Por: Alessandro
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O esporte tem poderes estranhos. O maior deles talvez seja o de criar mundos. Definem-se os limites do campo. Definem-se as regras. Definem-se os objetivos. Criam-se adversários. Pronto. Feita está como que uma realidade paralela.

Nessa realidade desenrola-se um drama que antes de iniciar-se costumamos chamar jogo. Na disputa comumente o lúdico some e resta a agonia de quem luta e de quem torce.


Engana-se quem pensa que a torcida não participa do mundo criado. E só é enganado quem nunca torceu. O torcedor não está fora, mas dentro. Dentro do campo, da quadra ou do tatame. Dentro de uma forma estranha, misteriosa.

O torcedor não faz gols, não dá golpes e não acerta ou erra lances. Mas naquele mundo criado pelas linhas e pelas regras desenrola-se uma história que parece afetar diretamente seu destino. Não sente apenas a vitória e a derrota, mas as justiças e injustiças, as quedas e soerguimentos.

Sua participação nesse mundo, embora real, é limitada. Se está próximo pode gritar e incentivar; se está distante pode apenas alegrar-se ou sofrer. Mas é inegável que ele está junto com o atleta e sente como seus os triunfos que este alcança ou os tombos que leva.

Essa pequena, minúscula, margem de intervenção não é algo com que se lide facilmente. A impotência gera uma ansiedade que, nos momentos críticos, é traduzida em solidariedade ou indignação com os protagonistas da disputa em curso.

Sim, o esporte cria mundos. E nesses mundos o papel do torcedor é limitado. Faz-se necessário deixar o protagonismo nas mãos de outros. Outros que vencem e perdem, que conquistam e deixam de conquistar. Que erram porque são limitados ou porque não se esforçaram o suficiente.

Confiar nos outros é difícil. Frequentemente frustrante. Mas sem isso, sem essa solidariedade com outros que são imperfeitos, seríamos privados da alegria da pertença, da possibilidade de participar de vitórias coletivas e de sentir como nossas as conquistas realizadas por outros.

Não é difícil nessas realidades criadas pelo esporte enxergar analogias com o cotidiano fora dos jogos. Seja na impotência diante da liberdade daqueles com quem nos importamos, seja na confiança que frequentemente precisamos colocar em pessoas que podem decepcionar.

Felizmente, na vida as posições de atleta e torcedor são frequentemente misturadas. Torcemos enquanto lutamos e lutamos enquanto torcemos. No mundo para além dos apitos todos estamos nas arquibancadas e no campo ao mesmo tempo. E resultados muito importantes não só para nós também estão em nossas mãos. É por isso que com todas as forças devemos evitar o pecado que mais incomoda quando somos apenas torcedores: o corpo mole...


Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia
Fundador da Oficina de Valores

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