Por: Alessandro


Pokémon Go conseguiu o que talvez nenhum outro jogo da história tenha conseguido: da noite para o dia tornou-se o assunto do momento, mesmo para aqueles que nunca tiveram interesse em Pikachus, Bulbassauros e Charizards. O impacto do jogo vai muito além do mundo virtual. Só para falar em termos econômicos, as ações da Nintendo, empresa criadora da franquia, aumentaram 36% em apenas cinco dias após o lançamento do game.

No último dia 3 de agosto, o jogo chegou ao Brasil para a alegria de muitos brasileiros que não conseguiam mais conter a ansiedade. A euforia pelo jogo chega a ser contagiante. O espetáculo das ruas é algo que salta aos olhos. Pessoas andando devagar e apontando o celular para o "vácuo" na tentativa de aprisionar uma criatura que se revela através de uma tela. Amigos conversando animadamente sobre os locais onde monstrinhos mais raros podem ser encontrados. Além disso, basta entrar no Facebook para ver fotos postadas por crianças e adultos celebrando sua mais recente captura. Isso para não falar dos memes, dos comentários bem humorados e das postagens de pessoas que celebram o fato de finalmente terem a chance de ser um mestre Pokémon.

Apesar de toda essa movimentação, como não poderia deixar de ser, Pokémon Go não é uma unanimidade. Não existem apenas os que amam o jogo; há os que o odeiam e denunciam. Os famosos haters. Nas mesmas redes sociais onde a empolgação transborda, chovem críticas ao jogo e aos jogadores. Alienação, falta do que fazer e infantilidade são algumas das palavras mais usadas. Há também aqueles que apelam para um discurso mais moralista e dizem que “Pokémons todos querem pegar, ajudar ao próximo ninguém quer”.

A polêmica, é claro, não para com as críticas. Os jogadores tornam-se defensores ardorosos e lembram que o jogo traz muitas coisas boas, que tem ajudado pessoas em depressão, que cada um deve cuidar da sua vida e assim por diante...

E aí? Pokémon Go é o jogo mais maneiro de todos os tempos ou um escapismo para uma geração alienada? 

Talvez nem tão lá, nem tão cá. Diante de uma novidade creio que o melhor conselho continua sendo: analisai tudo, ficai com o que é bom. Claro que essa costuma ser uma solução que não agrada nem aos haters, nem aos aficionados, mas vá lá, certa vez um grande sábio disse que a virtude está no meio termo.  Vamos tentar pensar por esse caminho...

Pokémon Go é talvez o primeiro grande experimento de realidade aumentada, ou seja, de sobreposição de elementos virtuais sobre a realidade, de modo que o virtual e o real complementem-se formando um todo. Essa tecnologia já está aí há muito tempo e é usada tanto por supermercados quanto por revistas em quadrinhos. O que Pokémon Go fez foi levá-la a milhões de pessoas...

É fácil compreender o sucesso do jogo. Toda criança já se imaginou no mundo de seus heróis fictícios. Basta recordar dos meninos da década de 90 que deram socos na água do chuveiro sonhando inverter o fluxo da água, como o cavaleiro Shiryu de Dragão; ou então das brigas para decidir quem seria o Power Ranger vermelho; ou ainda dos jogadores de RPG imaginando lançar bolas de fogo e enfrentar dragões. Pokémon Go está em continuidade com essas brincadeiras imaginativas, mas com uma “pequena” inovação: traz uma sensação de realidade à fantasia e faz com que certos sonhos da infância sejam como que materializados.

Essa experiência de realidade aumentada não é por si só um mal e carrega potencialidades muito interessantes. E não só para o entretenimento. Imaginem uma aula de anatomia onde o professor utiliza um modelo virtual. Ou então placas holográficas personalizadas de acordo com a necessidade de quem procura a informação. E essas possibilidades são muito óbvias. É claro que coisas muito melhores e mais criativas podem vir dessa tecnologia.

Ela, no entanto, não deixa de carregar seus riscos. O mais óbvio deles é o afastamento progressivo da realidade, o julgar aquilo que é concreto menos interessante do que aquilo que é virtual. Hoje já encontramos pessoas cujas vidas se resumem a séries e a games... Imaginem quando estes oferecerem uma sensação de realidade e uma interatividade maiores?  

No caso de Pokémon Go há algumas consequências interessantes. Em uma época de individualismo e isolamento, o jogo convida a andar pelas cidades. Nesse contexto, os Pokémons podem ser uma desculpa para descobertas muito maiores. Nessas jornadas, assim como no desenho animado, companheiros são encontrados e interações acontecem. Creio que, quando os duelos entre os jogadores forem possíveis em qualquer lugar, veremos coisas muito interessantes. As ruas estão cheias. A movimentação trazida pelo game lembra aquela ligada aos álbuns da Copa do Mundo, praças lotadas, pessoas de idades diferentes conversando...

Sobre o potencial alienante do jogo, não é possível dizer que ele não existe. E está ligado ao risco de alheamento da realidade apontado acima. Contudo é importante não cair em uma crítica simplista e chamar de alienados àqueles que têm meios de entretenimento diferentes dos meus. Cada um possui suas superficialidades. Ninguém vive apenas no profundo e no sério. O lúdico é uma parte importante da vida. O problema ocorre quando ele se torna toda uma vida. E isso pode acontecer com Pokémon Go, com o futebol, com o cinema, com jogos de baralho... Colocando de maneira mais direta, dificilmente algo é ruim em si mesmo. Na maior parte das vezes o problema está no uso ou, para colocar de uma forma mais explicita, no abuso.

Sobre as acusações de ser um jogo infantil, confesso serem estas as que mais me incomodam. Não porque falam de Pokémon Go, mas porque colocam a infância como algo negativo. É claro que a vida adulta tem suas responsabilidades que, quando negadas, trazem consequências sérias. É claro que uma pessoa de trinta anos que viva como alguém de dez não amadureceu, e isso é um problema. No entanto, a infância tem valores que muitas vezes são perdidos no mundo adulto. Não é incomum ver um forte senso de justiça nos pequenos que faria muito bem ao mundo se continuasse nos grandes. Há também uma curiosidade e um desejo de exploração que nos adultos frequentemente faz falta. Isso para não falar na maior capacidade de perdoar e na sinceridade das relações. Pensando assim não fica difícil entender porque C. S. Lewis disse que a verdadeira maturidade consiste mais em abrir-se a novas perspectivas do que em fechar-se às antigas.

Enfim, Pokémon Go está aí. Mexeu com o entretenimento. Mexeu com os negócios. Mexeu com muita coisa. Mas não custa lembrar que ele é só um jogo e um jogo, por definição, não pode ser levado tão a sério. Os problemas começam quando isso acontece. Não custa também lembrar que nós devemos possuir as coisas e não ser possuídos por elas. Essa verdade é simples, mas não é tão fácil de ser vivida. Talvez aí a velha canção de abertura do desenho de Pokémon possa nos ajudar, afinal ela diz que “temos que pegar”. Mas em momento algum diz que devemos ser pegos.



Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia
Fundador da Oficina de Valores

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