Por: Thales
Imagem: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr


Não tem muito tempo que acompanho o cenário político brasileiro. Não sou especialista em macroeconomia ou legislação. Aqueles que se reconhecem especialistas, porém, admitem que o Brasil se encontra em uma das mais trágicas páginas de sua história. Aquela que ocupa o posto de chefe de governo e de estado é acusada de grandes crimes contra o patrimônio e a população brasileira. Essa não é uma acusação simples, mas uma acusação que foi aceita pela plena maioria dos deputados e senadores da república. Esse fato, e suas consequências políticas, devem ser, por si só, um grande motivo de tristeza e de desalento para os brasileiros que assistem a esse episódio.

Digo que deve ser pois a situação, da forma que se apresenta a nós, possui apenas duas explicações possíveis, e ambas são igualmente desanimadoras. Por um lado, temos um possível cenário em que uma presidente democraticamente eleita cometeu crimes orçamentários graves que lesam a pátria e, por consequência, todos os brasileiros e brasileiras (incluindo aqueles que a elegeram). Se esse não é o caso, então o que temos é um número assustador de deputados e senadores, igualmente eleitos pelo povo, que são conspiradores, oportunistas; ou são pelo menos absolutamente incompetentes (se fôssemos a tal ponto ingênuos de considerar isso). Sejam os fatos quais forem, a palavra que reverbera em cada canto do país, sussurrada ou gritada, é crise.

Porém, por debaixo de toda essa crise política, muito mais tenebrosos do que impeachment, golpe, Cunha, Dilma, Temer, e tudo mais, são os comportamentos que essa crise revela. E não são os comportamentos por parte dos políticos, dos juízes, dos corruptos, que são os mais temíveis e assombrosos. São os nossos… Precisamos falar sobre alguns desses comportamentos.

Vimos, durante todo o processo de instalação do impeachment, um partidarismo radical, uma polarização entre esquerda e direita, golpistas e corruptos, coxinhas e petralhas. Essa situação revela uma paixão futebolística, que vemos com frequência nos embates esportivos, mas que em nada contribui para uma discussão sadia e para desvendar os fatos ou revelar as melhores interpretações para eles. Uma discussão assim, na qual nenhum dos lados tem o compromisso de escutar com lealdade e honestidade o outro, nada mais é do que uma luta entre cegos, em que todos acabam feridos de morte. Quantas amizades foram desfeitas por conta dessas disputas apaixonadas? Agora a disputa acabou. O que sobra? Aqueles que consideraram tudo como um embate, dirão que o que sobra são vencedores, de um lado, e perdedores, de outro. Os perdedores serão consumidos pelo revanchismo e pelo desejo de vingança. Os vencedores terão como prêmio apenas a letargia.

Um outro aspecto sórdido que observo em nossas interações sociais, fruto deste momento, é a concepção de que política é apenas isso aí que estamos vendo. Essa coisa suja e asquerosa, da qual o melhor é manter distância. Isso é perigoso. É uma bomba relógio em nossas mãos, prestes a explodir e provocar consequências catastróficas. Muitas vezes fui ridicularizado, com comentários bem pouco motivadores, por perder meu tempo acompanhando com avidez as notícias, ou gastá-lo vendo as sessões, votações e julgamentos que marcaram esse processo.

Lembro aqui uma frase que tem me incomodado muito: num país em que os bons não se interessam por política, os maus governam. Se não assumimos para nós mesmos o protagonismo da ação política em nossa cidade, estado ou país, vamos para sempre nos ressentir e reclamar do fato de que somos governados por aqueles que não defendem o interesse coletivo, o bem comum. Vamos sempre sofrer as consequências das decisões tomadas por aqueles sem princípios, sem escrúpulos, sem valores… Não podemos ser ingênuos: a política brasileira é, de fato, uma coisa suja. Mas chegou a hora de arregaçar as mangas para limpá-la. E quem tem o dever de fazer isso não são “os políticos”. Esse dever é meu e seu, para ser levado a cabo nas representações políticas sim, mas também nos nossos grupos de amigos, nas nossas famílias, nos ambientes de trabalho e estudo.

Por fim, queria falar sobre um último tema que tem me incomodado muito. Esse processo foi, em muitas de sua etapas, um episódio digno de lástima. Tem se dito por aí que o Brasil não é um país sério. Tenho que confessar que, depois das incompetências do governo, as irresponsabilidades da oposição, os vexames em rede nacional por parte dos representantes do povo… Depois das manobras de Cunha, os deslizes de Dilma, os episódios protagonizados por Bolsonaro, Maranhão, etc… Depois de ter visto isso tudo, eu tenho a tristeza em admitir que sou tentado a concordar com essa frase. O Brasil realmente não parece ser um país sério.

Mas lembro aqui o que respondeu um pensador que assistia à queda do grande Império Romano, àqueles que o perguntavam como seria possível sobreviver a esses “tempos difíceis”. Escreveu Agostinho: “Tempos difíceis, tempos terríveis, dizem os homens. Mas os tempos somos nós. Como nós formos, assim serão os tempos”.

Estou convencido de uma coisa: só superaremos estes “tempos terríveis” quando o que eu quiser para o país for o que eu quiser para mim. Este momento não pode nos encerrar num profundo desespero diante das dificuldades que se revelam pelas maquinações sórdidas, pelas manobras ao apagar das luzes, e pelo contexto desfavorável de nosso ambiente político. Não podemos permitir que este momento nos precipite no desinteresse pelo futuro grandioso que há de vir. Pois ele virá. O Brasil é digno dele. Cabe apenas a nós mesmos decidir se seremos nós os protagonistas deste futuro, se seremos nós os que terão a coragem e a honra de conquistá-lo... ou se seremos os meros expectadores, oportunistas e infelizes de amanhã.


Thales Bittencourt
Doutorando em Filosofia
Oficina de Valores

1 comentários:

Davison De Paula disse...

Excelente texto Thales!
A gente nem percebe e comete os mesmos erros que critica. Obrigado por trazer um pouco de luz neste momento de trevas.
Abraço cordial!

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