Por: Rodrigo Moco



Sempre ouvi da minha avó a seguinte frase: “política, religião e futebol não se discute.” Apesar de a minha avó ter sido uma grande referência na minha formação como pessoa, desde cedo olhava com desconfiança para essa máxima, pois o que eu via era justamente o contrário: só se discute política, futebol e religião... E não é que a minha própria avó cedeu e ontem travamos um pequeno debate político? Eu comentava sobre a ascensão de alguns políticos que me transmitem uma certa esperança e minha avó defendia a ideia de que na política só tem sujeira e ninguém presta.

Ela não falou nenhuma novidade, pelo contrário. É o senso comum. No cenário político brasileiro você vai encontrar basicamente os “PTmaníacos”, os comunistas “clássicos”, os conservadores “clássicos” e a esmagadora maioria da população que pensa como a minha avó: “Político é tudo igual, ninguém presta mesmo...” E obviamente dentro dessa lógica surgirão várias vertentes, os defensores do voto branco/nulo, do voto de protesto (voto em quem eu sei que não vai ganhar) e principalmente aqueles que querem alguma vantagem (voto em quem for me ajudar de alguma forma). Por isso os candidatos da boca de urna mais gordinha e dispostos a ceder materiais de construção e grana fácil sempre vêm fortes! Escrevo isso para dizer que temos uma política desacreditada. É fato inegável que a política brasileira não funciona como uma boa representação de sua população, tal como deveria ser, e é fato também que somos explorados das mais diversas formas.

Às vezes isso nos conduz a um pessimismo que parece irreversível. Aquela sensação de que não tem jeito, que está tudo em um estado tão ruim e que não há nada que possamos fazer. A conversa com a minha avó me provocou isso. Minha avó dizia: “Você é novo ainda, vai aprender muito nessa vida e ver que nenhum político presta! E qualquer um que entrar vai roubar também.” Eu respondia insistentemente: “Não vó! Não podemos ter essa visão do ser humano, temos que acreditar na mudança.” Ela riu com o canto da boca, como quem diz: “sabe de nada, inocente...” e permaneceu dizendo que não tinha solução.

Não concordo com ela, graças a Deus. Porém, admito que ela tem motivos de sobra para pensar assim: os abusos da copa do mundo, a desigualdade, o SUS, a educação, os impostos, o fato de as correntes políticas não terem ideologias claras, não conseguimos definir se um partido é de esquerda ou de direita, o que o partido tem como meta etc. É terra de ninguém mesmo. Na Psicologia há um termo denominado mensagem dupla, quando uma mesma circustância apresenta significados ou consequências diferentes. Por exemplo, uma mãe diz pro filho: se desobedecer ficará de castigo. Aí a criança desata a desobedecer e depois, por pena, a mãe não dá o castigo. A criança não consegue entender a importância da obediência, pois se depara constantemente com uma mensagem dupla a respeito do assunto. É o que ocorre conosco, somos filhos de uma “Pátria amada mãe gentil”, que nos “deseducou” com as suas mensagens duplas, suas incoerências. 

Para tal análise caberia um apanhado histórico, político, social, mas nada disso será feito. Só quero discutir um caso: Aborto! Há quatro anos, aquecíamos os motores para a disputa eleitoral da Presidência e vínhamos de 8 anos de mandato do populista Lula, que trouxe como sucessora a até então desconhecida do grande público Dilma Rousseff. Não há dúvidas de que o carisma do presidente guinou a campanha de Dilma, a colocando desde cedo no topo das pesquisas. Uma das grandes polêmicas criadas em torno do nome dela à época, foi o boato de que ela seria abortista. Muito se falou sobre o assunto e muitas preocupações surgiram, inclusive uma forte campanha por parte de grupos religiosos para que a Dilma não fosse eleita, afinal não queríamos correr o risco de ter o aborto legalizado no País.

O circo estava armado, campanha nas ruas, acalorados debates políticos e a então candidata Dilma afirma em entrevista ao Estadão, no dia 15/10/10: “Eleita presidente da república eu não tomarei iniciativa de propor alterações de pontos que tratem da legislação do aborto.” Ela foi eleita, o tempo passou... No dia 01/08/2013 a presidenta sanciona o aborto na lei 12.845 e na última semana, dia 21/05/2014 sancionou a portaria nº 415 que oficializa o aborto no Brasil. Mas quem está preocupado com o aborto se houve aumento no Bolsa Família? Quem está preocupado com o aborto se o Brasil cediará a Copa da Fifa? Quem se importa com o aborto?

Uma das muitas duplas mensagens que recebemos é a de um país que se mostra combativo contra as práticas de violência infantil, tendo em voga a “lei da palmada” que visa impedir que os pais submetam seus filhos a castigos físicos. Muito coerente, não é? Não pode dar uma palmada, mas pode matar desde que a criança ainda esteja no útero. Nada, absolutamente nada justifica o aborto. Não é uma questão de saúde pública, não é um direito da mulher... é uma vida que está ali! E TODO MUNDO TEM O DIREITO INVIOLÁVEL À VIDA.

Escrevo esse texto com dor no coração, a dor de quem vê a morte entrando no seio de sua nação e sabe que nada pode ser feito para evitar tamanho estrago. Para não concluir de forma pessimista, porque de fato não o sou, reitero que acredito na mudança. Não acredito que é todo mundo ruim como dizem por aí e só vamos conseguir mudar a política quando entendermos que a pior atitude que podemos ter é a de descrença. É vantajoso para o mal que não acreditemos nele. É na sutileza e discrição que ele se alimenta e cresce. E é no desejo de mudança, atenção e atuação efetiva que a gente bate de frente! Avante amigos, a vida pede mais!


Rodrigo Moco
Psicólogo/Coordenador da Oficina de Valores

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