Por: Alessandro

imagem de: otaldafilosofia.blogspot.com
A palavra filosofia presta-se a muitos usos e a alguns abusos. Quando alguém está falando coisas tidas como estranhas ou inúteis, não é incomum ouvir alguém dizendo que fulano está filosofando demais. Há também aqueles que quando expõem sua visão de mundo, afirmam estar expressando sua “filosofia de vida”. Filosofia que pode não ser muito filosófica...
 
Claro que as palavras possuem certa vida e não estou aqui para condenar o uso menos preciso dessa ou daquela expressão. No entanto, a filosofia sobre a qual quero  refletir (ou filosofar?) nesse pequeno texto possui um sentido  muito mais preciso. Surgiu há mais de 2500 anos no lugar onde hoje fica a Grécia e diz respeito às tentativas de conhecer o mundo e o homem através do esforço racional.

A filosofia possui uma grande história. Começou com homens como Tales de Mileto e Anaximandro. Passou por Heráclito e Parmênides. Chegou a grandes expressões com as obras de Platão e Aristóteles. E isso para falar apenas de alguns nomes; e em  um período histórico muito restrito. Já são mais de vinte e cinco séculos de aventura e reflexão, de boas e más ideias, de críticas e concordâncias.

Hoje a filosofia virou matéria escolar. Alunos da graduação e do Ensino Médio tem contato com reflexões que bastante trabalho deram a muitos filósofos no passado. Além disso, nunca foi tão fácil conseguir um livro de filosofia. Se pensarmos na dificuldade que era produzir um livro durante a antiguidade e a Idade Média (tudo era feito à mão),  podemos ter um pouco de noção do quanto o saber está disponível atualmente. No entanto, para muitos a filosofia continua sendo algo sem sentido, um conjunto de pensamentos difíceis e “viajantes” que não serve para muita coisa.

Não é difícil entender quem pensa assim. O linguajar filosófico realmente é um pouco mais complexo que a linguagem comum. Além disso, algumas questões abordadas pelos filósofos parecem, em um primeiro momento, distantes da realidade.  Fora que  muitos daqueles que ensinam filosofia, por vezes adotam uma postura pouco favorável ao fomento do assombro necessário a todo verdadeiro filosofar.

Apesar  dessas e de outras barreiras, acredito  que a filosofia vale a pena. Mais que isso. Ela é necessária. Essencial. Não digo isso a respeito da disciplina escolar, embora a julgue muito importante. Falo da atitude que a filosofia ensina, do projeto que ela propõe. E mesmo dos conteúdos de reflexão que a tradição filosófica nos legou.

Aristóteles chegou a dizer que a filosofia era inútil. E ao dizer isso fez o maior dos elogios que a mesma podia receber. Afinal útil é aquilo que não vale por si só, que é meio para outra coisa. A filosofia nesse sentido é valiosa, uma vez que é algo que tem valor em si mesmo, que realiza a natureza humana, afinal o ser humano é um animal racional.

Embora eu concorde com o grande e velho Aristóteles, acredito que é importante dizer de uma forma que a atualidade entenda o porquê da filosofia ser tão importante. Importante a ponto de muitos morrerem por ela, a começar pelo próprio Sócrates.  Acredito que a resposta para essa questão varie muito, afinal os filósofos tem o hábito de discordarem entre si. Eu, que infelizmente não sou  filósofo, posso apenas subir no ombro de alguns gigantes para dizer algumas palavras.

A filosofia é importante porque ensina que a verdade é mais importante que a opinião. Ou seja, o que eu acho pode ser muito interessante, mas uma tese não tem valor apenas porque gosto dela. É preciso perguntar-se: É assim de fato? Nesse sentido, a filosofia faz com que possamos ser mais abertos a posições de outros, afinal, em uma discussão não interessa vencer uma disputa, mas chegar ao conhecimento. Quem se interessa pela mera persuasão sem se importar com a realidade é apenas um  sofista. O filósofo  é cativado pelo desejo do que  de fato é verdadeiro, belo ou bom.

A filosofia é importante porque, como disse Chesterton, “nada é mais prático que uma teoria”. Liberdade, direitos humanos e dignidade da pessoa humana, por exemplo, são ideias constantemente debatidas na seara filosófica. Além disso, dependendo de como encaremos tais questões nossas posições frente ao mundo serão completamente diferentes. As ideias, embora abstratas,  tornam-se forças concretas quando abraçadas por alguém. A filosofia  importa porque faz com que pensemos de forma mais clara. Quem está habituado à reflexão filosófica normalmente é mais consciente das ideias pelas quais é movido e tem mais facilidade  em perceber as forças e fraquezas daquilo que acredita. Dessa maneira, é mais capaz de ponderar a respeito das modas passageiras e de não afirmar algo simplesmente porque “todo mundo diz” ou “porque sempre foi assim”.

A filosofia é importante porque lida com questões que nenhuma outra ciência lida, ou ao menos não com a mesma intensidade, e que, provavelmente são as questões mais importantes da vida. Quem sou eu? A vida tem sentido? Como o conhecimento é possível? Existe a felicidade? Como encontrá-la? É possível mostrar racionalmente que Deus existe? Todos julgamos tais perguntas importantes, mesmo que acabemos deixa-las de lado ou responde-las de forma superficial. Os filósofos sabem, no entanto que o essencial não pode ser descartado e que questões importantes não podem receber qualquer tratamento.

Penso que algo que muito dificulta a percepção do encantamento da filosofia seja o considera-la um compêndio de ideias mortas, estudadas apenas por curiosidade. Nada mais falso que tal crença. Sócrates pode ter sido condenado a morte, mas o veneno que ele ingeriu não foi capaz de matar o método socrático ou suas reflexões sobre a virtude. A filosofia é algo vivo e a leitura de uma obra filosófica  não deve ser como a visita a um museu, mas como um diálogo vivo e provocante, capaz de nos acordar de nossos “sonos dogmáticos”.

Precisamos ousar saber. Ousar pensar. E como “não há nada no intelecto que não tenha passado pelos sentidos”, o pensamento começa com a escuta atenta, com a leitura e, principalmente,  com assombro frente ao mundo. 

Em um mundo de superficialidades que vive à base do slogan do último momento, a filosofia pode ser, para muitos,  uma espécie de tábua de salvação. Em uma sociedade como a nossa, onde o consumo define a identidade, a reflexão filosófica ajuda na busca por uma vida diferente, com mais sentido. A palavra filosofia parece indicar que a sabedoria quer ter amigos. Tristes seremos nós caso façamos a loucura de rejeitar tal amizade.

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - UFRJ / Fundador da Oficina de Valores

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