Por: Rodrigo
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“Apaixonar-se é fundar uma religião que possui um Deus que falha”. Frase clássica das palestras que fazemos nas Escolas. À parte os exageros que esta sentença pode conter, ninguém pode negar que quando nos apaixonamos por alguém, acabamos por construir um pequeno altar para a pessoa e a colocamos no centro da nossa vida. Nossos pensamentos, a organização dos nossos horários, os nossos dias giram em
torno da pessoa amada, quando nos aproximamos dela o coração bate mais forte e quando nos distanciamos, ainda que por poucos dias, o peito aperta de saudade. Aquele brilho no olhar, aquele suspiro e a inevitável expressão que traduz todas essas sensações: “Ahhh... o amor!”

Apaixonar-se é um processo bonito e agradável, que em si nada tem de ruim, porém C.S. Lewis em seu livro “Os quatro amores” nos faz um alerta interessante quando diz que os amores são divinos, porém se tornam demônios quando os tratamos como se fossem deuses. Essa é a dinâmica da dependência afetiva, esquecemos que o outro é parte da nossa vida e fazemos com que ele seja a totalidade dela. Nós temos um desejo de felicidade que é infinito e quando esperamos que um relacionamento nos faça plenamente felizes estamos exigindo que alguém finito nos ame com um amor infinito, em outras palavras, estamos enganando a nós mesmos e implorando ao outro que ele prometa algo que não pode cumprir.

Em outro texto (clique aqui para ler), cheguei a mencionar os relacionamentos líquidos de que Baumann fala, e uma das características desses relacionamentos é a intensidade com que as coisas são vividas, pessoas que se conheceram ontem, hoje já se amam e esperam passar a vida inteira juntas, amanhã terminam o relacionamento e voltam a ser os desconhecidos que na verdade nunca deixaram de ser. O amor é uma construção, não nasce pronto. O amor nasce no processo de conhecimento, amadurece com a convivência e se concretiza somente nas necessidades de renúncia, sacrifício, perdão e compaixão.

A dependência afetiva por sua vez, é muito mais carência do que amor, admito que exista amor ali, mas totalmente desvirtuado e suprimido pela carência, pelo egoísmo. A grosso modo, podemos resumir a dependência afetiva como um fechamento no relacionamento, onde o namorado e a namorada vivem um para o outro. Costumo utilizar uma imagem que ajuda a entender os riscos disso. Pensemos em um casal, onde os dois, um de frente para o outro mantém os olhares fixos, sem piscar. É exatamente esta a imagem que representa a dependência afetiva e suas consequências são:

1 – Nenhum dos dois pode sequer olhar para o lado, porque isso significaria um indício de traição ou de falta de amor. Possessividade, passo a enxergar o outro como uma posse minha e não mais como um parceiro.

2 – O casal que só fica se encarando, perde a capacidade de maravilhar-se com tudo que está ao seu redor, os amigos, as alternativas de divertimento. Nada mais importa porque o outro é meu tudo, aí vem o ciúme. O medo desesperado de que o outro possa encontrar alguém melhor do que eu, o que seria de mim sem ela?

3 – Quando um está de frente para o outro é simplesmente impossível caminhar. A finalidade é sempre o outro, nos contentamos com essa falsa promessa de felicidade e uma vida mesquinha.

4 – Acredite. Uma hora vai enjoar.

A imagem que representa o amor verdadeiro é a do casal que caminha de mãos dadas rumo ao mesmo objetivo. Suas consequências são:

1 – O caminho é belo pra quem caminha. Juntos, eles podem contemplar todas as maravilhas que a caminhada da vida proporciona.

2 – A possibilidade de olhar para os lados permite viver boas amizades, boas alternativas de divertimento e, sobretudo, dar a dimensão de que o outro pode sim ter um papel fundamental na minha busca pela felicidade mas não é o único e nem o principal responsável por ela.

3 – Quando os dois caminham juntos, há uma finalidade em comum. É muito bom e saudável saber que a minha finalidade não é outro, mas que eu tenho alguém que me ajuda a alcançá-la caminhando ao meu lado.

4 – Quando chegar o momento em que estar próximo ao outro não seja mais tão atraente, como era no início do relacionamento, o amor será maduro o suficiente para ser sustentado não pelo sentimento, mas pela decisão.

Eu não conheço um casal que tenha se fechado completamente no namoro e tenha dado certo, por outro lado, não me faltam exemplos de relacionamentos que construíram o amor de uma forma madura e vivem juntos a 10, 15, 20, 30, 40 e até mesmo 60 anos (no último final de semana vi um casal celebrar 60 anos de casados na paróquia em que participo) e não tenho dúvidas de que esse amor consolidado nasceu com o brilho no olhar, com o coração batendo mais forte e tudo o mais, contudo a sua concretização se deu nas renúncias e sacrifícios que o amor verdadeiro exige, mesmo quando o coração não bate mais forte e não resta brilho nenhum no olhar.

Rodrigo Moco
Psicólogo / Coordenador da Oficina de Valores

3 comentários:

Anônimo disse...

Sugeriria que além da temática vocês agrupassem os textos por autores, facilitando nossa busca.

Binho Kraus disse...

Sugestão aceita e implementada caro leitor anônimo!

Anônimo disse...
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