Por: Gustavo



Sou fã de Harry Potter (potterhead, pros entendidos) e confesso que me foi uma pequena satisfação pessoal quando me ocorreu escrever sobre o tema. A história que conquistou milhões de fãs pelo mundo e marcou infâncias e adolescências pelo mundo, trazendo à leitura uma geração de jovens que já começam a enveredar-se por uma vida de hábitos “internáuticos” é um dos poucos sucessos literários/cinematográficos recentes que tem por mensagem aquilo de que muito tratamos por aqui: valores.

Dentre tantos que a autora coloca, genialmente, entre os diálogos e situações da história, como amor, amizade, coragem, humildade, escolhi abordar um que me tem saltado aos olhos ao observar a experiência de vida das pessoas que me cercam: o sofrimento. No caso do que trata a história, o dom de saber sofrer.

A ideia pode parecer absurda, afinal muito se fala de e se louva a capacidade de superar, mas muito pouco sobre a de suportar sofrimentos. Na verdade, só duas leituras me fizeram pensar a ideia de um sofrimento alegre na vida: Harry Potter e o Evangelho. A disparidade da grandeza desses dois textos é evidente, mas para o presente caso, talvez a história do 'menino que sobreviveu’ torne mais clara a mensagem.

Se alguém não conhece a história, mesmo superficialmente, eu a resumo (não sem antes me perguntar em que mundo vive esse alguém): Harry é um menino órfão, bruxo, embora desconheça essa sua “natureza”, que sobreviveu “milagrosamente” ao atentado que tirou a vida de seus pais. Criado por seus cruéis tios no mundo ‘trouxa’ (normal, não-mágico), foi acostumado desde muito cedo aos maus tratos, a misérias como sobras de roupas do seu primo mimado, e a trabalhar como um escravo. Até os 11 anos, quando se descobre bruxo e é levado da casa dos tios a esse mundo mágico, Harry não teve, além de pais, um quarto, roupas suas, presentes em nenhuma data, amigos, carinho, atenção, nada, nada além do necessário à sobrevivência.

Ainda me doendo por resumir tanto história tão mais rica do que fiz parecer, vou tentar chegar agora ao ponto: colocado diante de situações que exigem uma força emocional que para outros parece absurda, Harry passa por tudo com atitude que beira a naturalidade. Por quê? Simplesmente porque Harry aprendeu a sofrer. Aprendeu a não se importar com críticas, especialmente as injustas, porque aquilo era tudo que ouvira a vida toda. Aprendeu a suportar dores, físicas mesmo, porque fora criado sobre castigos e agressões gratuitas. Aprendeu a alegrar-se mesmo na ausência das pessoas amadas, porque aquelas das quais sentia mais falta nem sequer teve a chance de conhecer.

Ouso dizer que a doença da nossa juventude é não ter aprendido a sofrer. Não seria capaz do absurdo de afirmar que não sofremos, quero dizer que não aprendemos a lidar com isso. Somos jovens a quem tudo abala, a quem palavras duras, ou só a ausência de palavras doces, soa sentença de morte, a quem um abraço menos apertado parece indiferença. Jovens que, não tendo sido obrigados pela necessidade a trabalhar desde os 10, 11, 12 anos como a maioria dos da geração anterior, encaram o trabalho como um martírio comparado ao Calvário ou , não tendo passado grandes necessidades, reclamam do fato de não ter o que se quer pra comer de um jeito tão incisivo que parecem que passam fome. Jovens de quem o sorriso é roubado por muito pouco. Jovens que perdem a motivação para sair da cama de manhã simplesmente porque viver custa um esforço, interior sim, mas semelhante ao esforço exterior a que nos acostumamos poupar graças às facilidades dos últimos tempos. Jovens a quem decepções, profundas ou rasas, podem causar incapacidade para relacionamentos saudáveis. Jovens emocionalmente fracos.

A causa, creio eu, está (como muito tenho observado para diversos problemas) na mediocridade das nossas experiências. Quero dizer, na completa ausência de sofrimento, não seria necessário aprender a sofrer, uma vez que nunca se precisaria passar por sofrimento. Na experiência de sofrimentos severos, aprende-se naturalmente a suportá-los com algum esforço e a suportar sofrimentos menores com facilidade. Na experiência do sofrimento raso, nem temos a sensação do completo bem-estar, nem é espontâneo que sejamos acostumados a lidar com os desconfortos interiores que sentimos e que, com alguma frequência, hão de nos atormentar ao longo da vida, afinal, é impossível passar a vida sem absolutamente nenhuma experiência de sofrimento.

A grandeza de quem sabe sofrer reside também no fato de permanecer íntegro diante das diversas e adversas situações da vida. A mania de quem não sabe sofrer é fazer-se de coitado e com isso desculpar-se de seus erros, de seus defeitos. Aquele que sabe sofrer não faz do seu sofrimento medida dos seus atos, não se permite o egoísmo de praticar o mal em favor de si. E falando em egoísmo, evita-o também de outra maneira, talvez ainda mais nobre: quem aprendeu a sofrer aprendeu também a compadecer-se de quem sofre, quem não aprendeu, ignora o sofrimento dos outros.

Harry é, no fim das contas, apesar de muito sofrer, feliz. Feliz porque aprendeu a não ter um olhar centrado nos seus sofrimentos, mas a olhar em volta e enxergar o que a vida lhe dava de bom. E por tanto sofrer e aprender a valorizar as pequenas alegrias, vai encantando-se, com o perdão do trocadilho, com a magia que vai descobrindo e com a qual as outras crianças bruxas já estavam acostumadas. Ele foi privado a vida toda de todo aquele mundo mágico, elas não. Quero dizer que quem muito sofre, paradoxalmente, aprende a alegrar-se.

Por fim, quero dar nota a um ponto muito curioso que pode dizer muito sobre toda a lógica da aceitação do sofrimento. No mundo bruxo de Harry, as pessoas solucionam problemas da vida com mágica: conserta-se objetos; cura-se feridas; e até para o amor procura-se solução com alguma poção. Mas nunca, em nenhuma parte da história, Harry ou qualquer outro bruxo faz o que muitos de nós “trouxas” (não se ofenda, a não ser que você seja um bruxo) às vezes tentamos: acabar com o sofrimento com um passe de mágica.

Termino com as palavras ditas pelo personagem Alvo Dumbledore em Harry Potter e o Cálice de Fogo:

“Amortecer a dor por algum tempo apenas a tornará pior quando você finalmente a sentir.”

Gustavo Lima
Estudante de Jornalismo / Oficina de Valores

1 comentários:

Anônimo disse...

Gostei bastante do texto, me inspirou a repensar a forma como tenho agido sobre sofrimentos da vida. Você é um ótimo escritor! Parabéns pelo maravilhoso texto!

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