Por: Gustavo
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Comprar presentes é uma coisa difícil. Entrega-los é legal, mais ainda quando a gente vê que acertou na escolha. Mas escolher é quase sempre chato, pode ser até uma experiência desagradável. “Será que ele(a) vai gostar?”, “Isso não tem muito a cara dele(a)...”. Sempre que passo por isso, digo a mim mesmo: “por que isso é tão difícil? Se fossa pra mim, era tão fácil! Eu gosto de futebol, do Flamengo, de super-heróis, de Harry Potter, de jogos, de fotografia, de livros...”


Na verdade, presentear é fácil quando a gente conhece bem a pessoa: seus gostos, seus hobbies, seu jeito, suas necessidades. Quanto mais a gente conhece a história, os sentimentos, a personalidade, a vida da pessoa, mais fácil fica.

Ao dia em que escrevo, a mais recente (recente tipo hoje) data “de presentes” é o dia dos Pais. E lá fui eu procurar algo pro meu pai. “Do que ele gosta? Do Flamengo. De novo coisa do Flamengo? Não, né. Ele gosta do trabalho, mas não vou dar nada de trabalho, é chato. Meu pai não gosta de mais nada!”. E essa conclusão ficou ecoando na minha cabeça. Será que meu pai realmente não gosta de mais nada? Ou será que eu não o conheço o suficiente pra saber do que ele gosta?

Pode parecer absurda a ideia de que eu não conheça bem meu pai. Ou que alguém, qualquer pessoa, salvas aquelas de situação familiar excepcional, não conheça aquele que a educou, brincou com ela, que acompanhou seu crescimento, ensinou valores, levou pra passear. Afinal, faz 22 anos que eu convivo com esse cara, dentro do meu espaço mais íntimo, minha casa. É possível que eu não o conheça tão bem assim? É.

Nós, filhos, vemos os pais por um ângulo que muitas vezes esconde a história deles além da paternidade. É difícil vê-los além daquilo que eles são em relação a nós. Se me perguntarem que é o Antonio, minha resposta mais natural vai ser “meu pai!”.

Mas nossos pais têm história para além de nós. Eles são algo mais que pais. Eles têm gostos, sonhos, frustrações, dias bons e dias ruins. Eles têm um passado em que nós não existíamos, e um futuro de que faremos parte, mas de que, já tendo a vida “encaminhada”, não seremos mais o centro.

Uma das experiências mais transformadoras da minha maneira de ver a vida é descobrir quem meu pai era antes de ser meu pai. As histórias da infância e da juventude, os erros, as mudanças, o caminho que o Antonio fez até “deixar” de ser Antonio pra ser “pai”. Eu sei bem o que ele me ensinou nesses anos todos cumprindo essa “função”, mas onde foi que ele aprendeu antes de me ensinar? “Ah, foi assim!”, é sempre surpreendente e sempre inspirador – diminui o medo de não ser tão bom quanto ele quando chegar minha vez.

Na infância, nós idealizamos nossos pais. Eles são perfeitos. Nas nossas crises de adolescência, começamos a ver seus defeitos (e inventamos alguns). Passada essa tormenta, nós começamos a ver que esses defeitos fazem ainda maior nobreza deles, que superaram tudo isso para ser os melhores que pais que pudessem. Apesar de todo contratempo, todo pai é um sábio, todo pai é um rei, um guerreiro, um herói.

A palavra “herói” é frequentemente usada nessa data. Acho bastante cabível, sim. Mas se você prestar atenção à história dos heróis, é bastante comum que o ser humano por trás da máscara, a fragilidade por trás do superpoder, os dramas por trás de todo heroísmo sejam ignorados.

Uma vez, ouvi um questionamento que dificilmente faria sozinho, mas mudou minha vida: você já pensou que tudo aquilo que você julga ruim nos seus pais pode ser fruto da infância que eles tiveram?

Talvez haja, por trás dos sermões, dos sacrifícios, dos carinhos ou até da falta deles, uma história, cheia de sentimentos, de desejos, de mágoas (quem sabe?), que você ignora. Deixe-me informa-lo: seu pai é heroi, certamente, mas tão certamente, é humano. Por isso, vale a pena ser mais paciente com seus defeitos, seus erros, suas rudezas e valorizar mais o trabalho, as lições, o abraço. Tudo isso pode ser a margem de uma história mais profunda que você pode nunca ter ouvido por inteiro.

Desculpa, pai, se eu não sei o que te dar de presente hoje. Foi uma camisa. E minha mãe falou que você nem vai gostar, por causa do tecido. Mas, pra ser sincero, a culpa é um pouco sua: depois que você virou meu pai, parece que tudo mais que você é ficou em segundo plano. Eu não estou reclamando, você escolheu ser meu pai acima de tudo e entendo isso como um “eu te amo”.


Gustavo Lima
Estudante de Jornalismo
Oficina de Valores

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