Por: Rafaela
Imagem de www.pbs.org

Certa vez, quando tinha uns 15 anos de idade, vi pela primeira vez como a vida é fugaz. Um colega morreu em meu bairro e as palavras do seu pai no velório trouxeram-me essa experiência. Lembro sempre do pai dele dizendo “o tênis do meu filho ainda está na varanda”. Pela primeira vez tive um encontro real com a fluidez da vida, do inesperado, da finitude... Eu não pensava na morte desse jeito antes dessa frase. Com o passar dos anos outras experiências de perdas foram somadas a essa. As pessoas não saem de casa para morrer: o sapato está na varanda, a roupa ainda está no varal, não foi nada preparado, não se programou nada, de repente tinha até uma conta para pagar. Enfim, a vida escapa ao nosso controle em todos os sentidos.

As medidas sanitárias, todas as políticas de saúde que são implantadas através dos anos e o avanço da ciência conseguiram prolongar a expectativa de vida. A morte que antes chegava mais cedo, geralmente em uma breve visita decisiva, tornou-se agora não mais um evento, tornou-se um processo. Com o aumento da população idosa e da expectativa de vida, o processo de morrer se dá através da chamada ‘morte anunciada’, aquela que vem devagar através da hipertensão, AIDS, diabetes, insuficiência renal crônica, câncer, entre outras. Esse processo pode levar dias, meses ou anos. Diante de um diagnóstico onde não há perspectiva de cura, vários cenários são possíveis: uma equipe de saúde que se frustra por querer exterminar a doença e curar, uma família que sofre com o diagnóstico e anseia pelo prognóstico, um paciente que pode parar de se ver como sujeito e se ver como doença e as combinações vão tornando-se infinitas nesse cenário.

Existe um fato. Enquanto a morte não chega ainda há vida. E o que fazer com essa vida que se vê diluindo dia a dia? O conhecimento sobre a alternativa dos Cuidados Paliativos torna-se a cada dia mais comum. A palavra ‘paliativo’ vem do latim, pallium, que quer dizer manto. Nas Cruzadas, os cavaleiros carregavam seu manto para se protegerem das intempéries da natureza. Contra a chuva, o frio, não havia muito o que ser feito, apenas proteger-se, aliviar. Essa palavra remete ao significado de acolhimento e se confunde na História com o termo ‘hospice’; os hospices eram mantidos por religiosos e funcionavam como uma espécie de asilo, abrigo ou refúgio e hospedavam os viajantes o tempo necessário para sua recuperação e para que retomassem a viagem. A Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu em 1990 e revisou em 2002 o conceito de cuidados paliativos como cuidados ativos e integrais ao paciente cuja doença não responde mais a um tratamento curativo. É uma abordagem de cuidado diferenciada que também abrange a família, visa aliviar os sintomas e a dor, proporcionando suporte também psicológico, social e espiritual.

Nessa perspectiva o foco sai da doença e passa para o sujeito. Durante a história e com os avanços na saúde é possível observar que os processos de nascer, adoecer e morrer foram institucionalizados pela lógica hospitalocêntrica. Em contrapartida, crescem também os movimentos de humanização: do parto, do cuidado, da morte... Estranhamente ‘humano’ virou adjetivo e o parto, por exemplo, precisou ganhar outro nome (“parto humanizado”) para ser aderido. Esses movimentos, assim como o que nos interessa neste texto, tentam devolver o calor, o respeito e as cores da vida, sem apressá-la nem adiá-la, assumindo que mesmo sem o controle dela, podemos e devemos potencializá-la.

Os números das doenças que compõem o hall das de ‘morte anunciada’ só aumentam e diante deste cenário, para nós destaca-se uma reflexão importante: Se minha morte não for anunciada (ou mesmo que seja) é preciso pensar o que tenho feito com meu tempo de vida. Parece óbvio, não é? Mas não é evidente. Em geral, vivemos demasiadamente preocupados com projeções de futuro que pode sequer chegar a acontecer. Não vivemos na liberdade de quem pode pegar um ônibus e não voltar mais. As amarras de todos os tipos nos engessam: relacionamentos fadados ao fracasso não são terminados por medo, empregos geradores de infelicidade, não arriscamos um novo romance, uma nova faculdade, uma mudança de cidade simplesmente por uma vã ilusão de controle.

Ninguém controla nada. As coisas podem mudar em um segundo, sua relação super estável pode terminar porque o outro se apaixonou de forma imprevisível, seu desejo pelo trabalho ou faculdade podem mudar, a empresa pode falir, você pode sair e não voltar mais... Não! Não se trata de uma desculpa para viver com irresponsabilidade. Trata-se de uma reflexão sobre o potencial de vida, sobre o que estamos fazendo com o tempo que temos e não sabemos até quando o teremos. É uma reflexão para te perguntar: Você está vivendo? Você deseja o que está acontecendo em sua vida? Você pode fazer algo para mudar? Você está satisfeito? Você se arrepende de algo que fez ou de algo que não fez? É possível dar mais sentido hoje a essa existência? É tão pouco tempo... O outro pode ir com o sapato ainda na varanda. Se hoje fosse sua morte, está valendo a pena viver? Que possamos arriscar mais na busca, potencialização, reinvenção e ressignificação de uma vida mais ‘humana’.


Rafaela Botelho
Estudante de Psicologia/Gestão de Recursos Humanos
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3 comentários:

Jéssica Péres disse...

Texto brilhante! Adorei!!! Parabéns, Rafaela ��

Jéssica de Almeida Esquincalha disse...

Irmã, você arrasa. Que orgulho! Deus a abençoe cada vez mais!

Ana Clara Oliveira Motta disse...

Que orgulho de poder travar debates e conversas com alguém como você, Rafaela. Que Deus abençoe sempre.

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