Por: Nathalia Melo


Imagem: Divulgação
Passei os 93 minutos do filme 127 horas balançando a perna de tanto nervoso e tampando os olhos em alguns momentos. Lançado em 2010, conta a história real de Aron Ralston, um alpinista que ficou preso por cinco dias na região dos cânions, nos Estados Unidos, com uma pedra em cima do braço. Sem poder contar com ninguém para fazer o trabalho por ele, Aron decide, ele mesmo, amputar o próprio braço. As expressões de dor e as tentativas de retirar a pedra do ator James Franco doem a alma.

A história é tão impactante por mostrar o processo de desapego provocado pela própria pessoa que sofre, chamado em resenhas da época de uma “amputação autoprovocada”. Se o acidente, por si só, tivesse provocado a amputação, a metáfora seria outra. Não minimizo a dor de quem tem um membro amputado, ou então sofre grandes perdas, como ser demitido de um emprego ou ser forçado a aceitar o término de um relacionamento pela vontade do outro. A dor, de qualquer maneira, é grande. Mas vale pensar que nem sempre alguém nos faz sofrer. 

Às vezes, nós mesmos precisamos provocar nossas amputações e, como Aron, provocar o próprio sofrimento. Nesses casos, o processo é outro. Relacionamentos que sabemos que não fazem bem, empregos que não obtiveram o sucesso esperado, uma profissão que não trouxe felicidade, lugares que já não cabiam mais nos nossos objetivos. 

Certa vez, um amigo me disse que estava deixando o emprego em uma excelente empresa de televisão. O mercado de jornalismo é restrito e não são tantas as vagas disponíveis. Perguntei a ele, em tom de conselho: “você já tem outro em vista, certo?”. Não, ele não tinha. Simplesmente não estava feliz em um lugar que a maioria das pessoas daria a vida para estar.  Uma amputação autoprovocada. Três meses depois, desempregado, com medo e investindo na própria formação, ele conseguiu um emprego em uma emissora melhor e para fazer aquilo que gosta. Olhei com especial admiração para essa atitude de coragem. Quantas pessoas, na mesma situação, seriam capazes de provocar o próprio sofrimento? Da mesma forma que muitas escolhem passar anos em relacionamentos que não fazem bem do que encarar o sofrimento provocado por uma amputação. 

O alpinista sabia que a sua vida mudaria drasticamente após aquela amputação. Sofreu ao longo de cinco dias com a dor física e também com a ideia de não ter mais o braço, que sempre foi importante para realizar as suas aventuras. Uma amputação autoprovocada nunca é um processo simples ou indolor. No dicionário, amputação quer dizer “um processo necessário pelo qual se separa do organismo, parcial ou totalmente, um membro do corpo”. A palavra “necessário” esclarece que, muitas vezes, essa é a única saída para manter um paciente vivo. Metaforicamente, aplicada à vida e não ao corpo, a definição poderia ser: “é um processo necessário pelo qual se separa da vida, parcial ou totalmente, uma parte de nós mesmos”. Não teria como ser indolor. Arrancamos uma parte de nós, e isso pressupõe sofrimento, para que no futuro possamos nos manter vivos, mais fortes e preparados para o novo. 

Martha Medeiros, em uma resenha publicada no ano de 2011, resume a ideia: “cada um tem um cânion pelo qual se sente atraído. Não raro, é o mesmo cânion do qual é preciso escapar”



Nathalia Melo
Estudante de Jornalismo - Oficina de Valores

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