Por: Alessandro

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido marca o retorno do diretor Brian Singer à franquia dos heróis mutantes da Marvel Comics. Ele dirigiu X-Men, lançado em 2000, e o elogiado X-Men 2, que chegou aos cinemas em 2003. É importante dizer que o trabalho de Singer, junto com de Sam Raimi em Homem-Aranha, foi feito em uma época que os filmes de heróis ainda não estavam consolidados. Fórmulas estavam sendo testadas e caminhos desbravados.

Após o bom trabalho com os X-Men, Singer foi trabalhar com a concorrência e dirigiu o não tão bem sucedido Superman: o Retorno. Se o trabalho de Singer com o personagem da DC não foi lá essas coisas, o mesmo pode se dizer dos rumos que os X-Men tomaram após sua saída. O terceiro filme da franquia, X-Men: O Confronto Final, embora tenha tido boa bilheteria recebeu severas críticas e, principalmente, dificultou a continuidade da série no cinema ao matar alguns personagens icônicos.

A solução dada pela Fox a esse problema foi simples e inteligente: ambientou o filme seguinte no passado. X-Men: First Class tem como personagens centrais um jovem e imaturo Charles Xavier e um também jovem Magneto. Apresentando algumas caracterizações interessantes, o filme acerta em cheio também ao inserir o duelo entre os mutantes no contexto da Guerra Fria.

First Class, no entanto, trouxe outro problema: confusão cronológica. A Fox não deixou de lado o que foi feito antes e tudo continuou valendo para a linha do tempo interna aos filmes. A história apresentada então era nada mais, nada menos que o passado oficial dos filmes anteriores. A complicação se dava porque havia situações contraditórias, pontos que não se conectavam.

Como aproveitar First Class e corrigir a bagunça cronológica? Finalmente chegamos a Dias de um Futuro Esquecido. O filme se inspira em uma história clássica dos X-Men escrita pelo principal escritor dos personagens, Chris Claremont. Dizem as lendas que foi essa história que inspirou James Cameron a criar o Exterminador do Futuro. Tal história tem um roteiro relativamente simples: no futuro as coisas deram terrivelmente errado. Os mutantes vivem em campos de concentração ou são exterminados pelos sentinelas. E tudo por causa de um assassinato cometido no passado por um mutante específico. Para alterar esse cenário pós-apocalíptico a mente da jovem Kitty Pride é enviada ao seu corpo no passado para tentar impedir o crime e assim mudar a história. 

O filme segue a fórmula da história em quadrinhos no seu essencial, embora com outro contexto e outros personagens. Além disso, é claro, o personagem enviado para mudar a história foi o mutante com mais apelo junto ao público: Wolverine.

Depois dessa longa introdução, passemos à reflexão mais direta sobre o filme. 

X-men: Dias de um Futuro Esquecido segue uma receita diferente dos filmes produzidos pela Marvel Studios. Tem um roteiro um pouco mais complexo que qualquer filme do Homem de Ferro por exemplo. Além disso, a ação segue outra linha, são utilizados menos alívios cômicos, há uma quantidade bem maior de personagens...

Já apareceram críticas dizendo que o filme se perde em “blá blá blá”, o que traduz o desejo de uma parte do público que acha que filme de herói tem que ter pancadaria o tempo inteiro. Se este for seu caso, realmente há “melhores” opções. Não que não existam boas cenas de ação, mas o forte do filme não está aí.

Dias de um Futuro Esquecido trabalha uma temática que traduz o desejo de muitos: mudar o passado para que o presente seja melhor. Quem nunca se imaginou voltando no tempo e vivendo a vida com toda a experiência de erros e acertos acumulada através dos anos? Ou, quem sabe, ter a possibilidade de alterar um único ato que, hoje sabemos, trouxe consequências ruins? 

A ficção ao trabalhar a possibilidade de voltar no tempo, chama a atenção para o fato de que isso não é possível. Victor Frankl costumava dizer que “ter sido é a forma mais segura de ser”, ou seja, o que passou não pode ser alterado, embora possa ser relido, reinterpretado. Além disso, mesmo que o que foi não possa ser de outra maneira, há sempre possibilidade de recomeços. Há uma frase do velho Charles Xavier que chama bastante atenção para isso durante o filme.

Há ainda um ponto do filme que vale a menção. Os quadrinhos dos X-men foram criados no contexto da luta pelos direitos civis nos EUA. Os mutantes personificariam aqueles que são excluídos e sofrem preconceitos. No caso da vida real, com uma cor de pele diferente. No caso dos quadrinhos, com o gene x que confere poderes. 

Há um grande embate ideológico nas histórias clássicas. De um lado está Magneto, um mutante que quer que aqueles nascidos com poderes governem, mostrem que são superiores. Ao fazer isso, simplesmente inverte o preconceito que sofre. A resposta que dá à violência que seu povo sofre é a mesma violência. Do outro lado da “mesa” temos Charles Xavier e seu “sonho” de convivência pacífica entre humanos e mutantes. Qualquer referência a Martin Luther King Jr. não é mera coincidência.

Em “Dias de um Futuro Esquecido” são trabalhadas possíveis consequências da primeira opção. Ocorre uma escalada de violência que termina vitimando humanos e mutantes. Há na história uma defesa do sonho de Xavier...Ele parece frágil e ingênuo, mas é a única alternativa que a longo prazo pode criar uma contexto favorável. Em um mundo de crescente radicalismo, onde a polarização impossibilita um diálogo verdadeiro (e não um relativismo vulgar), tal lição continua bastante importante. Chega a ser trágica uma cena na qual um jovem Magneto, embora já alertado sobre o futuro, mantém sua linha dura. Seu dogmatismo ideológico o cega para a construção de uma alternativa de futuro.

Há muito ainda a falar sobre o filme. Comentar a grande cena com Mercúrio, a decadência e a reconstrução de Charles Xavier, o caminho trilhado por Mística. Há muito ainda a dizer e pouco espaço a utilizar. Que o restante fique para as rodas de conversa... Apesar de ter uma ou outra cena piegas, vale frisar que em um ano com bons filmes de heróis, os X-men não fazem feio. 

Para encerrar basta dizer que embora diga respeito a um futuro que precisa ser esquecido, este é um filme que merece ser lembrado.

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - UFRJ / Fundador da Oficina de Valores

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