Por: Breno
imagem do livro "O Retrato de Dorian Gray" - fonte: tvtropes.org
Causa certa confusão a primeira tentativa do leitor de compreender os discursos de lorde Henry, mas Oscar Wilde vai aos poucos delineando e moldando seu personagem. Talvez seja possível compreender o que Wilde queira dizer com a construção dessa personalidade a partir do que Alceu Amoroso Lima diz sobre si mesmo em seu artigo intitulado “Adeus à disponibilidade”.


As falas do lorde durante o romance “O retrato de Dorian Gray” deixam transparecer um homem cheio de certezas que se contrapõem às certezas vigentes, do nosso senso comum, e que deixaram o jovem Dorian Gray (personagem principal) baratinado já em sua primeira conversa com o tal homem.


As máximas emitidas pelo Lorde atingem Dorian Gray, o pintor Basil e outros personagens durante todo o romance. Elas se perdem, são contraditórias, às vezes se confirmam e voltam a parecer confusas. Se postas lado-a-lado não permitem a construção de um todo coerente que expressa uma personalidade comum. Não parece que Wilde está só querendo descrever uma pessoa normal, com suas contradições cotidianos, o lorde é uma figura cínica.

Mas uma das chaves de entendimento de Henry está em uma de suas máximas: “[...] gosto mais das pessoas sem princípios que de qualquer coisa no mundo”. E percebe-se logo que ele se ama mais do que qualquer coisa.

A atitude que lorde Henry está propondo é uma destemida corrida rumo ao valor das ideias: acima de tudo as ideias! Ainda segundo ele, essas ideias podem ser prejudicadas pelo engajamento das pessoas com certos ideais particulares. Esse comprometimento contamina a ideia, contamina o raciocínio lógico.

Por isso, a falta de princípios passa a ser elogiosa, ou seja, mais uma das certezas correntes que levam um contragolpe nas palavras do adversário incansável das certezas alheias: se faltar princípios morais, sobra lógica formal, com muita lógica, faz-se uma boa ideia e essa conta mais que tudo.

Os contragolpes ao senso comum não param por aí: “quanto mais insincera for a pessoa, apontam as probabilidades, tanto mais a ideia carregará a pureza intelectual, pois, neste caso, não trará o colorido das carências, desejos ou preconceitos”.

Impressiona em lorde Henry o destemor em busca da “racionalidade perdida” em meio aos inúmeros sentimentos, preconceitos, ideais, carências e todas essas características mesquinhas que insistem em atormentar o homem e a execução de uma razão pura. Essas características secundárias, bastardas somadas constituem um obstáculo retumbante à ideia pura, à lógica.

A Resposta de Alceu.

O destemor no caminho rumo às opiniões puras não pode ser, segundo o desdobramento lógico das noções expressas pelo lorde, um empenho pessoal na busca de um ideal. Essa última palavra (ideal) remete a uma empreitada incansável e que só pode se consumar sob as bases da certeza, palavra igualmente odiosa para Henry.

Ao contrário disso pensa Alceu, que diria que coragem é comprometer a vida com uma ideia. A ideia pura e simples, como diz o próprio lorde Henry em tom de desprezo, não traz as belas cores das carências, opiniões, comprometimentos. Alceu diria que o comprometimento com uma ideia e com as consequências em nossa existência traz um colorido especial.

A ideia pura não é capaz de produzir “as cores” da existência. Essas dão um tom ao preto e branco das operações lógicas. O comprometimento de uma existência com uma ideia significa um Adeus alegre a todas as outras possíveis posições. Esse Adeus pode sim ser motivado pelo medo, mas se for levado à sério só pode ser motivado pela coragem de quem encontrou uma certeza.

Não as certezas fáceis de lorde Henry. Essas não exigem compromisso como mostra a constante contradição entre as ideias expressas por ele. Não é preciso comprometer nada por essas máximas, o que elas exigem é no máximo um pouco mais de cinismo.

O comprometimento com a lógica erigiu com a argamassa do cinismo um esconderijo para uma vida medrosa. E receio de não estar falando somente do personagem de Oscar Wilde. Todo cronista pretende dar um tom de generalidade, a mais ínfima que seja, a qualquer uma de suas descrições: falo do nosso tempo, da minha e da tua existência.

O cinismo e a tentativa de destroçar certezas alheias de lorde Henry é uma busca por nada, um compromisso com ninguém. As conversas despreocupadas de fim de tarde onde Henry destroça certezas parece uma busca por qualquer coisa que algum desconhecido, apresentado por acaso, lhe apresente algo que realmente valha a pena e que se revele no inesperado.

Uma atitude justamente daquele que não tem nada para desfrutar do que a brevidade da diversão de ver a dúvida, a incerteza, a admiração no rosto do interlocutor, nada além do “imperativo” da lógica na qual se vangloria.

Cinismo, as certezas fáceis e as difíceis.

O cinismo de lord Henry se baseia nas facilidades que as certezas encontradas por ele lhe proporcionam. São certezas sem comprometimento. A certeza de quem lhes escreve e a de muitos a quem ele conhece, a certeza do grupo que está por traz desse blog (oficina), não é da categoria das fáceis, mas sim das comprometedoras.

O cinismo de Lorde Henry pode ser até divertido em alguns momentos, ele zomba de si mesmo, zomba dos outros e suas ideias, faz graça com a certeza que acabou de pronunciar. Triste mesmo é o cinismo daquele que já encontrou a Beleza Suprema, que vale a vida e um pouco mais e continua a divertir-se com a zombaria de si, do outro e Daquele Supremo. Comprometamo-nos, de fato!


Breno Rabello
Estudante de Sociologia - UFRJ / Oficina de Valores

1 comentários:

Alessandro Garcia disse...

Po...Texto citando Alceu Amoroso Lima!!! Precisamos de mais desses. Nossos pensadores não podem ficar soterrados no passado.

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