Por: Rodrigo
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Todo começo carrega consigo alguns desafios. Quem não se lembra do receio de ir ao primeiro dia de aula? Acostumados ao conforto do nosso lar e ao contato com, no máximo, parentes e amigos de nossos familiares, somos expostos a um novo ambiente, com demandas próprias, que nos coloca em evidência, exige amadurecimento, não é fácil. Quem já teve de se mudar de casa ou de cidade sabe como é deixar a segurança do espaço que é seu, para aprender a se encontrar num espaço desconhecido.

Começar algo é sempre aventurar-se por caminhos ainda não explorados, todo ser humano passa por isso várias vezes ao longo da vida, e é inclusive essencial para a sua experiência. Começamos a estudar, a frequentar lugares novos, a fazer amizades, a namorar, a trabalhar, a experimentar práticas de atividades físicas novas, a explorar opções de divertimento, a fazer cursos e especializações, começamos, começamos e começamos. Quantas coisas começamos ao longo da vida? Tantas, muitas, incontáveis, certamente. Uma pergunta que cabe aqui é: Por que as começamos?

Creio que, toda vez que começamos algo novo, temos um objetivo a ser realizado com aquilo. Começamos a estudar para que nos formemos. Começamos a trabalhar para que tenhamos o sustento e também nos realizemos profissionalmente. Começamos uma amizade para que nunca acabe. Iniciamos um namoro e sonhamos um dia casar. O fato é que as coisas são finitas. Isso significa que todas as coisas que começamos um dia terão um fim.

Dos maiores desafios da humanidade é encarar a sua própria finitude. Temos sede de infinito, mas nos deparamos frequentemente com o fim. Quem nunca experimentou a fossa de um fim de relacionamento? Aquela sensação terrível de que você percebe uma história construída esvaindo-se pelas mãos sem nada poder fazer, a dor e a angústia de pensar que você não vai encontrar uma pessoa tão boa quanto a que acaba de perder. Quem já passou pela triste realidade da demissão em um emprego sabe bem o que é sentir-se desnorteado. O mesmo quando passamos pela reprovação em uma matéria, a perda de um patrimônio. Começar é sempre um parto e terminar é sempre um luto.

Realidades que parecem tão distantes são na verdade mais próximas que podemos imaginar. O fim é doloroso por dois motivos: ele vem para dizer que aquela história acabou, e como é difícil reconhecer que nem todos os nossos sonhos se realizam, que projetos se perdem com o tempo – o fim é a dor que nos faz lembrar que não somos onipotentes; o segundo motivo é que diante do fim, temos sempre duas alternativas, ou nos paralisamos ou recomeçamos, e ambas são extremamente dolorosas. Paralisar-se é doloroso porque é uma mutilação do que somos. A vida é movimento, e quando abdicamos disso perdemos o nosso sentido. Recomeçar é um mal necessário, do qual não conseguimos escapar.

Recomeçar é, antes de qualquer outra coisa, olhar para o que vivemos anteriormente e, enxergando isso com clareza ou não, aceitando ou não, reconhecer que podemos ter pela frente uma história melhor do que a que tivemos até aqui. A dificuldade em realizar esse movimento se deve ao fato de que às vezes é difícil acreditar que conseguiremos. Podemos ser tomados por aquela falsa sensação de que fizemos tudo o que pudemos na história anterior e que se ela não deu certo é porque não temos jeito. Quem jogou vídeo game sabe bem qual é a sensação de passar dias, semanas, talvez meses num determinado jogo e, quando está chegando às fases finais, dá algum problema, não salva e tem de voltar do início. É bem essa a sensação, mas é claro que se tratando de vida real a dor é maior.

Há muitos motivos para as coisas terminarem. Por vezes, elas são interrompidas abruptamente, como uma morte provocada por um acidente, uma mãe que decide abortar. Em alguns casos, chegam ao fim pela constatação de que não deram certo, como num término de namoro, uma demissão em um emprego, a desistência de uma faculdade. Esses casos em especial são a meu ver os mais perigosos, porque por um lado é necessário ter um senso crítico bem trabalhado para saber constatar quando não vale mais a pena insistir em algo que não dá certo, por outro podemos antecipar o fim sem antes lutar pela história que foi construída. Quantas famílias desfeitas nessa perspectiva? Quantos talentos desperdiçados? Somos programados para pensar que sempre vale mais a pena a troca do que o conserto, e algumas vezes certamente valerá, mas em outras tantas não. As coisas são finitas sim, mas por vezes nossas escolhas fazem com que elas durem menos do que deveriam durar. Por fim, cabe pensar que às vezes o fim aponta para algo maior, como um namoro que culmina num casamento, uma formatura na faculdade que significa o ingresso na vida profissional. E assim segue a dinâmica da vida: todo começo tem um fim que abre as portas para uma nova história.

Se o começo é um parto e o fim é a morte, o recomeço é a ressurreição. Por mais que muitas vezes o recomeço seja indesejado, ele é a oportunidade que temos de experimentar o infinito de forma concreta. De perceber que o fim não tem a palavra final na nossa vida.



Rodrigo Moco
Psicólogo
Oficina de Valores

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