Por: Alessandro
Há algum tempo escrevi um pequeno texto comentando uma famosa frase do Seu Madruga. Poucos dias atrás quando estava perdido em pensamentos sobre a questão da fama, lembrei-me de um dos capítulos de Chaves que mais me marcaram. O episódio em questão trazia tantos elementos que iluminava a questão em que pensava que eu poderia ter dito: Isso, isso, isso! Resolvi então mais uma vez escrever um texto baseado na obra de Roberto Bolaños.

O capítulo a que me refiro é aquele no qual acontecem diversos roubos na vila e no qual nosso querido menino que dormia no barril é acusado injustamente. Para aqueles que não se recordam da estória que mencionei acima, farei um breve resumo de uma parte:

No início do capítulo, chega à vila um novo morador, o Senhor Furtado. Este novo inquilino do “Seu Barriga” é bem recebido pelo outros moradores. Logo após a mudança começam a desaparecer pertences de diversos moradores. A situação cresce em tensão até que em determinado momento os fatos parecem dizer que o Chaves é o ladino responsável pelos furtos. Neste ponto ocorre um das cenas mais emocionantes de toda a série. Cada um dos moradores olha para o pobre menino e diz de forma acusatória e incisiva: LADRÃO!

Mesmo sabendo que é inocente, após arrumar sua pequena trouxa, Chaves deixa a vizinhança na qual viveu por muito tempo. Após sua partida, no entanto, os roubos continuam e todos se dão conta da injustiça que cometeram. Parece, no entanto, que é tarde demais. Um inocente foi punido e o criminoso saiu incólume.

Próximo ao fim do capítulo há o retorno do Chaves à vila. Nesta volta ele é recebido com alegria por todos. Há então um diálogo memorável que, ainda que não recorde as palavras exatas, nunca esqueci,:
 
- Chaves, por que você foi embora da vila mesmo sendo inocente?
- Porque se eu não era ladrão de nascença, eu era por maioria de votos.

É interessante pensar que o peso da acusação fez com que mesmo um inocente interiorizasse a culpa. Chaves não foi embora porque ficou com raiva dos seus amigos da vizinhança. Embora isso não seja mostrado no episódio, o garoto deve ter sofrido muito de saudade. Ele foi embora porque o elegeram como ladrão. Ser tratado como um criminoso fez com que ele se sentisse como um. Não era por nascença... mas foi feito um por maioria de votos.

Acredito que todos nós já tenhamos vivido a tensão entre a identidade e a fama. Seja em uma experiência pessoal, seja testemunhando na vida dos outros. Algo que aprendi faz certo tempo é que ninguém é a própria fama; todos são maiores e menores que ela. Não que a fama nada revele, mas acredito que a reputação de alguém normalmente faz injustiça à pessoa. Seja para o bem, seja para o mal.

Penso que diante dos olhares, sejam eles elogiosos ou acusadores, que a nós dirigem três atitudes são equivocadas. A primeira é simplesmente ignorar por completo os comentários. No caso do Chaves uma injustiça foi feita pelos acusadores, mas já conheci pessoas que passam a vida julgando que todo o mundo se esforça por persegui-las. Em tal postura há uma atitude de vilanização dos outros e vitimização de si. Essa postura faz com que aquele que a adota cristalize os próprios erros e se recuse a crescer. Quando a culpa é dos outros não há necessidade de mudar.

O segundo erro pode ser visto na atitude adotada pelo Chaves e consiste em permitir que a opinião alheia seja mais importante que a realidade. O garoto não era ladrão, mas se puniu como se fosse. A dor de ser visto como alguém pouco digno de confiança fez com que ele se afastasse de todos. Claro que a fama de criminoso é um extremo e é bastante possível compreender a atitude adotada pelo personagem. Sua postura, no entanto, lembra a de muitos que, no dia a dia, incomodam-se mais com o que falam sobre elas do que com quem são de verdade. Para aqueles que pensam e sentem dessa maneira dói mais ser chamado de ladrão do que realmente ser um.

O terceiro grande equívoco é a identificação com a própria fama. Se essa fosse a linha adotada por Roberto Bolaños na série de TV, o Chaves teria se tornado um ladrão após ser taxado como um. Parece loucura, mas isto é mais freqüente do que parece. Em certa medida, todos somos moldados pelos olhares que nos lançam. Todo professor e pai sabe a importância que os rótulos têm para aqueles que os recebem.

Apesar dessa importância do olhar do outro, cabe ressaltar que há um imponderável em nós. Para utilizar a expressão de Viktor Frankl, há algo no humano que é incondicionado. E é justamente este incondicionado que nos permite darmos nossas contribuições ao mundo e sermos responsabilizados por nossas escolhas. Em resumo: para além de todos os condicionamentos e rótulos, existe liberdade.

Diante do que foi dito, acredito que cabe perguntar: quantos de nós somos o que somos apenas por maioria de votos? Olhando para minha vida, não é difícil lembrar-me de situações nas quais agi contrariamente à minha índole, ou não fui coerente com os valores que acredito, para ser aceito. Felizmente tais momentos não foram tão graves de forma a gerar consequências permanentes.

A traição de si dói muito, embora por vezes não seja tão óbvia. Sempre que traímos alguém que amamos ou valores que acreditamos traímos a nós mesmos, ainda que não percebamos. Essa traição sempre ocorre em troca de algum preço. Seja ele trinta moedas de prata, a aceitação de um grupo ou um aperto de mão, acredito que o valor nunca é alto o suficiente para justificar a venda da própria alma.

Na conclusão do episódio, o autor dos roubos é tocado pela atitude do Chaves e muda seu modo de proceder. O diálogo que tocou o coração do ladrão é lindo em sua simplicidade e traz alguns pontos que podem ser bastante úteis para nós. Pensei em comentá-lo também, mas percebi que se o fizesse o texto ultrapassaria o tamanho afixado além de enveredar por outros temas. Limito-me, no entanto a citá-lo e deixo a meditação a cargo do leitor.

- Chaves, por que você voltou?
- Entrei em uma Igreja e conversei com o padre. E ele disse que eu deveria voltar, afinal não tinha cometido o crime. Na Igreja rezei pelo ladrão.
- Para que ele seja pego?
- Não. Para que se arrependa e devolva os objetos roubados.

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - Fundadro da Oficina de Valores

1 comentários:

Anônimo disse...

sensacional

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