Por: Fernanda




Há uns dois mil anos atrás, como relatou um homem chamado João, aconteceu uma coisa muito estranha. Aquele homem, que andava pela região da Galileia dizendo ser o messias que o povo esperava, teve uma atitude muito inesperada. Segundo o evangelho de São João, tudo começou quando uma grande multidão o seguia, por causa dos
diversos enfermos que ele havia curado, e sem ter onde conseguir comida. Em um milagre, este Jesus conseguiu, com 5 pães e dois peixes, alimentar com fartura uma multidão de cinco mil homens. Onde não se contabilizava mulheres e crianças.

Na noite deste milagre, mais uma surpresa. Os discípulos que o acompanhavam de perto se retiraram do povo, em uma barca, enquanto a tempestade se iniciava, e após muito terem remado lago adentro, eis que um vulto os assustou. “Sou eu, não temais”, disse o mestre enquanto caminhava calmamente sobre as águas ao encontro deles. No dia seguinte, a multidão percebeu que Jesus não tinha embarcado com os discípulos na mesma barca e mesmo assim havia alcançado o outro lado do lago da Galileia. E, com as próprias palavras do evangelista “À vista desse milagre de Jesus, aquela gente dizia: Este é verdadeiramente o profeta que há de vir ao mundo”

Agora, querido leitor, se encontra a parte intrigante da narração. O povo foi atrás de Jesus no outro lado do lago, na sinagoga de Cafarnaum, mas dessa vez ele não lhes deu pão, e nem realizou curas, mas disse a eles duras palavras. “Buscais-me, não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes fartos”. E o povo insistia, perguntava sobre as obras de Deus, pedia milagres a Jesus... Mas Jesus conduzia a pregação para um assunto do qual nunca tinham ouvido falar: um pão que vinha do céu. Um pão, que como o maná, viria do céu. Um pão que dá vida ao mundo. Um alimento que não perece, mas dá a vida eterna. Intrigado, mas ainda movido pelas coisas incríveis que haviam visto, o povo pediu: “Senhor, dai-nos sempre deste pão”. E a resposta são as memoráveis palavras já decoradas por aqueles que conhecem a mensagem cristã: “Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que crê em mim jamais terá sede”.

Perplexos, os judeus continuaram a ouvir. “Não deixarei perecer nenhum daqueles que o Pai me deu... Ressuscitarei os que me verem e crerem... Eu sou o Pão que desceu do céu”. Diante dessas palavras, que pareciam arranhar os ouvidos dos que ouviam, cada um que ali estava ficou escandalizado, e o povo começou a murmurar. “Não é esse o filho do carpinteiro? Não conhecemos o pai e mãe dele? Como ele pode dizer que desceu do céu?”. E nessa hora todos os milagres e toda pregação parecia ter sumido de suas memórias. “Eu sou o pão descido do céu”, repetia Jesus. “E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo”.

Louco! Como pode um homem nos dar de comer a sua carne? E ele insistia fortemente e de diversas maneiras... “Meu corpo é um alimento, meu sangue é uma bebida; permanecerei naquele que comer do meu corpo e beber do meu sangue”. E ainda: “se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos”. Por que Jesus fez isso? Havia tantos o seguindo... Por que proferir essas palavras tão duras? Por que dispensou a chance de ter tantos seguidores... Não foi isso que ele veio fazer aqui?

Não.

Jesus sempre teve a capacidade de falar palavras dóceis, de ser paciente... E muitas vezes mostrou isso no evangelho. Mas nessa hora ele não podia mais fazer isso. Isto tudo aconteceu a poucos dias da Páscoa. A poucos dias do sacrifício que ele faria e que chocaria o povo por gerações, séculos... Ter pessoas o ouvindo, realizar milagres e curas sempre foram marcas da história de Cristo. Mas nessa hora ele precisava preparar o povo para o que aconteceria, mostrá-los que sua morte não ia ser o fim. E não havia maneira dócil de fazer isso... Ainda que ver a multidão se dispersando incrédula doesse mais nele mesmo.

E os discípulos, os que se propuseram a acompanhá-lo, que foram atrás de Cristo sabendo que deixariam família, que não teriam duas túnicas e nem sequer lugar para reclinar a cabeça...? Nem estes aguentaram tão duras palavras. “Isso vos escandaliza?” pergunta Jesus. ”Que será, quando virdes subir o Filho do Homem para onde ele estava antes?”, insiste ele, alertando para o que estava por vir, temendo mais pelos que lhe ouviam do que pela própria morte que lhe aguardava. E para aumentar sua dor, muitos dos que lhe acompanhavam se retiraram.

E assim foi uma das ultimas pregações que cristo fez antes de padecer. Tentando, apesar da curta inteligência e das turvas intenções do povo, convencê-los de que quando ele fosse, permaneceria entre eles em alimento. Na Eucaristia que ele instituiu na última ceia.

A sequência da história nós conhecemos... Enquanto celebrava a páscoa judaica com seus discípulos, na véspera de sua paixão, em um gesto de humilhação, ele lavou os pés dos seus apóstolos. E em um gesto ainda maior de humilhação, se entregou a ficar sempre entre nós. No meio de pecadores, trancado no sacrário, às vezes sozinho, as vezes desrespeitado... De sua condição de rei, preferiu se fazer pão para nos salvar.

E, dois mil anos depois, aqui estamos. Vivendo a nossa vida, com máquinas e coisas que há dois mil anos atrás nenhum homem imaginaria. Aqui estamos, com necessidades e manias que há duas gerações atrás ainda não existiam. Muita coisa mudou nesse tempo, muita coisa sumiu, muita coisa apareceu. No entanto, aqui estamos nós no meio de dores, de doenças, de violências, de trapaças... pois uma coisa não mudou. O homem de dois mil anos depois ainda não entendeu que apenas no pão que vem do céu encontrará a vida plena.

Cristo se coloca próximo a nós. Mas Ele ainda não é visitado e comungado o suficiente. É certo que para participar plenamente da comunhão temos que passar pela purificação da confissão, e que contar nossas falhas a alguém que parece ser tão humano quanto nós seja bastante humilhante. Mas não é um preço muito baixo a se pagar por tudo o que Cristo sofreu para estar entre nós? Como conseguimos ter a coragem de conhecer a verdade e não comungar? O que pode afastar a gente de um alimento que nos dá aquilo para o qual sempre fomos criados, que dá a vida? Uma pessoa, um vicio, uma lembrança? Pode alguma coisa pequena se colocar entre eu e minha felicidade? Porque tudo me parece tão pequeno diante da imensidão dessa promessa...

Como há dois mil anos atrás, o que nos é proposto hoje não é uma tarefa fácil, e muitas vezes podemos cair na tentação de achar tudo isso uma loucura e preferir uma vida que podemos engolir mais facilmente. Mas o exemplo de quem tomou a decisão certa veio de um homem que não era perfeito. Um homem que errou muito, que não era inteligente, mas que acertou ao confiar nas promessas de Cristo e que, naquele dia em Cafarnaum, resolveu ir contra a corrente...

Então Jesus perguntou aos Doze: “Quereis vós também retirar-vos?Respondeu-lhe Simão Pedro: “Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da vida eterna”. 

Fernanda Gonzalez
Estudante de Engenharia Ambiental - UFRJ - Oficina de Valores


Este texto faz parte de uma série especial de textos da semana santa deste ano de 2013. Para acessar aos outros textos da série clique aqui.

1 comentários:

Juliana Benevides disse...

Maravilhoso!!!! Sem mais...

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