

Bem... De maneira muito informal, pensei no mínimo que precisaríamos saber sobre o Islã para não sermos preconceituosos. E como cristãos? Quais são as principais diferenças entre "eles" e "nós"? Como eles encaram o Cristianismo? Antes que você responda que "eles encaram na bala, na faca e no colete de bombas", peço que se contenha por um instante. O texto tem a pretensão de mudar essa ideia que se cristaliza cada vez mais no imaginário ocidental e provoca aquilo que convencionou-se chamar de islamofobia.

Antes de começarmos, saiba de antemão que Muhammad ibn Abdallah - Maomé, como ficou conhecido no Ocidente - implantou a paz na sua terra de origem. Um mercador que teve uma extraordinária ascensão política e religiosa, com uma mensagem que unificou uma terra pulverizada entre vários clãs que brigavam constantemente entre si, Maomé deixou de ser um simples mercador para ser o homem mais importante do seu tempo.

Vivendo uma cultura tribal, num tempo que a gente vai chamar de pré-islâmico, Maomé - só para manter a informalidade no texto - nasceu Meca entre 567 e 572 e pertenceu à poderosa tribo dos coraixitas. Nesse contexto, o ponto principal é ter em mente que na Arábia Central pre islâmica, vivia-se uma cultura de tribos com muitos conflitos internos, onde cada tribo beduína enfrentava constantemente a possibilidade de ser extinta. Os muçulmanos acreditam que em 610, na caverna de Hira, Maomé teve uma visão na qual o anjo Gabriel fez a primeira de uma série de revelações. No islamismo, o Anjo Gabriel é muitas vezes identificado como o Espírito Santo da revelação, e por meio dele Deus se comunica com os homens.


Segundo a tradição islâmica, depois de muito relutar Maomé assumiu a condição de profeta. E, como profeta do Islã, iniciou seu apostolado pela Arabia Central valendo-se de um fenomenal gênio religioso e político para aproveitar as circunstâncias históricas e fazer triunfar uma mensagem profética que se adequaria ao povo árabe. Maomé mudou radicalmente não apenas a sua própria história, como também a história da Arábia: desde a sua fuga para Medina em 622 ( a Hégira. Quando na verdade começa o calendário islâmico: "a.H e d.H") até o retorno triunfal à Meca. Maomé, não é exagero afirmar, criou uma unidade entre os árabes quando acabou com a perpétua disputa e barbarismo entre as tribos.

Bem... Talvez interesse saber e que um dos pontos que aproxima o Islã do cristianismo é que Maomé também considera Abraão como uma dos pais da sua fé. Aliás, lembro que muitos personagens da Bíblia são considerados profetas pelo Islã: Adão, Noé, Abraão, Moisés, Jesus... E uma coisa interessante: para o Islã, Jesus foi o único profeta que não pecou.  Os muçulmanos também acreditam que Jesus nasceu de Maria virgem, fato que está no Corão (surata 3:45,47). Ou seja, ao seu modo,  os muçulmanos também referenciam Jesus Cristo.

Tudo certo, então? 

Estaria.. Mas nós não consideramos Jesus apenas um profeta. 
E aqui começam as divergências...


Explicando a grosso modo, para os muçulmanos, Allah deixou algumas revelações para os povos pre islâmicos, na Torá e nos Evangelhos. Mas entendem o Corão, para eles o mais bem acabado desses livros, já que foi o último e que foi revelado ao próprio Maomé pelo anjo Gabriel por revelações auditivas em língua árabe. Revelações que foram coletadas ao longo de vinte anos na vida de Maomé e que só receberam o acabamento final no Corão depois de outros vinte anos. Para os muçulmanos o Corão é o último livro e Maomé, o último profeta. Vêem as revelações numa escala evolutiva por assim dizer. Comparando o Corão e Maomé aos outros livros e profetas, julgam como se o último fosse um aprimoramento em relação aos outros.

Começando a complicar, né? 

E ainda vai complicar mais!

De certo modo, quando começou sua ascenção profética, Maomé estava tentando conciliar seu monoteísmo - ou ao menos não queria muitas divergências - com o monoteísmo judaico, já que Allah era o Deus idêntico ao adorado por judeus e cristãos e era o Deus que Maomé tinha como referência. Tanto que inicialmente as orações islâmicas eram voltadas para Jerusalém. Mas os judeus de Medina não aceitaram Maomé como um profeta, além do que, por terem um conhecimento superior das escrituras, conseguiam achar com facilidade "buracos" nas histórias do Corão. E muitos judeus medinenses rejeitavam as pretensões de Maomé e seus seguidores e os hostilizavam por considerarem bárbaros e um povo sem nenhuma revelação de Deus, ou seja, um Livro Sagrado. Tal estado de coisas fizeram as orações muçulmanas mudarem de endereço em 624. Reajustaram o GPS: de agora em diante as orações seriam em direção à Meca, mas especificamente em direção à pedra mais sagrada que existe, para os muçulmanos: a Pedra de Negra da Caaba, que acreditam ter sido feita por Adão quando expulso do Éden, destruída no dilúvio e reconstruída por Abraão.

Os problemas estão aparecendo?

Mas, entre as principais divergências que opõem Islamismo e Cristianismo, muçulmanos e cristãos, destaco duas: a começar que eles não acreditam que Jesus tenha sido crucificado, porque para o Islã, Allah não permitiria que um profeta Seu fosse crucificado. Acreditam que na hora da crucificação, alguém parecido com Jesus foi crucificado no Seu lugar. São várias teorias para explicar essa substituição. Uma delas, por exemplo, fala que foi Judas. Mas os muçulmanos não tem uma explicação para o que teria acontecido com o corpo de Jesus. "Antes Deus o levou até Ele. Deus é poderoso e sábio (surata 4:158,158)". Essa é a única surata sobre essa questão da morte de Jesus no Corão e deixa margens para interpretações.

Isso é uma coisa...

Outra divergência, talvez a mais grave delas para nós. Os muçulmanos não aceitam a Santíssima Trindade. E aqui temos uma desconexão cultural e linguística. Linguística porque não existe um termo em árabe para a palavra trindade. Além disso, a complexidade dessa discussão chegou muito distorcida aos ouvidos de Maomé que em suas revelações, compiladas no Corão, desconfiava bastante das especulações teológicas, desconsiderando-as como "zanna”, ou seja, uma mera adivinhação,  falar sobre coisas que ninguém é capaz de conhecer. Não é exagero dizer que até hoje os muçulmanos têm muita dificuldade em compreender a Trindade.

E existe outra problemática: uma dificuldade também em entender o Deus Pai. Existem 99 maneiras de se tratar Deus no Corão. Nenhuma delas como "Pai". Para o muçulmano, ser pai é mais ou menos exercer uma função animal: ser pai é ter filhos. Para os muçulmanos seria atribuir a Deus uma função a animal. O que seria, de certo modo, uma blasfêmia.
Estas são algumas das divergências que você vai encontrar entre cristianismo e  islamismo. Nada tão exótico como cientologia, ou o budismo. As divergências estão aí postas. E, é claro,  nenhuma divergência autoriza os extremismos, seja cristão ou muçulmano, a cometer atentados terroristas. E as religiões Cristã e Islâmica não pregam isso.

Pronto. Um texto compacto que teve que dar vários saltos para ser minimamente sintético.

Com essas informações, Salaam Aleikum,  "Salamaleico". E que Deus esteja conosco.

Fernando Duarte
Professor de História / Oficina de Valores


Bibliografia:

- ARMSTRONG, Karen. Uma História de Deus: quatro milênios de busca do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, Ed. Companhia das Letras, São Paulo, SP. 1994.
- BINCKEL, Bruce, JANTZ, Stan Pequeno Guia sobre o Islamismo, Ed. Unidet Press, Campinas, SP, 2003.
- ELIADE, Mircea, História da Crença e das Ideias Religiosas III: De Maomé à Idade das Reformas, Ed. Zahar, Rio de Janeiro, RJ. 2011.
- FLETCHER, Richard, A Cruz e o Crescente: Cristianismo e Islã, de Maomé à Reforma, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, RJ. 2004
- SOURDE, Dominique, Historia do Povo Árabe, Ed. José Olympio, Rio de Janeiro RJ. 2011
- O Alcorão, tradução Mansour Chalita - NÃO ENCONTREI Copyrigth para citá-lo.

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