Por: Alessandro
imagem de: www.cnbb.org.br

Acabou a JMJ. Na última semana o Brasil, e mais especificamente o Rio de Janeiro, viveu uma situação ímpar. Milhões de peregrinos de cerca de 180 países pisaram o solo carioca. O encerramento da Jornada foi o maior evento que já ocorreu em Copacabana e reuniu mais de três milhões e meio de pessoas. Além disso, o impacto econômico da Jornada foi 17 vezes maior que o da Copa das Confederações, com R$ 1.800.000.000,00 injetados no Rio.

Os números da JMJ são enormes e surpreenderam mesmo boa parte dos organizadores, no entanto o concreto da Jornada não se deu apenas nas grandes aglomerações, mas
também em centenas de atividades menores espalhadas pela cidade. Claro que o encontro com o Papa foi a grande motivação, mas as experiências vivenciadas foram além.


Durante a jornada acompanhei a cobertura jornalística. Acho que na verdade que fui um dos poucos peregrinos que conseguiu ler o jornal durante esses dias, mas mesmo cansado não consegui deixar de fazê-lo. Queria ver como a Jornada repercutia nos meios de comunicação. Para minha surpresa, gostei das matérias que li. Mas mesmo sendo bem feitas, as notícias giraram principalmente (como não poderia deixar de ser) em torno dos encontros com o Papa e dos impactos da multidão no cotidiano da cidade. Julgo que uma parte importante ficou de lado, e é justamente por isso que escrevo esse texto. Aqui pretendo expor um pouco das experiências que fiz como peregrino. De antemão aviso que a quantidade de possibilidades era tão grande que outros fizeram trajetos completamente diferentes do meu.

Vou começar por um dos pontos que mais me impactou: as catequeses. Durante três dias, a jornada começava para os peregrinos com um encontro com um bispo. Esse bispo dava uma palestra, respondia perguntas dos jovens e em seguida celebrava a missa. Além disso, sempre havia um testemunho dado por um jovem. Os participantes da JMJ eram divididos por línguas e havia mais de 300 pontos de encontro.

As catequeses me tocaram tanto porque nelas percebi um diálogo franco. Os bispos ouviram e buscaram falar de uma maneira que fossem entendidos. As imagens focadas nos grandes encontros podem passar a ideia de que a Jornada é apenas uma grande festa bonita e que embora esteticamente atraente é alienante. Claro que a jornada possui um grande componente festivo, mas a este se alia um outro aspecto, que é o reflexivo ou meditativo. É este último que preenche o primeiro,  ao mesmo tempo que dele tira vigor.

Outro evento bem interessante da JMJ foi a Feira Vocacional. Fico triste por aqueles peregrinos que não conseguiram ir à Quinta da Boa Vista ter contato com mais de 130 congregações e movimentos católicos que lá tinham seus stands. A experiência foi realmente sensacional. Movimentos de todo o mundo, pessoas de diversas culturas, vários carismas e modos de trabalho... Na sexta-feira ao entrar em um sebo e conversar com um vendedor de livros, expliquei como a Feira funcionava. A resposta dele ao que falei foi a seguinte: “Mas isso é bem parecido com a Cúpula dos Povos da Rio +20”. Ele estava certo. Embora as duas iniciativas sejam diferentes, os  dois espaços possuem lá suas similaridades, principalmente no que diz respeito ao contato e à troca.

Além da feira e da catequese ocorreram diversas mostras de cinema, peças de teatro, muitos shows, apresentações de dança, exposições. Algumas das “atrações” permanecem no Rio após a JMJ, como é o caso da exposição que está no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro e que traz peças de museus italianos, entre elas uma pintura do século III.

Mas nem só de eventos vive a JMJ. Ela é composta principalmente pelos peregrinos. O Rio ficou pintado por suas mochilas e camisas coloridas. Era engraçado ver pessoas de línguas diferentes tentando se comunicar e, na maioria das vezes conseguindo. Era a velha luta entre Babel e Pentecostes acontecendo a olhos vistos. Foi possível perceber amizades se formando e se aprofundando... E mesmo quando o tempo não era suficiente para formar laços, aconteciam conversas e enriquecimento mútuo.

Poderia contar vários casos para ilustrar essa troca de riquezas, mas vou me centrar em um vivenciado por mim e por minha esposa. No terceiro dia da jornada, resolvemos visitar a “Cidade da Fé” que estava alocada no Rio Centro. Para não perder tempo com detalhes inúteis, basta dizer que este local ficava bem distante de onde eu estava hospedado e o trajeto demorou mais que o esperado. Para não perder a catequese do dia, vimos onde ficava o grupo de língua portuguesa mais próximo e fomos para lá.

O bispo que deu a catequese era português e convidou os jovens a falarem. Fez perguntas, ouviu atentamente as respostas. Após o plenário iniciou a missa e nela alguns peregrinos me ensinaram muito. Participei da celebração ao lado de um grupo daqueles que são chamados “católicos tradicionalistas”. Isso mesmo, o povo que deseja que a missa seja celebrada em latim. Embora não tenha nada contra o latim, prefiro a missa celebrada em vernáculo. Admito, no entanto, que nunca vi ninguém participar da missa como aqueles jovens. O padre rezava em português e nós também, mas havia algo diferente neles, uma postura de reverência ao sagrado que não me lembro de ter presenciado antes. Não chegamos a conversar, mas carrego o exemplo daqueles jovens que depois descobri serem de Brasília.

Antes de encerrar quero contar ainda um dos momentos mais intensos vivenciados por mim nesta JMJ. Falo da visita que fiz à exposição da instituição “Ajuda à Igreja que Sofre”. Esta exposição consistia numa sequência de vídeos de curtíssima duração apresentados em diferentes “salas” de uma grande tenda. Ao fim havia um espaço para oração silenciosa diante da Eucaristia. Simples, certo? Sim... simples e certeiro. 

Os vídeos mostravam atuações de cristãos ao redor do mundo, iniciativas de promoção da fé e de construção de uma sociedade mais justa. Já assisti a vários vídeos parecidos, mas desta vez fiquei sensibilizado ao lembrar que há muitos que dedicam sua vida a outros não de maneira episódica ou para receber algo com isso, mas simplesmente porque os amam. Confesso que quando estava em silêncio naquela sala de oração, olhando para o ostensório e lembrando-me dos vídeos, parecia que uma voz dirigia-se a mim perguntando: E tu, o que fazes?

Diante da pergunta, chorei. Chorei porque minha resposta foi: “Muito pouco, quase nada”. Continuei naquela sala chorando, rezando e pensando por mais alguns minutos. Quis ser diferente e fazer a diferença. Pensei então: “esse sentimento daqui a pouco vai passar e volta a velha mediocridade. Ela é confortável e não sei se quero deixá-la”. Para não sair dali meramente emocionado, decidi  fazer pequenos propósitos que me tirassem da inércia e entregar nas mãos de Deus os resultados.

A JMJ é grande e bela. Mas sua verdadeira grandiosidade se mostrará em seus desdobramentos; sua beleza se perpetuará nas atitudes daqueles que nela foram tocados pelo divino. À festa segue o trabalho e dele podemos colher mais motivos para festejar. Como disse nosso querido Papa Francisco, “a juventude é a janela pela qual o futuro entra no mundo”. Acontece que esse futuro não é algo simplesmente recebido, deve ser por nós construído. Que sejamos bons para que os tempos vindouros possam ser melhores.

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia / Fundador da Oficina de Valores

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