Por: Pedro

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Por que tratamos mal “os nossos”?


Há um comportamento um tanto quanto estranho que todos nós já adotamos alguma vez em nossas vidas, ou, ao menos, vimos alguém adotá-lo. Trata-se desse intrigante modo de agir em que se trata menos bem as pessoas mais próximas, nossos familiares sobretudo, do que outras pessoas menos importantes, cujos laços conosco são mais superficiais. Todos nós já devemos ter feito, ou fazemos isso, mesmo aqueles de nós que são considerados boas pessoas. É possível que a causa dessa atitude tenha por origem o nosso egoísmo, os nossos interesses pouco nobres que fazem com que nos preocupemos apenas conosco mesmos.

Tal comportamento, muitas vezes, está presente tanto na vida dos mais quanto dos menos virtuosos. Quanto às pessoas que não são lá muito boas, de fato não é de se esperar que tratem muito bem os seus próximos. Mas e as pessoas que consideramos boas, melhores? Como é estranho quando isso ocorre com alguém por quem temos grande admiração! É o simpático e pró-ativo trabalhador que se mostra completamente impaciente com a mãe ou esposa no telefone. O jovem revolucionário que diz amar os pobres do mundo inteiro, mas não ajuda o irmão no dever escolar ou a mãe a lavar uma louça. Ou aquele nosso ótimo amigo que, quando vamos pela primeira vez à sua casa responde atravessado a sua mãe que apenas lhe questionou se ficaria para o almoço. Talvez a discrepância no humor seja a situação mais corriqueira. Quanto bom humor na rua, mas em casa....  Costumamos ficar um tanto chocados quando vemos isso ou quando percebemos que o fazemos. Parece que a boa imagem que tínhamos de nós ou da pessoa em questão se desfaz, e não é verdade que pensamos: “Como foi/fui capaz disso? Isso é muito estranho, fulano é tão bom... Como pode haver tamanha duplicidade?”

E o pior é que de fato devemos mesmo ficar chocados aos nos depararmos com essa situação, e certos de que há algo de muito errado.  Há ao menos uma falta de coerência, duplicidade, e apesar de não sermos especialistas em ética, sabemos que as pessoas devem buscar ser as mesmas sempre e em todos os ambientes por que passam. Falta unidade de vida quando isso ocorre, passamos a representar distintos papéis conforme o ambiente, o que faz com que percamos a paz que a simplicidade e a sinceridade trazem. Afinal de contas, agimos sempre muito bem, somos admirados no trabalho e nas nossas relações de amizade, e só algumas poucas vezes tratamos um pouco mal “os nossos”, que, afinal, nos entendem e não se importam tanto com esse nosso jeito, então será mesmo que esse comportamento é tão ruim?? Não nos enganemos, pois é justamente com as pessoas mais próximas que mostramos como realmente somos por dentro. É com essas pessoas que nos sentimos mais a vontade, e, assim, conseguimos ser mais nós mesmos. É tal ideia está por trás daquele bom e simples conselho que as pessoas mais velhas (ou mais prudentes) costumam dar aos mais jovens: para verificar se o namorado (a) é bom/boa mesmo, veja como trata sua família.   


Mas tentemos ir à raiz. O que nos faz agir assim? O que explica tamanha mudança no comportamento ou tendência a tratar menos bem os mais próximos? É possível que o egoísmo seja uma da causas desse comportamento. Esse apego a nós mesmos e aos nossos interesses em detrimento dos outros. Não tratamos bem aos outros porque isso é bom, mas porque temos algum interesse por trás. Se julgássemos não ter nada a perder não sendo cordiais com os colegas de trabalho ou superiores, por exemplo, com certeza não os trataríamos melhor que os nossos familiares. Trataríamos sempre muito bem (ou muito mal) a todos, independentemente da proximidade. A verdade é que sabemos que mesmo sendo ríspidos, ingratos, chatos, com os nossos próximos, eles não deixarão de gostar de nós, de nos ajudar. E, assim, quando não há interesse nenhum, nós agimos como uns tolos. E, por outro lado, quanta cortesia e bom humor com outros. É que há muito em jogo, não é mesmo? A boa imagem no grupo, os convites, as notas, o próprio emprego... Mas será que não deveria ser justamente o contrário? Nossas atitudes deveriam se manter retas justamente em situações em que qualquer interesse estivesse ausente. Nas mesmas situações em que não temos nada a perder ou ganhar, pois isso demonstraria pureza nas nossas intenções, e que é o bem que nos importa e não os interesses mais ou menos mesquinhos. Trata-se de buscar agir sempre bem independentemente das contrapartidas que possamos ter.   Além do mais, tenhamos em conta que “os nossos” são justamente aqueles a quem deveríamos tratar com mais cuidado, pois são aqueles que gostam de nós pelo que somos, e que nos deram e dão tudo, tanto bens materiais quanto os bens mais preciosos como a educação.... Sejamos minimamente proporcionais e gratos, e tratemos melhor aos nossos pais, irmãos, familiares e amigos. 

Pedro Simas
Estudante de Direito

1 comentários:

Amanda Noel disse...

Muito bom o texto! Diria que "os nossos" são as pessoas com quem mais passamos nosso tempo, dividimos nossa vida e convivemos. A convivência, esse contato mais intenso e íntimo, nos faz descobrir o outro, as suas qualidades e imperfeições. A maneira como lidamos tanto com os defeitos quanto com as qualidades dessas pessoas é o que muda tudo. Podemos nos deixar levar pelos conflitos, que são bem mais propícios, pela impaciência, falta de zelo e termos como consequência o tumulto, e nos faltar a paz. Ou podemos reconhecer e nos esforçar para enxergar o lado bom de cada um e darmos também o melhor que há em nós, e termos os mais agradáveis e simples momentos. Conviver, ou digo ainda aprender a conviver, não é fácil, confesso, mas é o que dá sentido a vida, é saber amar, deixar ser amado e se doar. Isso me faz lembrar a música..."É impossível ser feliz sozinho..."

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