Por: Alessandro
Dias atrás ouvi de uma pessoa bem próxima a mim a seguinte acusação: você está agindo como um velho! Com tal frase, posso assegurar, que não estava em jogo a textura da minha pele ou a cor de meus cabelos. Embora fios brancos brotem aqui e acolá, não foram eles que motivaram tal comentário. Tenho certeza também que o comentário não foi elogioso. Velhice não estava sendo utilizada como sinônimo de sabedoria ou capacidade de discernimento.

Fui chamado de velho por um motivo muito simples: estava reclamando demais. De uns tempos para cá tenho ficado mais irritadiço com as pequenas coisas do cotidiano, principalmente quando minhas pequenas expectativas são frustradas. Um pequeno exemplo: Quando saio com minha esposa  e ao voltar para casa ela diz para passarmos no mercado, normalmente minha reação é ficar meio ranzinza e perguntar por que ela não disse antes de sairmos de casa que teríamos que fazer compras.

Caso o leitor julgue que minha atitude é irritante e que minha esposa deve ser muito paciente, saiba que concordo plenamente. Apesar de a Carol possuir muitas virtudes, o texto de hoje não versará sobre elas. Pretendo fazer uma reflexão sobre a morte da juventude e sobre a possível ressurreição da mesma.

O que faz alguém deixar de ser jovem? Segundo a UNESCO, a juventude termina aos 29 anos. Tendo como base este critério deixei de ser jovem há pouco mais de seis meses. Em termos biológicos podemos considerar a juventude o ápice das capacidades físicas e o envelhecimento uma queda gradual das mesmas. Podemos pensar também a juventude como a época na qual são realizados os compromissos mais importantes. Nesse sentido o jovem seria aquele que está às portas da vida adulta.

Quero hoje abraçar outra definição de juventude, uma definição que chamo de existencial. No sentido contido neste texto, a juventude comporta uma atitude perante a vida e um modo de olhar a realidade. A oposição jovem x velho não diz respeito à idade, mas ao comportamento. Quero ressaltar que o conceito de juventude que vou trabalhar não possui relação com o complexo de “Peter pan” contemporâneo. Não julgo o passar dos anos algo negativo, nem afirmo que o comportamento adolescente deva ser paradigma da vida humana.

Tendo feito essa pequena digressão para evitar mal-entendidos, volto ao problema proposto. O que nos faz envelhecer e perder o vigor diante da vida? Penso que a principal resposta seja o egoísmo. Certa vez ouvi que os jovens tem uma tendência maior para o martírio e que o grande teste da coerência de alguém em relação a uma crença é o passar do tempo.

Na juventude, o encantamento com os grandes ideais acontece. Julgo que nesse momento da vida deva predominar o “princípio da aspiração”, ou seja, os sonhos são fundamentais e o futuro é o tempo predominante quando se pensa na própria vida. Com o passar dos anos alguns dos planos fracassam e o acúmulo da experiência faz com que o “princípio da realidade” tenha maior espaço. Quando esse movimento ocorre sem que a capacidade sonhar desapareça, acontece aquilo que chamamos de amadurecimento. Por outro lado, quando o presente mata a aspiração em relação ao futuro, a pessoa passa a envelhecer. A generosidade do jovem vem do fato de que se importa mais com os fins que com os meios. A sisudez do velho vem que de um forte apego aos meio que o fez esquecer os fins.

Para o jovem, o mundo é amplo e é normal que este o surpreenda. O velho se apega às suas rotinas e deseja que o mundo seja refém dos seus hábitos. O resmungo é fruto da amargura que vem do egoísmo. As pessoas e o mundo sempre nos surpreenderão e ultrapassarão nossas cercas pré-fabricadas. O que diferencia uma pessoa da outra é como o intruso é acolhido. Ele pode ser tratado como um amigo que faz uma visita, ainda que por vezes indesejada, ou como um criminoso que ousou invadir propriedade alheia.

Somos jovens na medida em que somos generosos. A velhice é proporcional ao egoísmo. Creio que voltar-se para si e para o próprio quintal é uma tentação mais sutil que parece em um primeiro momento. Penso no meu caso. Hoje tenho menos tempo livre do que tinha anos atrás, e, acredito que todos concordem, é mais fácil ser generoso com o que sobra que com o que falta. Penso que é justamente nesse momento que meus valores são testados e que a juventude é abraçada ou repelida. Quem é generoso com o tempo que não lhe faz falta, ou com o vigor que não se esgota, é jovem por condição e não por opção. Quem arruma tempo para seus ideais e está disposto a sacrificar-se por eles, escolhe permanecer jovem.

Outra fonte de envelhecimento no mundo contemporâneo, por mais paradoxal que pareça, é a ditadura do prazer. O hedonismo, que normalmente é relacionado à juventude, torna-nos velhos porque nos fecha à entrega da vida aquilo que custa um pouco mais. Quando o prazer é o critério máximo da vida, qualquer atividade que exija cansaço, ou seja pouco recompensadora no curto prazo, torna-se fonte de lamúria.

Para leitores de contos de fadas, ou livros de ficção científica, são comuns histórias que giram em torno da fonte da juventude ou de algum sucedâneo. O mundo contemporâneo parece estar louco em busca de tal artefato mágico. Para comprovar tal fato basta dizer que a indústria de cosméticos não para de crescer e que as cirurgias plásticas são cada vez mais buscadas. Sem querer entrar na discussão acerca de tais práticas cabe dizer que um corpo artificialmente jovem vale muito pouco quando o espírito está morbidamente velho.

Talvez um dia seja fabricado um remédio que funcione como um formol para corpos ainda vivos. A busca pela fonte da juventude da alma, no entanto, é um tanto mais complicada. Não existem drogas que estimulem o brilho no olhar de quem vive a vida generosamente e abraça ideais nobres. A grande dificuldade de encontrar a fonte da juventude é que ela está muito próxima e, normalmente, as buscas são empreendidas em terras longínquas. A estratégia está equivoca: Em vez de ir longe, o melhor é ir dentro. Dentro de si e do próprio coração.

Embora tal fonte esteja dentro de nós, acredito que ela só jorra verdadeiramente quando adotamos certas atitudes que tiram a rocha que a tampa. O interno transborda no externo e os atos externos possuem grande ressonância no interior. É um erro comum querermos e empolgação juvenil para aí então sermos generosos. Na verdade o processo é inverso. É a generosidade que gera o entusiasmo.

Termino dizendo que a juventude está a pequenos atos de distância. Saber disso me faz pensar que preciso começar a ir ao supermercado com mais boa vontade.

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - Fundador da Oficina de Valores

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