Por: Marcos Levi


O Schindler que falava português

Não virou filme ou série televisiva, foi execrado no seu tempo pelo seu governo, é um desconhecido mundo afora, no entanto, nenhuma das vidas salvas por ele é menos importante. Mártir da sua consciência, livre nas suas ações, prisioneiro do bem que fez.

Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches nasceu na pequena aldeia Cabanas de Viriato. Cursou Direito em Coimbra e foi morar em Lisboa no começo do século XX. Foi pai 14 vezes, tendo a mesma mulher a vida toda e zelando pessoalmente pela educação dos filhos, que eram de diversas nacionalidades. Entre suas ocupações como cônsul, esteve por aqui em terras brasileiras, além de outras regiões como EUA e Zanzibar. Por essas andanças, foi reconhecido com títulos e homenagens pelas suas atividades diplomáticas, no empenho para promover Portugal. No fim da década de 30 do século XX, foi transferido para Bordéus, na França, e seu calvário só teria fim com sua morte em 1954, não antes de salvar milhares de judeus do braço do nazismo.

A França, invadida na Segunda Guerra Mundial, gerou uma grande quantidade de refugiados dentro do próprio território francês e de outros fronteiriços. Muitos desses refugiados migraram para a parte da França que, apesar de estar dominada, detinha relativa independência, a república de Vichy. Parte desses refugiados, milhares de judeus e outros perseguidos chegaram a Bordéus, onde Sousa Mendes era cônsul, ou seja, responsável por dar vistos para que essas pessoas pudessem sair do país. Por causa dessas circunstâncias, ele se viu numa situação que marcaria o resto de sua vida: ou ele mantinha o rigoroso processo para os vistos, mantendo a neutralidade assumida por Portugal; ou relaxaria na concessão dos vistos, podendo condenar sua vida e a neutralidade portuguesa. Este dilema foi resolvido segundo o próprio Sousa Mendes pelo seguinte princípio: "Se há que desobedecer, prefiro que seja a uma ordem dos homens do que a uma ordem de Deus". As ações seguintes sepultaram-no e condenaram seus familiares ao degredo.

Sousa Mendes, junto com alguns auxiliares e dois de seus filhos, deu vistos a todos que pediram. O número de pessoas salvas pode chegar a 30 mil, dos quais mais de 10 mil eram judeus. Para ajudar essas pessoas, usou de todos os meios e alegações possíveis, e mesmo sendo transferido para Baiona, no Sul da França, continuou incessantemente com o propósito de salvaguardar aqueles que fugiam do nazismo. Logo que foi afastado de suas atribuições, ainda na França, conduziu alguns refugiados pela fronteira com a Espanha. No entanto, tão logo soube das ações de Sousa Mendes, o governante da ditatura portuguesa, o primeiro ministro Antônio de Oliveira Salazar castigou com toda força as ações do cônsul, que foi despedido sem nenhum tipo de aposentadoria, não pôde exercer a função de advogado e foi execrado na sociedade. Sobreviveu com a ajuda da comunidade judaica de Lisboa, teve de se desfazer de seus bens e emigrar seus filhos para os EUA. Poucos anos mais tarde, em 1948, sua esposa, Angelina, faleceu. Seis anos depois, num hospital franciscano, Souza Mendes morreu sem nem mesmo ter uma roupa para ser enterrado. Foi sepultado com hábito dos franciscanos. Sua redenção e reconhecimento só vieram verdadeiramente no final dos anos 80. Recebeu homenagem póstuma de uma associação judaica, com a frase “Quem salva uma vida humana é como se salvasse um mundo inteiro.” 


Marcos Levi
Historiador  / Oficina de Valores

1 comentários:

Ju disse...

Que texto bacana. Gosto bastante de ler sobre histórias assim, de homens que lutaram contra a pressão da época, da sociedade e dos poderosos e que em prol de um bem maior correram riscos terríveis como perder a própria vida.
Fico muito grata por ler esse texto.

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