Por: Alessandro


Faz um tempo que desejo escrever um texto sobre a Turma da Mônica. Creio que não poderia haver momento melhor, visto que esse ano, a “baixinha, gordinha e dentuça” mais amada do Brasil completa 50 anos. Isso mesmo! A Mônica, com
sua cara, corpo e mente de criança de sete anos, já é cinquentona. A personagem foi criada em 1963 pelo Maurício de Sousa, que a batizou com o nome da própria filha.

A menina que está sempre acompanhada de seu coelho de pelúcia não foi a primeira personagem criada pelo Maurício. Vários outros já existiam, como o Cebolinha, o Franjinha e o Bidu. Apesar disso, sua popularidade cresceu tão rapidamente que ela logo se tornou a referência da turma, que passou a ser conhecida como sua.

A importância da Mônica e de sua turma para o imaginário dos brasileiros dificilmente pode ser superestimada. São milhares os que foram alfabetizados lendo suas histórias, que guardam boas lembranças da infância relacionadas à turminha do bairro do limoeiro, que desejaram os famosos (e caros) Almanacões de Férias. É bem difícil encontrar uma pessoa que não reconheça de imediato os personagens ou algumas de suas características.

Vez por outra, aparece alguém criticando as histórias da Mônica e de seus amigos, fazendo comparações com a Mafalda ou com o Calvin, e dizendo que os personagens tupiniquins são inferiores. Tal comparação não poderia ser mais injusta. Por mais que eu ame Calvin e Haroldo e seja grande admirador da menina argentina precocemente politizada , a grande verdade é que estas tiras não foram pensadas para crianças, foram feitas para adultos. O olhar infantil é um recurso; as temáticas, no entanto, dificilmente podem ser consideradas infantis. O mesmo não acontece com a turma da Mônica. Maurício de Souza, embora inicialmente talvez tivesse outras intenções, produziu gibis para crianças e não tem nenhuma vergonha disso!



Hoje é comum também aparecerem críticas que afirmam que a turma da Mônica faz mal para as crianças. Recentemente li uma que dizia que os personagens do Maurício não tem personalidade, que são definidos apenas por seus defeitos. Cebolinha é o garoto que fala errado, Magali é a gulosa, Mônica é a menina briguenta e o Cascão, bem... todo mundo sabe que ele não gosta muito de banho. Além disso, a mesma pessoa dizia que as histórias da Mônica incentivam o bullying!

Quando li tal comentário, pensei que o autor ou não leu as histórias da turminha, ou leu com muita má vontade, ou, como dizia minha mãe, procurou ver chifre na cabeça de cavalo. Em primeiro lugar é claro que os defeitos são importantes na composição das personagens criadas Maurício, contudo longe de defini-los. O Cebolinha, por exemplo, além de falar “elado”, está sempre a propor “planos infalíveis” e sonha ser o “dono da rua”( ou da “lua”, caso prefiram). O Cascão, além de feder um pouco, é um amigo leal, está aí para o que der e vier! Isso para não falar em diversos outros personagens, como o gênio Franjinha, o aventureiro Astronauta, o puro Anjinho ou o sábio dinossauro Horácio. 

Sobre a questão do bullying, não consigo imaginar uma criança que se torne violenta ou autoritária por ler as historias da turminha. Vale frisar que as grandes implicâncias do Cebolinha para com a Mônica sempre acabam mal. De qualquer forma, esses não é nem o ponto central. Creio que a Turma da Mônica quando olhada de uma maneira um pouquinho mais aprofundada (nem precisa ser muito), leva mais a uma reflexão anti-bullying do que a uma promoção do mesmo.

Para defender o último argumento vou me remeter a uma estória recente da turminha. Tal estória foi produzida pelos irmãos Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi, e publicada na coleção chamada Graphic MSP, que é dirigida a leitores mais velhos. Laços nada mais é que uma grande homenagem dos dois irmãos às histórias que leram na infância. E vale dizer: eles capturaram de forma muito bela o espírito da obra do Maurício de Sousa. 

No início de Laços, vemos, como não poderia deixar de ser, um plano infalível do Cebolinha para vencer a Mônica sendo colocado em prática. O plano não dá muito certo e os meninos passam a ser perseguidos pela menina e seu coelho. Logo após essa pequena aventura, nosso amigo que troca o “r” pelo “l” descobre que seu cachorro (o Floquinho!) fugiu de casa. No dia seguinte, o Cebolinha ainda está triste pela perda do amigo canino e não quer sair da cama. Nisso, a turminha chega a sua casa – Cascão, Magali e Mônica incentivam o garoto a dar a volta por cima e elaborar um plano infalível para resgatar seu cão de estimação. 

Nessa história é possível perceber que as crianças que no dia anteiror se mordiam e implicavam umas com as outras são muito amigas. Sim, amigas. Cebolinha e Mônica, por mais que briguem, são unidos por laços de amizade. Nos planos do Cebolinha não há exclusão da Mônica; nas coelhadas que ela dá, não há rejeição do Cebolinha. Maurício de Souza fala de uma infância na qual ser amigo significa se importar profundamente com o outro, na qual também existe a liberdade de brincar e de brigar. Quem quando criança já ficou de castigo por ter brigado com um “amiguinho” e logo depois voltou a ter vontade de estar com ele, sabe bem o que estou dizendo.

Algum tempo atrás, comentando com alguns alunos sobre a turma da Mônica e sobre essa crítica acerca do Bullying, começamos a falar sobre o politicamente correto. Uma aluna soltou então uma pérola que faço questão de citar aqui; “É professor, temos que pensar que o politicamente correto é diferente do correto”. A frase dessa estudante de 15 anos me disse tanto, que ficou ecoando em minha cabeça por alguns dias. Muito bom senso o dessa menina. Só podia mesmo ter crescido lendo a Mônica.

Na obra do Maurício, os defeitos dos personagens são visíveis, tão visíveis quanto os laços que eles tem entre si e com suas famílias. Ah... e as famílias também possuem ligações de amizade. É possível dizer, sem medo de exagerar, que as estórias da Turma da Mônica são uma celebração dos valores da família e da vizinhança. Não é à toa que grande parte das aventuras da turma se passam em apenas um bairro, que para eles é do tamanho do universo.

Quero ainda dizer que praticamente não li Turma da Mônica quando era criança. Nunca me interessei tanto. Parti direto para os quadrinhos de super-heróis. Comecei a dedicar alguma atenção aos gibis do Maurício de Souza faz bem pouco tempo. Na verdade, foi logo após o lançamento do primeiro álbum no qual foi comemorado os cinquenta anos de carreira do próprio Maurício. Sentei, li e gostei. C.S. Lewis certa vez disse que toda boa obra de literatura infantil pode ser bem apreciada por um adulto. Creio que ele estava certo... 

Mesmo não tendo me tornado um leitor assíduo dos gibis da turminha, acompanho as Graphic MSP que comentei acima. Podem ter certeza que desejo que o Cebolinha continue falando “elado” e chamando a Mônica de “dentuça, baixinha e golducha”; que a Mônica continue enfezada e distribuindo coelhadas por aí; que Magali continue gostando muito de Melancia; que o Cascão continue fedendo e enfrentando o Capitão Feio. Espero, de coração, que a magia da turminha permaneça por muito tempo e que, no politicamente incorreto, suas estórias continuem nos trazendo aquilo que é correto.

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - UFRJ / Fundador da Oficina de Valores

2 comentários:

karina elord disse...

Vou incentivar meus filhoos a lerem os quadrinhos da turma da monica. Sem duvida e um incentivo e aprendizado para toda vida de amizade e convivio social.
No mais a frase vai ecoar durante uma semana por aqui tentando caracterizar o politicamente correto e o correto. Parabens pelo texto. AbCO

Alessandro Garcia disse...

Valeu pelo comentário Karina...
Essa reflexão sobre o politicamente correto feita pela minha aluno também me deu o que pensar.

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