Por: Joyce





Enquanto escrevo, penso que os papeis ao meu lado na mesa já deveriam ter sido organizados em alguma espécie de pasta específica para eles. O problema é que toda vez que eu imagino organizá-los eu não sei qualificar esses documentos como nada do que eu já tenha guardado em pastas, então eles ficam aqui em lugar nenhum – e ao mesmo tempo ocupando o precioso espaço da minha escrivaninha de trabalho.

Nasci e cresci estando em uma casa só, sem nunca ter mudado, assim como minha mãe (que, inclusive nasceu na referida casa). Só tive a experiência da mudança quando me casei e, mesmo assim, foi muito suave pois com o casamento a imensa maioria das coisas foi nova, então além das roupas e pertences pessoais, não houve muito o que fosse carregado ou transladado por nós: era a gostosa sensação de um entregador trazendo mercadoria novinha e montando pra você.

Até semana passada.

Olha, peço desculpas por todas as vezes em que chamei de frescura a reclamação sobre mudanças. Peço desculpas a mim mesma, que me enganei achando que quase dois anos de casamento/ apartamento não permitiriam acumular muita coisa. Peço desculpas a meu marido, que carregou (com certa ajuda) muita coisa nas costas quando já era meia noite.

O mais incrível da experiência de mudar de casa é ver o que se tem. Acreditava honestamente que não tinha acumulado muita coisa. Pensava que, fora os móveis, nada que tirássemos dali de dentro nos surpreenderia muito. Olha, e como surpreendeu.

Tive raiva de ter que desparafusar o varal. Joguei fora remédios vencidos. Relembrei CDs e DVDs. Doei, acredito, uns 3 sacos grandes (grandes mesmo) de roupas e calçados. Vi o tanto de coisa que tinha e, muito honestamente, eu não me dava conta. Não que eu seja consumista – não sou - ou acumuladora. Considero-me até bem mediana no quesito “guardar inutilidades”. Mas fui pega de surpresa quando percebi que havia muito mais nos meus armários do que eu possa dar conta, usar ou manter um registro mental mais exato.

No fim das contas – e da mudança – o que fica é uma bagunça meio grande nos objetos, uma sensação de que é difícil organizar tudo arrumado em tipos e padrões (como meu marido consegue? Fica aqui a questão) e a certeza de que temos muito mais coisas do que sabemos. O exercício mais importante, para além do subir escadas com caixas pesadas, foi o de poder olhar criticamente pra tudo que eu tenho e refletir sobre o quanto não temos mesmo noção alguma do que há em nossos armários.

Que dirá em nossas almas, hein.


Joyce Scoralick
Mestre em Literatura

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