Por: André
A pior das corrupções


No Brasil quando falamos de corrupção logo associamos à má conduta de agentes públicos, políticos e funcionários do Estado, e/ou desvio de recursos públicos para benefícios privados. Porém também existe uma dimensão muito mais próxima da gente que é a de obter alguma vantagem em relação às demais pessoas em situações mais práticas do cotidiano, desde colar numa prova a entrar num esquema de compra de carteiras de motorista.

Como todos sabemos, nos últimos meses vemos em nosso país o que pode ser o maior caso de corrupção de sua história. Os escândalos envolvendo os contratos da Petrobras envolvem altas cifras, líderes políticos, executivos da estatal e de empresas privadas. O custo deste acontecimento para sociedade, independentemente de seu resultado, já é alarmante. Ele pode ser medido, principalmente, pela perda de valor das ações da empresa, fornecedores que têm seus contratos atrasados e por isso tem que atrasar salários, dispensar empregados, ou, em casos mais extremos, até fechar as portas, e pela perda de credibilidade no exterior por parte de investigações que vem sendo realizadas paralelamente nos EUA.

Por mais que este escândalo nos choque, e deva chocar e causar indignação, pois desviar recursos de uma empresa que pertence à sociedade é mais que um simples roubo, que já é errado, é uma falta de caridade, uma afronta ao bem comum, ao bem de todos, ao longo de nossa história sempre soubemos de casos de corrupção, independentemente do partido no poder ou do regime no qual o país se encontrava. E, felizmente, sempre que esses escândalos vieram à tona, nos causaram indignação. Por mais que muitas vezes não tomemos medidas concretas para combater a corrupção essa indignação que ela nos causa é boa, mostra que nossa bússola ético-moral ainda aponta para o norte. Nossa bússola pode não ser precisa, mas não se encontra completamente adulterada.

Uma evidência de que ainda temos um senso de certo e errado é fato de um indicado como envolvido em um esquema de corrupção majoritariamente adotar uma das posturas a seguir: Negar a existência do esquema, negar sua participação, negar seu conhecimento ou afirmar seu conhecimento ou participação em troca de uma pena mais branda.

Já na esfera privada um bom indicativo é que as pessoas que comentem essas corrupções “cotidianas” não se sentirem à vontade para bradar aos quatro ventos que cometem algum destes atos. Por exemplo, acho muito provável que um garoto de ensino médio “tire onda” com os colegas que conseguiu colar na última prova de física. Porém acho pouco provável de ter esta mesma atitude perante os seus pais, por saber que é uma atitude condenável.

Em ambos os casos ainda existe uma consciência do que é certo e errado. Por mais que esta consciência não seja forte o suficiente a ponto de ter de evitar que as pessoas hajam de forma condenável, esta consciência está ali filtrando o que é louvável do que é condenável. O pior caso ocorre quando os critérios utilizados para fazer estes julgamentos desaparecem, ou pior ainda, invertem-se e o que é bom passa a ser visto como mau e o que é mal passa a ser visto como bem.

A pior das corrupções não é colar numa prova, desviar altas somas de dinheiro ou a péssima conduta de um agente público, mas sim transformações destas e de outras ações condenáveis como padrão adequado de agir e que deva ser imitado. Com esta reflexão não quero de maneira alguma justificar e/ou minimizar os escândalos de corrupção, passados, presentes e futuros, mas sim chamar atenção que o pior não é fazer algo errado sabendo que está errado, mas sim que querer chamar de “certo” algo que necessariamente é errado.


Por isso, devemos estar sempre atentos aos critérios que usamos para julgar nossas ações e a políticos que se mostram como idôneos e íntegros, e muitas vezes até o são, mas suas bandeiras e causas vão no sentido de transformar em “certas” coisas que são erradas.

André da Costa
Mestrando em Economia - UFRJ
Oficina de Valores

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