Por: Alessandro

“Spiderman, Spiderman, Friendly neighborhood, Spiderman.” Dificilmente será encontrado um fã do Homem-Aranha que não tenha tido certo contato com essa canção. Ou com sua malfadada paródia popular: “Homem-Aranha, Homem-Aranha, nunca bate, só apanha”. Ao colocar essa música para ser o toque de celular de Peter Parker, Marc Webb sabia que mexeria com bons sentimentos de nostalgia de uma geração.

É justamente no trabalho dos sentimentos e nas relações entre os personagens que “O Espetacular Homem-Aranha: a Ameaça de Electro” se destaca de outros filmes de super-heróis. E isso não é fruto do acaso. Quando a Sony escolheu Webb para ser diretor, sabia que a maior capacidade do diretor dizia respeito às interações e emoções. Seu único longa-metragem até então era o romance “500 dias com ela”.

A aposta foi alta, e muitos dos erros do primeiro filme podem estar relacionados a ela. Mas podemos dizer que a escolha começou a valer a pena nesta sequência. Os atores estão muito bem, o romance entre Gwen e Peter convence, a interação de Harry Osborn, o Duende Verde, com o Aranha, embora desenvolvida em poucas cenas, realmente está muito bacana.

O maior acerto desse filme, no entanto, foi conciliar muito bem o trágico e o cômico. Na maior parte dos filmes de super-heróis, o elemento cômico parece um pouco fora de lugar. Está ali apenas para segurar parte do público que espera por eles. No caso do Homem-Aranha, não é assim. O personagem é por definição engraçado e fazer piadas é sua forma de lidar com a tensão e com o medo. Ao mesmo tempo, qualquer leitor de quadrinhos, sabe que a vida do Aranha é uma das mais atribuladas dos comics. Morte e tragédia sempre estão em seu encalço.

A grande inovação que a Marvel trouxe para os quadrinhos nos anos 60 foi justamente humanizar seus personagens. Os heróis até então pareciam não ter uma vida. Ou eram tão marcados pela tragédia que tudo se resumia à sua missão ou então eram tão perfeitos que não pareciam homens. Com o surgimento do “universo Marvel” a coisa ficou um pouco diferente. O Capitão América era um homem deslocado no tempo que não se encaixava na nova sociedade, o Hulk um cientista brilhante que carregava um monstro dentro de si, Thor e Demolidor possuíam sérias deficiências, o Homem de Ferro possuía um problema cardíaco e mais tarde tornou-se alcóolatra.

E o Homem-Aranha? O Homem-Aranha era a síntese mais perfeita daquilo que a Marvel pretendia fazer. Um adolescente excluído na escola ganha superpoderes. Tenta “se dar bem” e em consequência de um ato de irresponsabilidade, o Tio que o criou morre assassinado. A partir de então, ele percebe que “grandes poderes trazem grandes responsabilidades” e assume o papel de herói. Mas diferente de outros, continua com todos os problemas de uma vida comum: falta de dinheiro, tia doente, vive isolado dos amigos, tem dificuldades com a namorada. E mais: ser um super-herói só piora as coisas. Sua vida tem tantas dificuldades e tragédias que ele até cunha uma expressão: “Azar de Parker”.

É interessante ver como Peter Parker é um personagem complexo: seu heroísmo é uma mistura de altruísmo, responsabilidade e culpa. Busca fazer o bem e, em grande parte das vezes, recebe mal e sofrimento em troca. O Homem-Aranha é uma tradução para a cultura pop do velho tema do justo sofredor. Ou seja, nesta terra o bem nem sempre é recompensado como deveria. E é justamente permanecer nesse caminho, apesar dos pesares, que torna uma pessoa grande, quiçá um herói. Essa perseverança, no entanto, não é vivida sem conflitos. Dúvidas e fraquezas não deixarão de aparecer. Talvez seja por isso que, no nome do herói, antes da palavra “aranha”, que simboliza seus poderes, está palavra “homem” que marca sua identidade. 

Em “Espetacular Homem-Aranha 2” há a adaptação para o cinema daquela que talvez seja a segunda maior tragédia da vida de Peter Parker, uma que nos quadrinhos foi retratada no começo da década de 1970 e que até hoje tem consequências na vida do herói. 

Esse segundo filme da nova trilogia, talvez seja o melhor já feito para o personagem. Isso não quer dizer que não existam problemas. Existem, e muitos deles são graves, como, por exemplo, o abuso das coincidências. Isso normalmente significa preguiça no roteiro e algumas sequências podiam ter sido muito melhores se não utilizassem essa muleta. Outro ponto fraco está relacionado a certas situações forçadas. Um delas diz respeito ao passado do pai de Peter Parker (quer dizer que ninguém do governo sabia onde ficava o laboratório?), a outra está ligada à postura dos nova-yorkinos que, em situação de perigo ficam parados olhando como se estivessem assistindo uma peça de teatro. Tudo bem que o povo pode ser curioso, mas soou inverossímil!

Esses defeitos, que podem ter várias fontes – falta de tato do diretor, interferência dos produtores e executivos, problemas com os roteiristas –, não tiram o brilho do filme do “amigão da vizinhança”. E o segredo para isso encontra-se tanto no ritmo quando no drama trazidos pela história. Somos tão envolvidos que deixamos de lado os problemas e curtimos a aventura. Em uma das mais belas sequências do filme, vários dos tropeços estão presentes, mas a “mensagem” é tão bacana que é impossível não se envolver.

Creio que o grande ponto desse segundo filme é que o Homem-Aranha é importante porque ele traz esperança. Esperança porque apesar de todos os problemas, ele é uma pessoa boa, que deseja fazer o certo. Por isso se torna um símbolo. Um símbolo no qual cada um pode se enxergar. Um símbolo de que realismo não significa cinismo e que o heroísmo é possível mesmo na dor, na dúvida e na fraqueza.

Nos dias de hoje, é bacana assistir e vibrar com um blockbuster como Homem-Aranha. Com a onda pós-moderna de anti-heróis, é bom saber que certos ícones ainda rendem boas histórias e que é possível o sucesso de personagens que afirmam que “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”.

Que venha o terceiro filme!

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - UFRJ / Fundador da Oficina de Valores

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