Por: Breno
Um dos 8 blocos reunido no Retiro de Carnaval 2014
Pra quem não sabe, a Oficina de Valores promove, já há algum tempo, o retiro de carnaval. Da sexta-feira até a quarta-feira de cinzas, realiza-se uma convivência muito profunda com universos totalmente novos para muitas pessoas. 

Quando digo que universos novos são vividos durante o retiro quero dizer que muitos se deparam ou se reencontram com novas propostas de vida, com novos projetos pessoais que emergem de momentos de reflexão e oração. Além disso, encontramos com o outro, a alteridade, com pessoas que nunca se encontraram ou que já tinham se visto, mas que não significavam o universo que elas realmente são. É sobre o contato com o outro que gostaria de falar com mais calma. 

Encontrar-se com o outro é um desafio: tenho que conviver, entender minimamente seus anseios e no retiro isso se realiza de maneira muito intensa. As pessoas são separadas em grupos (blocos) e a proposta é que esse bloco fale entre si sobre coisas importantes, faça músicas, almoce junto, passe por momentos da programação do retiro específicos para o bloco, etc... 

Encontrar-se com o outro é um desafio! Mas percebemos no final dos quase seis dias que encontrar com o outro é também um presente e uma profunda necessidade. Quebrar o isolamento é um dos presentes que o retiro nos dá e que é quase imperceptível durante os dias que passamos no sítio. Digo mais: se, encontrar-se com o outro, for também uma possibilidade de partilhar dos ideais que encontramos no retiro, perfeito! 

Onde quero chegar? A quarta-feira de cinzas significa voltar para a normalidade do cotidiano e a ameaça do isolamento fica à espreita da nossa existência novamente. Quem experimentou a alegria de estar com o outro não quer voltar-se de novo para si mesmo. O “Eu” parece um abismo. É exatamente nesse momento da ameaça do isolamento que ocorrem os erros de interpretação pra quem se deixa guiar pelos sentimentos e somente por eles. Abrir-se ao outro não significa deixar-se totalmente de lado, como se o outro fosse capaz de suprir todos os meus anseios. 

Há que se considerar o seguinte: para que haja amizade real entre duas pessoas, por exemplo, é necessário que existam duas pessoas, duas individualidades, minimamente bem resolvidas e parcialmente independentes. Para que exista um namoro saudável é necessário que existam duas individualidades, duas pessoas. A carência e a dependência afetiva nessas duas relações é a receita para a interrupção das relações ou a permanência dessa relação de maneira prejudicial para os envolvidos. Dependência afetiva: é disso que estamos tratando. 

O cotidiano exige inúmeras vezes momentos de solidão. Se o “Eu” não deixa de ser um abismo desconhecido, no meu cotidiano sempre estarei à beira do precipício, me agarrando às cordas que me prendem à salvação. Quem é a aparente salvação? “A galera”! Na solidão do meu quarto, quais são as cordas que utilizo quando estou às portas de encontrar-me comigo mesmo? O facebook e as redes sociais, talvez! Aquele último fio que me prende às lembranças agradáveis de estar longe de mim e dos meus problemas cotidianos. 

Se quero estar longe de mim mesmo, se tenho medo das questões problemáticas da minha vida, provavelmente nos momentos que descubro outras pessoas o que eu mais quererei é estar em um contato constante e se possível (não é possível, garanto!) ininterrupto com elas. 

A maturidade emocional, intelectual, religiosa passa em grande parte por um caminho também de esforço pessoal e solitário. Estar bem consigo mesmo não é isolar-se no individualismo egoísta (como gostariam alguns autores de auto-ajuda) e essa não é a proposta cristã. Entregar-se ao outro também não é tornar-se dependente dele! As duas dimensões devem estar bem contempladas. Além de uma terceira, a mais importante (que não é tema aqui): qual o papel de Deus na minha vida? 

Há pessoas mais individualistas (eu, por exemplo) e as com tendências mais coletivas. Mas nesses momentos todos nós, acredito eu, tendemos um pouco mais para a tal da dependência. Que isso não mine logo de início relações que poderiam se desenvolver entre nós de maneira saudável e desembocar em uma verdadeira e madura amizade por pura dependência.

Breno Rabelo
Mestrando em Sociologia - UFRJ / Oficina de Valores

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