Por: Larissa


Quem nunca ouviu a expressão “quem vive de passado é museu!”? Pois bem, parece que
algumas pessoas gostam de passar suas vidas recordando bons momentos que se foram ou então reclamando porque se foram. A questão é saber se uma vida com os olhos postos no passado possui algum sentido ou, para ser mais incisiva, o que pode acontecer a uma pessoa que tem sua atenção naquilo que já se foi? 
Essa postura de  viver relembrando o que passou chama-se nostalgia, e consiste – em linhas gerais – em uma supervalorização do passado em detrimento do presente e até do futuro. Trata-se de uma saudade exagerada e certo apego ao passado, no qual se põe em relevo  realidades pretéritas, por vezes idealizando-as. 

Com a licença dos psicólogos de plantão, ouso apresentar duas causas para a nostalgia. Na
realidade estão tão intimamente ligadas que são, em ultima instância, duas faces da mesma moeda. São elas: um certo sentimentalismo e uma relação mal resolvida com o tempo. 

Percebo que pessoas nostálgicas são, em sua maioria, um tanto quanto sentimentais: dão
um imenso valor a tudo aquilo que lhes afeta, sobretudo ao que diz respeito a aspectos
negativos. Não procuram entender as causas dos problemas ou meios de superá-los, senão que determinadas situações os deixam tristes. O sentimental está por vezes mais atento a seus sentimentos que a ordem lógica e natural dos fatos. 

Por outro lado, noto que o grande problema do nostálgico é sua relação mal resolvida com o tempo: sente-se uma vítima sua. Parece que o tempo está à espreita para levar consigo tudo de bom que se tenha conquistado, aprisionando-o ao passado. Com certo ar de autocompaixão, injustiçado, confessa angustiado que fora roubado: “o tempo passou por aqui e levou meus bens embora”. Para ilustrar minha ideia, recorro a uma canção interpretada por Nana Caymmi, chamada “Resposta ao tempo”. Nela é relatado um acerto de contas entre alguém que perdeu um amor e o tempo. Um tentando tirar vantagem sobre o outro, chega-se à conclusão de que se há algo que o tempo sabe fazer é passar, e nesse passar, ele leva consigo aquilo que pertencia a determinado momento e permite que aquilo que se foi – que foi para o pretérito – fique presente na memória. Aceitar essa realidade é um bom começo para se viver em paz.

Não precisamos ir muito fundo para entender que uma pessoa que vive em função do passado não aproveita muito o presente, e menos ainda planeja um futuro.  Coloca sua vida em algo que já passou, que não pode ser mudado. Esse é o grande risco da nostalgia: inserido no tempo, perde-se nele. É por isso que as lembranças, assim como a imaginação, se não controladas, são capazes de levar à loucura; ou em casos menos graves, àquilo que eu chamaria “estagnação existencial”: quando fico parado em minha própria vida, não atualizo minhas potencialidades, já que estou muito ocupado olhando para trás, tornando-me assim um espectador de minha própria história.

Mas o que fazer para não cair nas armadilhas da nostalgia que, possuindo um quê de poético e romântico, pode abortar muitos planos em troca de nada? Vale dizer que não se trata de uma frieza ante a vida ou uma indiferença, mas um domínio: se não posso controlar o tempo, posso ao menos tentar domar sua repercussão em mim. 


Pois bem, Santo Agostinho, perguntando-se sobre o tempo, chega à conclusão de que o que existe é o presente: “o passado já se foi e o futuro ainda não é”. O primeiro reside na lembrança, enquanto o segundo, na expectativa. Logo, a única coisa que tenho em mãos é o presente, que se esvai muito rapidamente. Portanto, não faz sentido deixar o presente de lado, que é o momento em que vivo, quando posso agir e o que posso mudar. Deixar de viver o presente em função do passado é não viver nenhum nem outro. É o próprio não-viver.

Por isso, se quero viver, preciso aprender com aquilo que já passou, aproveitar intensamente o agora e traçar planos para o futuro. Padre Romano Guardini dizia que “aceitar as coisas como são é sempre o ponto de partida para podermos transformá-las no que devem ser”. Aceitar que é próprio do tempo passar e viver bem com isso. Reconciliando-me com ele, aproveito-o da melhor maneira possível para que, quando eu passar também, possa deixar algo de bom para aqueles que ficaram...



Larissa Nóbrega
Professora de Filosofia - Oficina de Valores

1 comentários:

Jonasvencedor disse...

Lendo em 2017 e satisfeitissimo com o conteúdo.

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