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Por: Alessandro



Uma das características mais marcantes do blog da Oficina de Valores é a diversidade temática. Já tivemos textos publicados tanto sobre a Turma da Mônica como sobre a crise da Venezuela. Internamente costumamos dizer que o que dá unidade ao blog é forma como trabalhamos os temas e não os assuntos discutidos. Apesar de tamanha diversidade, é necessário reconhecer que neste pouco tempo já estamos criando algumas "tradições". A primeira delas diz respeito aos especiais de Natal e Semana Santa. Sempre, nessas datas, escrevemos reflexões para aprofundar o significado de tais festas.

A motivação para trabalharmos sempre as festividades cristãs é dupla: por um lado, somos todos católicos, sendo assim não conseguimos deixar de falar sobre aquilo que mais nos toca, isto é, a fé que professamos. Nesse sentido, os textos que falam sobre o nascimento de Cristo ou sobre sua ressurreição são a explicitação daquilo que cremos, da visão de mundo que professamos. Por outro lado, acreditamos que esses textos podem ser interessantes também tanto para os que creem quanto para os que não creem. E isso por um motivo simples: nossa cultura possui raízes cristãs, mas o cristianismo é cada vez mais "conhecido de vista" para a maioria das pessoas, ou seja, algo que todos julgam possuir certa familiaridade, mas que na verdade não conhecem. Creio que a seguinte comparação vá deixar claro como enxergo esse ponto:

Um homem muito rico deixou uma fortuna incalculável para sua família, uma fortuna praticamente inesgotável. Em seu testamento, no entanto, esse homem deixou uma condição. Que cada geração deveria ler o testamento e reivindicar sua parte (um quantia muito grande) em tal fortuna. Durante muitas gerações as coisas transcorreram relativamente bem e os pais transmitiram aos filhos a linguagem necessária para o que o testamento fosse lido. Claro que muitos, infelizmente, usaram a fortuna de modo equivocado, contrário ao desejo do antepassado, mas isso nunca impediu que a linguagem necessária fosse ensinada. Pois bem, com o passar dos tempos, a língua foi mudando e as novas gerações tinham cada vez mais dificuldade em entender o que estava escrito no testamento que lhes fora legado. Por algum motivo não aprenderam. O documento, no entanto, permanecia lá. Quando era abordado soava absurdo, uma vez que, embora algumas palavras pudessem ser reconhecidas, seu significado escapava e o todo não fazia sentido algum. Isso fez com aquilo que era uma grande fonte de riqueza passasse a ser visto como algo inútil, ou, pior ainda, como uma mensagem sem sentido que mais serve para atrapalhar que para ajudar. 

Claro que todas as metáforas tem seus problemas. Peço ao leitor, no entanto, que tenha foco na mensagem principal: há grande ignorância sobre a fé cristã. Tal ignorância, contudo, acaba não sendo percebida porque há diversos elementos da fé ao nosso redor: construções, símbolos, nomes de cidades, feriados. Estes elementos, contudo, são percebidos, mas mal entendidos ou mesmo não compreendidos. Tendo colocado todas estas ideias como introdução, vamos aquilo que nos interessa hoje: a Sexta-feira Santa ou Sexta-feira da Paixão. 

Para a fé cristã, a criação foi um empreendimento de amor. Deus não precisava criar, mas num ato de total gratuidade criou todas as coisas e para além delas criou também as pessoas. Tais pessoas, justamente por serem pessoas, foram criadas livres, afinal se a liberdade não existisse, amor, bondade, fidelidade, justiça e todas as nossas maiores qualidades não seriam possíveis. A liberdade carrega também o potencial da negação, afinal se não o fizesse não seria liberdade. E foi justamente essa negação que aconteceu. Uma negação que levou a uma tríplice ruptura: a ruptura com Deus, a ruptura consigo e a ruptura com a natureza. Na Semana Santa, celebramos justamente a louca tentativa de Deus de, sem anular a liberdade humana, lançar uma ponte sobre esse abismo. 

Para tornar mais clara a profundidade do que tento explicar, vou recorrer a uma lembrança pessoal. Até pouco tempo atrás eu lecionava sociologia e filosofia em uma universidade. Certo dia, um padre que dava aulas de teologia disse que sua turma estava muito grande e que seria necessário dividí-la. Perguntou se eu, dado meu interesse e certo autodidatismo na área, toparia o desafio. Admito que fiquei bastante empolgado com a tarefa e aceitei dar as aulas. Todos os meus alunos cursavam psicologia e a grande maioria possuía crenças diferentes das minhas. 

Ao fim do semestre eu estava bastante contente porque a participação dos alunos foi ótima e o conteúdo tinha tido diálogo com a carreira que eles tinham escolhido seguir. Um dos principais frutos de ter lecionado teologia, no entanto, foi que alguns alunos sentiram-se à vontade para conversar sobre suas visões de mundo e sobre suas inquietações metafísicas comigo. 

Lembro-me bem de uma dessas conversas, que ocorreu bastante tempo após as aulas. Eu tinha acabado de descer as escadas da faculdade quando encontrei alguns ex-alunos sentados conversando. Fui convidado a participar da conversa que girava em torno do tema da religião. Um dos alunos me disse que era "olimpiano". Até então nunca havia ouvido falar de tal religião, embora, pelo nome, pudesse deduzir do que se tratava. O aluno rapidamente explicou: "Eu adoro os deuses gregos". Para alguém que cresceu lendo as histórias gregas como mitologia, tal revelação soou um pouco estranha, mas é claro, respeitei a posição do aluno. Como na conversa trocávamos pontos de vista, eu disse que dada minha formação em filosofia, julgava difícil acreditar no politeísmo. Ele respondeu que concordava com isso, mas que seus sentimentos colocavam em contramão com essa postura da razão. O deus monoteísta parecia distante, e ele queria sentir a divindade próxima. 

Na conversa com esse rapaz percebi toda a força e novidade do cristianismo: um Deus único, causa das causas, criador de todas as coisas, mas que quis estar perto. Um Deus que sofreu com a distância causada pela ruptura original, um Deus que quis ser "Deus conosco" e para tanto encarnou-se, fez-se homem. No Natal celebramos esse aproximar-se de Deus, na Sexta-feira da paixão fazemos memória da reafirmação da primeira negação. A bondade ganhou rosto, o amor tocou nosso chão. E foi negado. Foi traído. Foi morto. 

Um dos grande problemas que sempre inquietou os homens foi a questão do sofrimento. No caso do cristianismo isso se agrava porque Deus é visto como onipotente e sumamente bom. Então por que existe o sofrimento? A fé cristã, embora considere o sofrimento um mistério, tem respostas para tal questão, como a da tríplice ruptura já mencionada nesse texto. Acontece que os cristão creem que a grande resposta de Deus não foi um tratado teórico, mas uma atitude. Deus se fez homem e conosco sofreu. Na verdade, o cristianismo afirma mais: Cristo foi como um ponto de gravidade que atraiu para si todo o sofrimento do mundo: toda angústia, toda traição, toda incompreensão, toda dor. Cada lágrima da história confluiu para Cristo na cruz. 

Ao assumir sobre si todo sofrimento, Deus identificou-se com os sofredores. Isto faz com que o amor a Cristo concretize-se no amor ao próximo. Todo bem feito a alguém, todo esforço por aliviar o sofrimento, por resolver problemas sociais e espirituais, é algo feito ao próprio Deus. A questão, no entanto é mais profunda: na cruz, Cristo deu sentido ao sofrimento. Sofreu todas as consequências das negações e rupturas. Colheu todo o fruto de cada "não" humano. De cada "não" ao bem, de cada "não" à justiça, de cada "não" ao próximo, de cada "não" a Deus. A morte foi o último "não" acolhido por Cristo em sua paixão. O "não" final. O "não" definitivo. 

Se a história da relação entre Deus e os homens terminasse na Sexta-feira da Paixão, tudo teria sido uma grande derrota. Isso, no entanto não é o que cremos. Afirmamos que "o bem é mais potente em sua bondade que o mal é em sua maldade". A cruz é lembrada de maneira paradoxal: por um lado é o sinal do quão longe o mal e crueldade são capazes de chegar. Por outro, mostra também até onde o Amor é capaz de ir. Ou melhor, mostra o que Amor é capaz de atravessar. 

Ao assumir todas as consequências das rupturas, Cristo pôde fazer uma obra de reconciliação. Ao atravessar as negações humanas, Ele pôde dar um sim divino. A palavra final não é de derrota e solidão, mas de vitória e abraço. A morte, o "grande não", não venceu a vida. Hoje, no entanto, meditamos sobre o drama da luta, sobre o sangue derramado, sobre a a coroa de espinhos e sobre o Monte Calvário...

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - UFRJ / Fundador da Oficina de Valores

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