Por: Rodrigo

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Corro o risco de adotar um marginal?

Conversando com um amigo recentemente, tocamos nessa problemática que resolvi transformar em texto. Faço questão de esclarecer que não sou geneticista, nem sequer especialista no assunto, sou apenas um psicólogo intrometido e interessado na temática. Pesquisei um pouco e utilizei os conhecimentos que tenho de desenvolvimento humano e psicologia da personalidade para desenvolver de forma sucinta uma pequena elucidação de alguns aspectos.

Muito se fala em adoção atualmente, seja pelo advento dos casais homossexuais, seja pelas mais diversas causas de infertilidade, ou até mesmo por uma conscientização de que há necessidade de oferecer um lar para uma série de crianças que se encontram em orfanatos, seja por perda, ou abandono. Só que entre pensar na adoção e executá-la, existe um longo caminho (isso sem falar nas questões legais, que não me proponho a abordar neste texto). Creio que a primeira questão que se coloca é: por que adotar?

Vale a pena fazer essa reflexão, e por isso resolvi dividi-la em 3 pontos:

1 - Penso em adotar para satisfazer uma lacuna? Esse é comum no caso dos que não podem ter filhos por fatores biológicos e em resposta a isso buscam a adoção como forma de preencher esse vazio e resolver essa frustração, o que em si não é um mal. Mas pode se tornar, na medida em que depositam uma carga de cobrança muito grande em cima da criança adotada.

2 - Penso em adotar por autoafirmação? Essa pode parecer absurda num primeiro momento, mas se adentrarmos a questão, veremos que não. Existem pessoas que fazem um esforço muito grande para ficarem com a consciência limpa. É aquele caso de alguém que esbanja dinheiro na ostentação da fartura o ano inteiro, sem o menor comprometimento social, e ao chegar o fim de ano distribui umas cestas de natal e doa uma quantia para alguma instituição e se sente aliviado por ser ‘caridoso’. Por mais louco que possa parecer, há pessoas que veem a adoção dessa maneira, como um desencargo de consciência, fazem para afirmar para si e para os outros que são bons e caridosos.

3 – Penso em adotar por amor? Creio que essa seja a única 
motivação de fato justa para uma adoção. Elementos presentes nas anteriores podem estar presentes? Quase que inevitavelmente sim. Mas o amor deve e precisa prevalecer. A adoção não deve ser pensando em si, mas no adotado. Há uma criança que tem direito a um lar, direito ao amor e a uma boa criação e eu posso oferecer isso a ela, portanto, vou adotá-la. Se posso ou não ter filhos, se tenho ou não lacunas a serem preenchidas é secundário, o que realmente importa é que tenho o que aquela criança precisa e adotar é esse gesto de amor e desprendimento, um sair de si ao encontro da criança.

Posto isso, vamos para as seguintes questões que se colocam: Quando vou adotar uma criança, corro o risco de colocar um marginal em casa? Não conheço sua família biológica e não sei as influências que terá recebido.

Essa questão dá pano pra manga. Entramos numa das maiores disputas encontradas em se tratando de desenvolvimento da personalidade. O que determina a construção da personalidade de alguém? A hereditariedade ou a criação? É possível uma criança ter má índole hereditária?

Primeiro, vale pensar que a idade da criança influenciará muito nisso. Um adolescente, sem dúvidas terá uma propensão maior a ter má índole do que um recém nascido, e isso independente da carga genética, pois compreende o simples fato dele ter tido mais influências do meio, provavelmente ter experimentado mais intensamente o abandono, rejeição, etc. A respeito das influências hereditárias, elas obviamente existem. É inegável a influência da hereditariedade nas características físicas de cada indivíduo (a cor dos olhos, do cabelo, da pele, a estatura, o peso, etc.). Já não se poderá estabelecer uma relação tão íntima entre a herança genética e as componentes de índole cognitiva ou características da personalidade.

A hereditariedade desempenha um papel fundamental na constituição dos sistemas nervoso e endócrino, que assumem um papel decisivo no comportamento humano, bem como outras estruturas orgânicas. Então podemos dizer que a hereditariedade é um fato a ter em conta quando se quer explicar a personalidade do ser humano, porém não é o único.

Julgo importante sempre retomar o famoso caso do Kaspar Hauser. Para quem não conhece o caso trata-se de uma criança abandonada que viveu toda a sua infância trancafiada em um porão, não estabelecendo nenhum tipo de convivência social, sendo apenas alimentada como um animal. Ao ser descoberto e integrado à sociedade, Kaspar se comportava como um animal e não como uma pessoa. A herança hereditária dele era humana, sua personalidade era selvagem. Aliás, o caso dele não é o único, há uma série de experiências, conhecida como “crianças selvagens” com casos similares.

O ponto a que quero chegar é que não existe determinismo biológico. Uma criança não pode simplesmente ser ruim por conta de uma má herança genética. O que ela pode sim é carregar marcas de um abandono, de uma rejeição, marcas psicológicas mesmo que podem até ser grandes limitadores, mas jamais serão determinadores também. Tanto a genética, quanto o meio (criação e contexto social) exercem influência sobre o desenvolvimento da personalidade (a meu ver, o meio muito mais), contudo toda pessoa é dotada de consciência, liberdade e responsabilidade, o que significa que em última instância ela é a principal responsável pelo seu próprio destino, nem os pais biológicos, nem adotivos, mas ela.

A conclusão é que qualquer pessoa pode e deve ser feliz. Isso não é clichê e nem conto de fada. Defendo, de verdade que apesar de todo e qualquer limitador externo e até mesmo interno, a força de resignificação e determinação do ser humano é maior. Pensemos nas grandes personalidades, por exemplo: Roberto Bolaños que quase foi abortado, grandes artistas que sofriam com autismo, esquizofrenia, bipolaridade, enfim, é possível ser feliz para além do contexto e das circunstâncias. Corro o risco de adotar um marginal? Essa era a pergunta inicial, e a minha resposta é categórica: NÃO. Mas eu corro risco de criar um marginal? Minha resposta também é categórica: SIM. A influência de quem cria é muito forte, vale a pena aplicar isso a adoção e aos filhos naturais também. Quanto mais eu crio condições para o desenvolvimento da consciência, liberdade e responsabilidade da criança, mais eu crio um ser humano, quanto menos eu privilegio isso, mais eu crio um monstro.

Quanto aos critérios para adoção: tamanho, idade, etnia, etc, acho justo estabelecer parâmetros, obviamente, mas penso que quem muito escolhe, pouco ama. O beneficiado com a adoção, pelo menos na intencionalidade não pode ser quem adota, mas quem é adotado. Claro que depois, quem se doou também sai ganhado, pois há mais alegria em dar que em receber. Uma frase que pra mim traduz toda essa reflexão e que me faz crer que vale a pena acreditar na adoção, acreditar no ser humano, é de um sábio homem que disse certa vez: "Onde não há amor, coloca amor e colherá amor”.*


Rodrigo Moco
Psicólogo / Coordenador da Oficina de Valores

*Frase de São João da Cruz

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