Por: Alessandro

Ano passado, em virtude do dia dos namorados, escrevi uma pequena carta endereçada aos casais que celebravam a data e partilhei alguns conselhos que considero importantes. Hoje, exatamente um ano depois, volto ao tema. Desta vez para dar uma triste notícia: infelizmente a instituição namoro está em crise.

Os casais não precisam entrar em desespero. Nem aqueles que estão solteiros. As pessoas continuam namorando e encontrando namorados ou namoradas. O namoro não morreu, mas alguns sinais parecem demonstrar que está doente. Um dos principais sintomas da doença é a redução do ciclo de vida. Relacionamentos tão curtos e que se sucedem em grande velocidade não podem ser saudáveis.

Claro que desde que o namoro existe, houve aqueles que não duraram muito. E em vários casos isto foi até positivo. Se começar um relacionamento foi um equívoco, terminar antes de passos mais sérios é um acerto. E é claro que quando um erro é descoberto logo no início, sofrimentos são evitados. O caso de hoje, no entanto parece ser diferente. Não que não existam começos equivocados, mas somam-se a eles percursos mal cuidados.

Qual é a causa de tal crise? Talvez sejam várias, mas uma é bastante clara. A crise do namoro é a crise do compromisso. Parece que nós, pessoas do século XXI, temos uma enorme dificuldade em comprometermo-nos. Estar com alguém e apenas com este alguém parece ser um fardo pesado. Não é incomum ouvir namorados dizendo: “gosto de minha namorada, mas tenho curiosidade em relação a outras garotas. Ficar só com uma enjoa”. E antes que as moças acusem os rapazes, vale lembrar que esta postura não é monopólio de nenhum dos sexos.

Para alguns, o namoro se tornou mesmo um estigma, um sinal vergonhoso. Namorar não é visto como algo bom, afinal significa estar preso na coleira. Bom mesmo é a disponibilidade de ser de todos e de ninguém. As possibilidades infinitas possuem tal encanto, que estar com uma só pessoa parece simplesmente uma forma de abandonar a tão promissora liberdade.

Por duas formas vive-se a aparente doce disponibilidade: fechando-se aos compromissos sérios ou assumindo compromissos só de boca e não de coração. Vivemos tempos onde outros verbos tem mais encanto que o velho namorar. Pegar, ficar, relacionamento aberto...Tantas novas formas, que o namoro parece encolher-se enrubescido frente a tanta modernidade. Mesmo assim ele resiste.

Muito daquilo que compõe as atuais frustrações vem da falsa oposição entre ser livre e ter compromisso. Claro que há grande sensação de liberdade quando nos vemos diante das infinitas possibilidades e não nos atrelamos a nenhuma. Quando damos apenas alguns passos em uma estrada e logo voltamos para contemplar a encruzilhada. Acontece que tal liberdade é apenas superficial, pois nega aquilo que realmente realiza: avançar pelo caminho.

As possibilidades são importantes. Sem elas não faríamos escolhas, seguiríamos simplesmente caminhos predeterminados. No entanto, possibilidades são frustrantes quando ficam apenas no âmbito do possível e teimam por não se tornarem realidades concretas. Caminhar por uma estrada é renunciar a todas as outras, mas querer ficar com todas significa não andar por nenhuma; Quem não avança não conhece novas paisagens, não faz novas experiências. Condena-se a permanecer apenas no início. Quem assim vive, fica imóvel e tem apenas ilusão de liberdade. Livre de verdade é quem caminha, livre é quem tem a coragem de comprometer-se.

Sou casado há quase dois anos e, somados os seis anos de namoro, estou junto com a Carol há oito. E sei que ainda estou no começo. Comprometer-se com alguém é ter a possibilidade de ser surpreendido no dia a dia por si e pelo o outro. É engraçado e misterioso o fato de que uma pessoa, sem nunca deixar de ser ela mesma, é um oceano inesgotável de personalidade que sempre, friso sempre, tem a capacidade de transbordar águas novas.

Quando digo isso, não estou querendo dizer que todos os dias de um relacionamento são explosões de paixão, que não existam decepções ou que não haja tédio e tristeza. Tais situações existem e fazem parte dos ajustes necessários nas difíceis tarefas de conhecer o outro e revelar quem nós somos.

Claro que o namoro, por definição, é um compromisso que ainda não é definitivo. A possibilidade de voltar atrás permanece, mas ninguém conhece um caminho quando mantém os olhos em outro; ninguém avança quando frequentemente volta atrás para poder dar pequenos passos em outra estrada. Na dinâmica de descoberta do que é o namoro, podemos descobrir que é melhor não ficarmos mais juntos, mas esse juízo só é justo quando vivemos uma proximidade sincera e fiel.

É comum quando se fala em fidelidade ser acusado de moralismo. Talvez isso possa ser até ser verdade de vez em quando. No entanto, esta não é minha intenção. Desejo apenas mostrar a beleza que é ter coragem de escolher verdadeiramente conhecer o mistério de alguém. Acredito sinceramente que tal conhecimento não é possível quando o olhar é disperso e que muita infelicidade vem dessa dispersão.

Hoje é dia dos namorados. Penso que além dos presentes (que são sempre bem-vindos!), é essencial dar ao outro algo que o dinheiro não pode comprar: a certeza de que é visto de forma única. Que um olhar exclusivo lhe é dirigido. Que mesmo que um dia se descubra que o melhor é cada um seguir sua estrada, houve fidelidade no trajeto percorrido a dois. Que a tristeza da separação não é fruto de um relacionamento mal cuidado, mas da maturidade de quem soube bem conviver. E que caso o relacionamento cresça e alcance o estágio seguinte, isso é feito porque houve a grande descoberta de que não é preciso preocupar-se em não saber mais o caminho de volta, afinal tudo o que interessa está à frente.

A fidelidade não é um fardo. Só a sente assim quem perdeu a capacidade de se encantar. Como disse Chesterton: “dedicarmo-nos a uma só mulher é paga pequena para dádiva tamanha de ver uma mulher.” Complementando: só pode ver de verdade uma mulher, quem se dedica a uma só.

Comecei dizendo que o namoro está em crise. Termino dizendo que apesar disso, muitos namoros continuam indo muito bem. Creio que isto ocorra porque tais relacionamentos são fundados em um compromisso verdadeiro. Compromisso que ultrapassa a paixão momentânea, embora não a negue. Compromisso que transcende o desejo, embora o canalize.

Talvez o namoro esteja fora de moda, mas ainda encanta e realiza muito. Ainda é um belo caminho a ser trilhado.  Quando bem vivido não é prisão, mas escola de entrega e liberdade.  Pode parecer paradoxal, mas a liberdade está também no compromisso. No sim, e não no eterno talvez. Difícil de engolir? Eu sei. Como diz a velha canção: “só entende quem namora”.


Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - Fundador da Oficina de Valores

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