Por: Anderson
Fui chamado de “radical” por uma amiga porque discordei de uma sua atitude. Já estou acostumado. É que jamais me furto a defender aquilo em que acredito por comodismo ou medo de ferir suscetibilidades. Isso, geralmente, incomoda. Mas, vendo o exemplo de Cristo, penso estar em boa companhia e no caminho certo. Dessa vez, entretanto, a palavra “radical” me forneceu matéria para alguma meditação. Concomitantemente, ocorreu-me a expressão “radicais livres”, de que a mídia tem-se ocupado bastante de uns tempos para cá. Como não dominasse o assunto, pesquisei um pouco.

Descobri (segundo a Wilkipédia) que: “no nosso organismo, os radicais livres são produzidos pelas células, durante o processo de combustão por oxigênio, utilizado para converter em energia os nutrientes dos alimentos absorvidos.” E mais: “Os radicais livres podem danificar células sadias do nosso corpo; entretanto, o nosso organismo possui enzimas protetoras que reparam 99% dos danos causados pela oxidação (...) e consegue, através de nosso metabolismo, controlar o nível desses radicais produzidos.” Aprendi também: “A interação dos radicais livres com o sistema biológico (...) pode, por vezes, resultar em consequências significativas para a saúde, podendo contribuir para o desenvolvimento de certas patologias associadas ao envelhecimento, bem como estar associada com o próprio processo de envelhecimento”. E finalmente conheci o conceito de “estresse oxidativo”, que se baseia “na relação entre os níveis celulares de oxidantes e antioxidantes. Qualquer desequilíbrio nesta relação poderia determinar importantes alterações na fisiologia celular, considerando-se por um lado o papel dos radicais livres em vias de sinalização e, por outro, como agentes do dano oxidativo.” Mas “deve ser lembrado que os radicais livres também têm um papel importante atuando no combate a inflamações, matando bactérias, e controlando o tônus dos músculos lisos.”

Como este não se pretende um artigo biocientífico, considerei a informação suficiente. Vamos, portanto, ao que de fato nos interessa.

Viver com “radicalidade”, sobretudo no que diz respeito à fé, é necessário. Toda religião, para que mereça esse nome, terá sua doutrina, seus dogmas a serem cumpridos, como também os exemplos tradicionais de homens e mulheres que viveram as consequências de seu seguimento religioso. Exemplos esses que deverão ser difundidos, aprendidos e imitados através das gerações, sob a pena dessa fé morrer, se assim não o for. Como as árvores – argumentava eu com aquela amiga – precisam de raízes fortes, firmes, bem fincadas na terra para se sustentarem fondosas e frutíferas, assim também a vivência da religiosidade exige coerência e fidelidade da parte dos que abracem uma determinada crença.

O problema está em que muitos confundem a benéfica “radicalidade” com o indesejável “radicalismo”, e acabam por rejeitar a ambos como se fossem a mesma coisa. Eis o paralelo inicial com o nosso contraponto “citológico”: uma vez que os radicais livres podem beneficiar ou prejudicar nosso corpo, poderão ser compreendidos como algo útil ou algo a ser eliminado de nossas vidas, conforme o caso.

Só que “radicalismo” e “radicalidade” são muito distintos entre si. Os que vivam no radicalismo serão os que chamamos de intransigentes: não “transigem”, não conseguem “transitar” entre as diferenças (ou os diferentes); o intransigente, em geral, não aceita mudar de opinião. Ao contrário, aqueles que assumam a radicalidade, serão radicais também com relação a si mesmos: quando reconheçam estar errados, serão os primeiros a se prontificarem a mudar o rumo de seus atos, escolhas e conceitos. Daí se vê que divergem bastante, pois não?

O radical “ruim” não consegue enxergar seus erros, e que estes podem contagiar outros que, ao seguirem seu mau exemplo insistentemente repetido, renitentemente defendido, findarão por desviar-se da meta pretendida. Enquanto isso o radical “bom” aponta sempre na direção devida, já que não se desvia com facilidade do objetivo, mas também sabe ser maleável às mudanças de rumo que se fazem necessárias para alcançá-lo, sem com isso perder o foco. O radical “extremista” sempre sabe de tudo. O radical “livre” (se me permitem o trocadilho) saudavelmente duvida – sem jamais deixar de crer.

Portanto, nossa alma, nosso espírito, correm semelhante risco de perigosa “oxidação”, que causaria o envelhecimento precoce de nossas ideias e ideais. Ou poderá se auto-regenerar, na medida em que combatamos essa ação corrosiva da “certeza absoluta” – a qual tantas vezes nos impede de ouvir o que o outro tem a dizer com abertura de coração ou com, no mínimo, uma “leve desconfiança” de que ele possa estar certo, ter razão.

Em outras palavras: o adepto da radicalidade cumpre a função de “sinalização” atribuída biologicamente aos radicais livres: ao mostrar, de antemão, os perigos e riscos que cada uma de nossas escolhas e ações carrega – uma vez que trazem consequências, para nós e para os que nos cercam –, combate “bactérias e inflamações” espirituais. Quem prefere o radicalismo, porém, se assemelha mais ao efeito danoso dos ditos radicais nas células, pois seus “excessos” causam um “estresse oxidativo” na mente, que pára de operar suas funções questionativas, essenciais ao ser humano.

“É importante destacar – informou-me a Wilkipédia – que uma boa alimentação, rica em verduras, legumes e frutas, é a melhor maneira de prevenir os malefícios dos radicais livres.” Também no âmbito espiritual, há que haver zelo e cuidado na escolha daquilo com que nos alimentamos. Qualquer “desequilíbrio” também pode levar à morte – só que neste caso, a por ninguém desejada morte Eterna.

Acho oportuno terminar citando o apóstolo São Paulo: “É para que sejamos homens livres que Cristo nos libertou. Ficai, portanto, firmes e não vos submetais outra vez ao jugo da escravidão” (Gl 5, 1). Assim seja.


Anderson Dideco
 Colaborador do blog - Pastoral da Comunicação - Paróquia de cascatinha

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