Por: Joyce

Resposta bem simples: não faça mestrado. Se não quiser se preocupar com a vida acadêmica, supondo que seu desejo seja levá-la de modo consciente e competente, não entre nela. Não faça faculdade. Não trabalhe. Não saia de casa.

Claro que é uma brincadeira. Faça mestrado, faça faculdade, trabalhe. Mas pra não pirar, já inicie sabendo que não é uma fase da vida em que você terá tranquilidade. E pra saber isso, gostaria de iniciar lembrando que, bom, viver direito dá trabalho. Ter fé, ser honesto, fiel, ser verdadeiro consigo mesmo e seus princípios exige muito esforço, pois estamos irremediavelmente mergulhados em uma sociedade que preza muito do que se pode considerar “errado”. Sem entrar no mérito da questão, contando que, certamente, o leitor sabe do que estou falando, passo para as vias de fato: crescer dói.

Uma grande professora que tive na faculdade uma vez disse que virar adulto era fazer concessões, escolhas. E mesmo já tendo uns 23 anos quando ouvi isso fiquei muito surpresa e me deu um estranhamento ouvir isso porque, poxa, sempre me pareceu que crescer era ganhar a liberdade de poder escolher, poder fazer mais por conta própria, decidir meu caminho. E aí ela explicou e eu nunca mais esqueci: crescer é ter que escolher entre acordar cedo pra ver desenho ou acordar cedo pra ir trabalhar. Que liberdade há nisso? Podemos ser adultos e contar com a liberdade que a criança reivindica se ficarmos em casa vendo desenho? Podemos escolher não nos dedicarmos a melhorar de vida? Podemos, de fato, escolher entre o que quisermos se desejamos ser adultos bem-sucedidos?

E, lógico, foi um banho de água gelada. Mas, como todo banho de água gelada, me acordou. E essa percepção de que o crescimento está atrelado a decisões e escolhas acabou me dando condições melhores de enfrentar o desafio que foi seguir mais uma parte da carreira acadêmica que iniciei. O mestrado me possibilitou, além do necessário e sonhado título e todos os aspectos estudantis e profissionais, entrar em contato com uma parte de meu eu profissional e estudante que eu não conhecia. Falar sobre a carreira de mestre é fácil, mas o difícil foi tentar conceber o que haveria neste texto entendendo que meu papel aqui era falar sobre aspectos menos profissionais.

Como não se estressar cursando horas de aulas bem mais difíceis que as da graduação? Lendo textos em língua estrangeira porque não existe tradução deles? Correndo atrás de definições de conceitos que o Google não dá? Passando por greves? Correndo atrás de orientador? Correndo do orientador? (brincadeira)

É simples: não tem como. O mestrado acaba envolvendo toda a sua vida. Falo por experiência própria: não é um trabalho que você faz expediente e abandona às 18h. São madrugadas, fins de semana, feriados e até mesmo aquele momento de lazer acaba sendo invadido porque fica difícil desconcentrar – e todos os seus amigos acabam conhecendo a fundo sua pesquisa.

Mas e aí? Estressemo-nos. Encarar isso como uma metáfora do esforço de crescimento me ajudou a passar por isso e ver com tranquilidade. Desejar uma vida em que não haja nenhum tipo de preocupação é o mesmo, nos dias de hoje, que desejar que te paguem pra dormir. O esquema do mundo exige cada vez mais de nós e acredito mesmo que quem corre mais atrás tem mais chances de ser feliz. Seja porque conseguiu um emprego legal, seja porque pode escolher a empresa em que vai trabalhar ou ainda abrir a sua própria: a satisfação que buscamos acaba dependendo da gente mesmo. E isso é meio apavorante. Apavora porque cada vez mais nos percebemos solitários (ainda que com apoio de família, amigos, companheiros) em uma busca que é muito pessoal. Estudar, se especializar, adquirir experiência, crescer no âmbito do conhecimento é de cada um, personalíssimo e intransferível. Dá muito medo pensar que a possibilidade de poder fazer duas viagens por ano meio que está nas minhas mãos e em como eu as conduzo no meu trabalho de hoje. Plantando e colhendo.

A boa notícia? É que quando se está no caminho certo não estamos lutando em vão. É quando ficamos malucos de tanto ler e estudar, escrevendo artigos, formatando trabalhos, arrumando uma quebra que você não sabe de onde saiu e, às 4h da manhã, você tem que copiar uma citação e só de voltar no ponto chave que te fez caminhar para aquela pesquisa, bom, aquilo te movimenta, você vibra e se lembra do porquê está estudando aquilo. Isso se aplica a qualquer trabalho: o professor que percebe que atingiu a consciência crítica do aluno, o médico que salva uma vida, o empresário que fornece um bom serviço que as pessoas desejavam, o padeiro que percebe a satisfação dos clientes com seu produto. Toda dor nas costas ganha significado. Vale mesmo.

Amo escrever, mas sinto sempre que escrever aqui para o blog é um exercício mais de análise do que de texto: caio sempre em mais assuntos do que o tema inicial previa. Mas acho que isso também é crescer - saber que os aspectos da vida que valem ser discutidos não são moedas de dois lados, mas sim têm a multiplicidade que nós mesmos adquirimos na nossa evolução. E que bom que não estamos condenados a permanecer sempre os mesmos. Ainda que isso demande muita luta.

Joyce Scoralick
Mestre em Estudos Literários - UFJF / Oficina de Valores



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