Por: Alessandro
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Embora nem todos as aproveitem nesse aspecto, as redes sociais trazem possibilidades interessantes de diálogo e debate. Recentemente, lancei uma questão acerca da identificação política em minha timeline no Facebook e obtive algumas respostas interessantes. A pergunta, bastante simples, foi formulada nos seguintes termos:

- Você é “de esquerda” ou “de direita”? Por quê?

Claro que um pequeno número de respostas em uma rede social não pode ser considerado como base para nenhum estudo científico. Apesar disso as reflexões levantadas trouxeram pontos importantes que, a meu ver, traduzem as inquietações de muitos. Três foram os conjuntos de respostas: obviamente alguns se disseram de esquerda e outros de direita. Houve também aqueles que admitiram confusão entre as duas opções ou afirmaram estar decepcionados com ambas. Tomo a liberdade de citar um exemplo de cada uma das três posições:

“esquerda! só mudanças profundas podem mudar o mundo, que atualmente é dos ricos e para os ricos. se você não tem dinheiro você morre, essa é a primeira verdade. não temos empregos para todos, um pouco mais de 30% da população brasileira é desocupada (não tem emprego e não procura mais porque já desistiu), enquanto 5% é desempregada (procura emprego todo dia da semana). por um mundo mais justo, igual e democrático, eu sou de esquerda (sou comunista na verdade).” (Juliano Menegat)

“Interessante. Já escrevi um texto dizendo os porquês de eu me considerar de direita, então, vamos aos porquês. Simples, o pensamento de direita está intimamente ligado ao senso de indivíduo e liberdades individuais, ao contrário do pensamento de esquerda que está ligado ao coletivo e à igualdade. O pensamento coletivista, igualitário, revolucionário e utópico da esquerda é perigoso. Prefiro o campo do conservadorismo político e moral, liberalismo econômico e regime democrático. Isso pauta a direita com a qual me identifico.” (João Paulo Soares)

“Rapaz, e caro amigo Alessandro Garcia, há quem diga que o "não sei" também é opinião. Esta aí: eu, sinceramente, não sei. Confesso que tenho uma paixão absolutamente hipócrita pela esquerda, pois considero que o trabalhador merece seu salário, e quanto maior seu esforço, melhor sua remuneração, mas também entra a questão das injustiças sociais...olha caro amigo, definitivamente, eu não sei!” (Alan Vargas Pitta)

Com o desenrolar da discussão, é claro, surgiu por parte de alguns a seguinte pergunta: E você, Alessandro? Direita ou esquerda?

Responder essa questão não é simples por vários motivos. Um deles é que, como já disse várias vezes, minha personalidade não é muito dada à política. Meus interesses costumam ser mais literários, estéticos e (por que não?) metafísicos. No entanto, a política é uma necessidade e nenhum de nós pode renunciar a pensá-la e, de alguma maneira, a participar dela.

Para responder à pergunta vou recorrer à minha história. Não há dúvida de que meus sentimentos políticos formados na adolescência foram de esquerda. As aulas de história e geografia, matérias que eu amo, conduziram a isso, principalmente quando cursava o terceiro ano do Ensino Médio. Eu entendia, nesse momento, que “ser de direita” era estar a favor dos ricos e contra os pobres, que era defender a desigualdade social e a dominação dos fortes sobre os fracos. Nesse sentido, só pessoas interesseiras, de mau caráter ou burras seriam de direita. Olhando para trás hoje, lembro da célebre frase de Chesterton que disse: “Eu era socialista porque a única outra alternativa era ser capitalista”

Na graduação cursei Ciências Sociais, e aí duas coisas aconteceram. A primeira foi uma certa decepção com a militância de esquerda. Embora tenha conhecido grandes exceções, devo dizer que em muitas pessoas que diziam ter uma postura crítica encontrei forte dogmatismo. Lembro-me de uma situação que ocorreu quando já estava no mestrado: dois estudantes conversavam quando um deles perguntou acerca de um autor que o outro tinha acabado de mencionar: “Este cara é do bem ou do mal? Ser for do mal eu não vou nem ler”. O que ele entendia por mal? Qualquer afirmação que pudesse ser chamada “de direita”. A menor suspeita disso fazia com que um suposto pesquisador se negasse a ler um livro.

A segunda experiência marcante foi ter contato com obras de autores tidos como de direita. Percebi que muito do que falavam sobre o liberalismo, por exemplo, continha, a meu ver, exagero. Li escritores liberais, comunitaristas e conservadores e não encontrei o “mal” que tanto ouvi. Ao contrário, tive contato com diversas ideias que julgo de muito bom senso.

Progressivamente me afastei do sentimento criado na adolescência, mas devo dizer que não me converti à direita. Confesso que discursos dos dois lados me incomodam bastante. Com o tempo aprendi o “porquê”. A oposição esquerda-direita não era tão simples como “a favor dos pobres” e “a favor dos ricos”. Havia uma complexidade maior. 

Tendo a encarar direita e esquerda a partir de dois grandes valores: liberdade e igualdade. Na direita a ênfase é a liberdade e nos mais radicais isso chega ao sacrifício da igualdade. Com a esquerda ocorre o contrário e o foco principal é igualdade, sendo que nos discursos mais extremistas a liberdade é colocada de lado ou usada apenas como recurso de retórica.

O conflito entre estas duas grandes posições políticas se dá porque ambas partem de um valor específico e este valor na prática política concreta muitas vezes pode chocar-se com outro igualmente valioso. Diante disso mais uma vez tendo a pensar como Chesterton e a afirmar que o problema do mundo moderno são que as verdades enlouqueceram quando certos princípios bons em si mesmos transformaram-se em absolutos.

Então qual a minha posição? Confesso que por várias vezes, infelizmente cheguei perto daquilo que um colega chamou de agnosticismo político, que é a postura daqueles que não se sentem confortáveis com nada, mas também não abraçam uma proposta concreta. Hoje defendo aquilo que, depois da formulação do sociólogo Anthony Giddens, ficou conhecido como “terceira via”. Não desejo uma escolha entre liberdade e igualdade, mas uma conciliação entre estes dois grandes valores.

Para ser mais exato, acredito em uma terceira via específica que pode ser resumida grosseiramente nos seguintes princípios:

1 - Bem Comum: o objetivo de toda organização econômica e política deve ser desenvolver condições de vida que permitam que os diversos grupos e cada um dos seus membros possam desenvolver-se da maneira mais plena possível.

2 – Subsidiariedade: As instâncias maiores não devem ser totalizantes, mas devem promover o protagonismo dos grupos menores. O que mais me encanta nesse princípio é que ele foge à oposição entre ausência de Estado e ideal estatizante, uma vez que possui um aspecto positivo e um negativo. Se por um lado é dito que o Estado não deve sufocar as células menores, por outro afirma-se que ele deve oferecer a ajuda necessária ás mesmas.

3 – Solidariedade: Todo ordenamento jurídico e social deve visar o bem concreto dos seres humanos, com prioridade aos mais necessitados. É importante citar que solidariedade aqui é um princípio de ação política e ordenamento jurídico, não apenas um sentimento.

Todos estes princípios (que não são invenção minha) estão fundamentados numa afirmação anterior que é a dignidade inalienável da pessoa humana. Tal afirmação é minha crença basilar e creio que quando ela falta, mesmo grandes realizações humanas como a ciência, o Estado, a democracia e o mercado podem voltar-se contra o próprio homem.

Desconfio das utopias. Não creio que a terra será, um dia, um paraíso desprovido de problemas. Isso, no entanto não significa que eu creia que não devamos ou não possamos fazer nada. Um mundo perfeito é impossível. Mas uma realidade muito melhor que a nossa é uma tarefa realizável. Cabe a nós termos a clareza do que realmente desejamos. Cabe também transformar palavras em obras e teorias em ação.

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - UFRJ / Fundador da Oficina de Valores

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