Por: Fernando
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Não sei o que motiva e inspira os outros escritores do blog. No meu caso, duas situações me levam a querer escrever: ora é a vontade de comentar sobre um assunto atual, ou então bate aquela vontade de querer contar sobre algo que nos emociona, mesmo que não seja algo na crista da onda dos debates, como os assuntos que a gente encontra todos os dias na internet. 

Este texto escrevo pelo segundo motivo. Algo que me emociona. E, qualquer pessoa que sentir falta de um momento na vida que passou, vai se identificar com ele, pois toca em coisas como memória afetiva, também nostalgia, também saudade. Toca naquilo que já pertenceu às nossas vidas e que não nos pertence mais. Coisas que vão embora e não voltam, deixando em nós lembranças e recordações. 

Tive vontade de trazer para participar dessa conversa o poeta Edgar Allan Poe. Penso que o seu poema "O corvo" apresenta uma situação curiosa e interessante sobre o assunto. A poesia conta sobre a repentina aparição de um corvo que entra por uma janela, voa desajeitadamente por um pequeno cômodo e deixa curioso o dono da sala. Quando pousa não é menos perturbador, porque o corvo começa a grasnar uma sentença provocativa: "Nunca mais... Nunca mais…" 

O gracejo faz pensar nos momentos que passam por nós e não ficam para sempre. O "nunca mais" que nos acompanha ao longo das nossas vidas, o "nunca mais" que são as coisas que "morrem" enquanto estamos vivos, as coisas que vão para um lugar e um tempo para os quais não podemos voltar e, se pudéssemos, não seria a mesma coisa, afinal nós mesmos também mudamos. 

Ninguém escapa do "nunca mais" ao passar da vida: pode ser um amigo que muda de cidade e não se encontra mais, uma pessoa querida que morre, as brincadeiras da nossa infância... Todos acabam indo para a terra do “nunca mais”, onde também vai aquela pessoa que a gente não gostava muito quando criança, mas quando encontramos, já adultos, desperta em nós uma vontade de abraça-la e até fazer algo até meio idiota: pedir desculpas por não ter gostado dela. Estranho, mas nessas circunstâncias alegra tanto encontrar um "inimigo", como alegra encontrar um amigo, pois são situações que nos remetem e trazem a recordação do "nunca mais". E uso o termo RECORDAR propositadamente, pois recordar vem de recordis, ou seja, passar de novo pelo coração. O ato de recordar não é somente trazer à tona na memória, mas lembrar o que aconteceu fazendo passar novamente pelo coração. Como acontece quando pensamos na terra do "nunca mais". 

O que leva a pensar uma coisa: soubéssemos da saudade que sentiríamos, e que as coisas passariam e não voltariam mais, não aproveitaríamos o convívio de todas as pessoas e todas as experiências com mais intensidade, "como se não houvesse o amanhã ", como dizia Renato Russo? 

"Como se não houvesse o amanhã...". Não no sentido de gastar todo o presente, sem pensar no futuro, mas que sentíssemos que apenas por um tempo, circunstancialmente, convivemos com outras pessoas. Mas que esse convívio um dia passará, irá para a terra do “nunca mais” e teremos delas apenas recordações.

Que valor daríamos para essas pessoas, não? E que valor daríamos para a nossa participação na vida delas! 

Lembro a trilogia cósmica do C.S. Lewis, especialmente o segundo livro, "Perelandra", em que o personagem principal, Elwin Ranson, planeja fazer uma viagem até Vênus e pede a Lewis que o ajude na volta. Acontece que Ranson não sabe quando voltará, que pode levar semanas, até décadas! Que talvez Lewis tenha que passar a tarefa de esperar pelo retorno de Ranson para algum sucessor.

Quando Lewis se dá conta de que o amigo pode partir para uma viajem que não sabe quando (e se) volta, ele então percebe e aprecia no amigo uma série de expressões e maneirismos "como aqueles que notamos sempre na mulher que amamos, mas que num homem só notamos quando estão a acabar as últimas horas de sua licença ou se torna mais próxima a data da operação provavelmente fatal". 

Lewis viu o amigo indo para a terra do “nunca mais”. 

Hoje esquecemos disso e agimos como se os momentos fossem eternos. Sendo eles eternos, não nos damos conta de fazer com que os amigos sintam a importância que têm nas nossas vidas e não nos atentamos para a experiência de sermos mais importantes na vida deles também. 

Numa outra terra, sem ser a do "nunca mais", mas a Terra do Nunca, se reflete um anseio nosso não apenas pela infância eterna, mas também por podermos vivenciar eternamente as mesmas aventuras com nossos amigos. Lá o tempo está nas barrigas de um crocodilo para nos lembrar que no nosso mundo o tempo é um famigerado que devora tudo. 

Penso que tais anseios não existiriam se fôssemos apenas matéria. Se não habitássemos nossos corpos com espírito, não teríamos anseio do eterno. Recomendo o texto Os Momentos de Alegria e a Sede de Infinito para explicar bem isso. Mas, por outro lado, é por esquecermos que não somos apenas matéria que sentimos tanto as dores do “nunca mais”. O “nunca mais” é como se estivéssemos passando e víssemos nosso tempo acabando. Não doeria tanto o “nunca mais”, se lembrássemos que somos eternos e se todos vivêssemos nossas vidas com o norte do eterno e do eterno bom. Se vivêssemos essa vida direcionados para tal eternidade e se nos encontrássemos lá, não existiria o “nunca mais”, pois na eternidade tudo pode acontecer. A única saída para a angústia do “nunca mais” é o “para sempre”, é o eterno.


 Fernando Duarte
Graduado em História

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