Por: Fernanda
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Faz algumas décadas que as mulheres descobriram que podem ser ouvidas, podem opinar sobre assuntos importantes, sabem muito bem de si mesmas e que devem lutar por seus direitos e por uma sociedade mais justa. Pois bem. Fazendo uso desse meu direito, hoje escrevo para esse blog pra dizer, como mulher, o que eu penso sobre o aborto.

Há cerca de um ano atrás estava em discussão a descriminalização do aborto em certos casos e, como ocorre com assuntos polêmicos na era das redes sociais, todo mundo quis dar a própria opinião. Eu não fui diferente e de alguma forma deixei registrada a minha opinião sobre o assunto: desfavorável. Desfavorável por vários motivos que ao longo da semana meus amigos saberão falar aqui melhor do que eu, mas sim, diferente da maioria das pessoas, desfavorável.

Como aconteceu com outras pessoas que também se colocaram contra o aborto no Facebook, fui criticada, e confesso que achei uma certa graça em algumas das razões que me foram apresentadas. "Isso é uma imposição de uma sociedade machista" e "Isso é moralismo dos cristãos" foi o tipo de coisa que me disseram, como se a minha postura de desfavorável ao aborto fosse algo antinatural e eu só tivesse chegado a esse pensamento por uma lavagem cerebral. As pessoas se admiram que uma mulher possa ser contra ter “direitos sobre o próprio corpo”. 

É extremamente contraditório, como se ergue alto a bandeira defendendo os direitos que qualquer cidadão pode ter a saúde, alimentação, paz... E eu concordo com isso tudo, mas essas coisas só podem existir depois que existe a vida. Tanto se discursa contra o preconceito, contra a pobreza e até pelo direito dos animais. Mas o direito a vida não é muito maior do que qualquer outro? E a vida humana a que dá sentido a todas as outras? Como é possível o aborto ser aceito tão facilmente por pessoas tão engajadas e comprometidas com a humanidade, com o planeta?
 
Tá bom, considerando que eu sou uma aberração e quero isso pra mim, eu não estou tentando interferir no direito das outras mulheres de fazer o que quiserem com o próprio corpo? Não enxergo dessa forma. O Estado não tem poder de retirar a guarda de uma criança de sua mãe se esta apresenta risco para ela, quando uma criança sofre algum tipo de abuso por parte da família? E isso, por um acaso é interferir nos direitos da mãe? Acho que todos concordamos que a vida de nenhuma criança não pode depender apenas da mãe e ficar a mercê de suas escolhas.

Um dos comentários que foi deixado na minha página naquela ocasião me marcou de forma bastante especial, em que no meio de várias coisas, a pessoa disse algo do tipo: “é muito fácil interferir na vida de outras pessoas porque você não passou por isso. Quero ver se for você a sofrer um estupro ou descobrir que seu filho é anencéfalo se você vai continuar pensando desse jeito.” Nunca entrei nessa discussão só para ganhar, entrei porque acreditava e acredito muito, e por isso aceitei o desfio de pensar sobre o assunto.

A verdade é que como qualquer outra mulher, eu corro esses riscos e admito que diante de uma dessas situações (assim como em qualquer situação de dor que se possa enfrentar na vida) tudo o que eu desejaria ia ser sair o mais rápido possível dela. Quem poderia dizer que não é difícil sofrer um estupro ou descobrir que o filho no seu ventre está destinado a morrer pouco tempo após o nascimento? Mas a conclusão a que cheguei, e respondi dois dias depois, é que eu não sei com certeza como eu reagiria em uma situação dessas, mas eu sei bem o tipo de pessoa que eu quero ser.

Eu acredito que a mãe saiba que aquela vida que cresce de alguma forma é parte dela. Não no sentido de que lhe pertence e ela tem o direito que quiser, mas no sentido que lhe dá o instinto de preservar, de cuidar, de proteger... E ainda tem um fator que não estou trazendo em conta aqui, porque nunca o experimentei. É aquele amor, aquele carinho, aquela doação... Aquilo nós ouvimos por “só-quem-é-mãe-entende”. É antinatural uma mãe amar incondicionalmente seu filho? É antinatural um ser humano defender os direitos do outro?

Na verdade, acredito que seja exatamente o contrário. As pessoas fazem força para se dessensibilizar diante do aborto, de se convencer que não é um ato repugnante. E quando pensamos nas justificativas para se realizar um aborto, é a troco de quê? Livra-se da lembrança de uma gravidez traumática? Não ter quer conviver com uma criança (que, só em nível de lembrança, não possui culpa alguma) que é fruto de um estupro? Não passar por situações financeiras complicadas? De não ter que criar um filho sozinha? Não atrapalhar os planos de carreira e de vida de uma mulher? Os motivos podem ser até grandes, mas quando colocamos em proporção com o que está em jogo, não me restam dúvidas.

Por piores que sejam as condições em que uma gravidez aconteça... Pensando, primeiro como ser humano, e depois como mulher, como alguém que – se Deus quiser – um dia vai ser mãe, não consigo pensar em nada que pode valer mais do que a vida do próprio filho.

Fernanda Gonzalez
Estudante de Engenharia Ambiental - UFRJ / Oficina de Valores

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