Por: Alessandro


Certa vez, não sei onde, li a seguinte frase: “A hipocrisia é o tributo que o vício paga à virtude”. Por mais que tente não consigo lembrar o autor, nem o livro em que li tal afirmação. Acho que foi Chesterton quem escreveu, mas pode ter sido o Lewis. Ou nenhum dos dois. O que interessa é que estas palavras me marcaram, e vez por outra voltam à minha mente. Há mais sabedoria nesta frase do que parece em uma primeira leitura.
Acredito que dificilmente alguém elogiará um hipócrita, afinal ninguém gosta de ser enganado e é exatamente isso que o hipócrita sistematicamente faz. A palavra hipocrisia, pelo que pude apurar, vem do grego HYPOKHRINESTHAI que significa fingir, representar. Originalmente estava ligada ao teatro grego onde o ator usava diferentes máscaras para diferentes papéis. Embora o homem fosse o mesmo, a personalidade variava conforme a máscara.

Julgo que uma pequena distinção nos ajudará a evitar percalços nessa reflexão. Hipocrisia é diferente de incoerência. O hipócrita é alguém que faz afirmações que não acredita. Seu objetivo normalmente é conseguir alguma vantagem ou parecer melhor do que é diante dos outros. O incoerente, por sua vez, é alguém que, de coração, acredita em algo e, por algum motivo, não vive de acordo com sua crença. O hipócrita é, na realidade, extremamente coerente para com os valores que acredita; o problema é que estes são diferentes daqueles que declara. 

A hipocrisia incomoda muito, mas em última instância os valores fingidos pelo hipócrita dizem muito a respeito daquilo que a sociedade busca e admira. Enquanto escrevo estas linhas, lembro-me de um conto do grande Machado de Assis, A Igreja do Diabo. Logo no início da narrativa, o diabo se apresenta diante de Deus e diz que a disputa entre os dois era injusta, afinal o Todo Poderoso possuía uma Igreja e o Tinhoso não. Deus, movido por sua justiça, permitiu ao demônio fundar uma Igreja e o empreendimento mostrou-se muito bem sucedido. Em pouco tempo a imensa maioria das pessoas ingressou na nova Igreja. Com o passar dos anos, no entanto, um fenômeno estranho ocorreu: diversos membros da Igreja do Diabo começaram a praticar o bem às escondidas e alguns até buscavam secretamente a confissão. A hipocrisia humana foi forte o suficiente para ludibriar o próprio pai da mentira. 

Meu pífio resumo é quase uma ofensa à prosa machadiana, no entanto creio que o núcleo da reflexão permaneceu. O hipócrita paga um tributo aos valores socialmente admirados e finge viver de acordo com eles para que assim possa ser admirado e bem quisto. Uma sociedade na qual existem hipócritas que fingem viver a virtude é uma sociedade que admira a virtude; e uma sociedade que admira a virtude é mais saudável que uma que a nega. 

O mal praticado, por mais paradoxal que pareça, é menos pior que o mal admirado. Colocando de uma forma mais clara: quando o erro ocorre e há um padrão bom que o condena, a possibilidade do acerto permanece. Quem finge a virtude pode ser desmascarado ou talvez possa até criar gosto pelos bons hábitos. Por outro lado, quando erro é erigido em norma ele tende a se perpetuar e as possibilidades de mudança e arrependimento ficam bastante reduzidas. O hipócrita acaba por prestar um serviço quando, ao fingir uma boa conduta, afirma a bondade daquilo que ele nem mesmo acredita. O pior mal é aquele que pode ser executado à luz do dia sem incomodar ninguém. 

Um dos motivos pelos quais a maldade é associada à escuridão é porque ela deve causar vergonha. Penso no exemplo do racismo. Ele é mal em toda e qualquer circunstância, mas prefiro cem vezes uma sociedade na qual um racista tem medo de olhares reprovadores do que uma na qual ele brada orgulhosamente seu credo absurdo.

Quando ouço certas declarações, tenho a impressão de que, para algumas pessoas, tudo é justificado a partir da sinceridade. Uma pessoa trata a outra de maneira grosseira. Quando questionada diz: pelo menos fui sincero. Um namorado trai a namorada e se justifica apelando para a sinceridade. Diante dessa sinceridade, fico assustado e, por vezes, penso se não prefiro a velha hipocrisia. 

Espero que o leitor não me entenda mal e pense que defendo que não há problema em fazer o mal desde que ninguém saiba. Nada está mais longe do que acredito do que isso. Penso, no entanto, que errar em público não transforma o erro em acerto. Acredito também que enquanto a seta estiver indicando o caminho correto, o retorno é mais fácil. O hipócrita, mesmo sem querer, reafirma a seta. 

Há um detalhe no conto de Machado de Assis que não deixa de me incomodar. Se o fundador da Academia Brasileira de Letras estiver correto em sua análise, não existe sociedade humana desprovida do mal da hipocrisia. Sendo assim, que ao menos ela seja um tributo à virtude e não uma referência ao erro. A coisa está realmente mal quando a justiça é causa de vergonha e a trapaça fonte de orgulho.

Sempre haverá pessoas más que fingem ser boas, e isso é uma coisa triste e desagradável. É importante lutarmos para não sermos um desses e nos esforçamos para que estes “Duas-Caras” existam na menor quantidade possível. Cabe apenas não esquecer que muito pior que uma sociedade onde demônios fingem ser anjos é um mundo onde anjos fingem ser demônios.


Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - Fundador da Oficina de Valores  



1 comentários:

Anônimo disse...

Essa frase foi dita por La Rochefoucauld

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