Por: Ângelo Rodrigues






Trabalho e prova, pra quê?

Em nossas vidas fazemos ou ouvimos esta pergunta em uma sala de aula: “Professor, você vai passar prova/trabalho mesmo?” O sentimento consequente desta pergunta é, na maioria das vezes, de insatisfação e traz ainda um peso: coloca barreiras que atrapalham uma abertura maior à proposta de tais atividades. 

O discurso, da maioria das pessoas que tentam justificar essas atividades é: “O sentido da prova é testar seus conhecimentos!” “O sentido do trabalho é aprofundar um tema ou descobrir outro tema!”, coisas que são verdades. Porém, será mesmo que essas avaliações “só” nos remetem a essas afirmações?

Tudo que é feito pelo homem carrega em de si um valor. Muitas vezes, esse valor pode ser esquecido e facilmente trocado por outros, abafando o valor inicial. Uma prova e trabalho podem e devem ser um meio didático para o aprendizado do aluno, mas olhá-los somente nessa ótica é empobrecê-los. Diante disso se chega ao ápice da questão: uma prova e um trabalho trazem a carga de um valor chamado responsabilidade!

Se formos pesquisar em uma fonte como o Dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano, chegaríamos à definição de responsabilidade sendo a “possibilidade de prever os efeitos do próprio comportamento e de corrigi-lo com base em tal previsão.”

A responsabilidade então seria como uma “consciência” que tenta antecipar as variáveis de nossas ações, as consequências de nossos atos, os caminhos que podemos trilhar e os seus resultados ao serem concretizados. Ela tem aquele famoso efeito: “Pensar antes de agir”. Porém, ela pode também ser usada depois de uma ação errada, quando retomamos as possibilidades e revertermos o quadro antigo. Poderíamos dizer: por causa dela nos decidimos a reorganizar as possibilidades visando um caminho novo a seguir, o caminho certo.

Seguindo o caminho mais comum para a grande maioria, a única atividade do adolescente é estudar (principalmente estudantes do Ensino Fundamental e Médio). Podemos pensar que essa é sua “única” responsabilidade. Um dos meios que provam a adesão à essa responsabilidade são essas duas atividades: prova e trabalho. Meios em que além de provar as capacidades intelectuais, testam seus próprios valores, em muito especial, a responsabilidade.

Apesar disso, quem nunca teve a tentação de deixar um trabalho para depois, ou, simplesmente, fazê-lo de qualquer jeito? E aí o que parecia uma simples preguiça e um “não” “temporário”, pode gerar um “não” “contínuo”, um hábito.

Tenho acompanhado os dilemas das pessoas ao meu redor sobre esse assunto e vejo que continuamente a não entrega de um trabalho ou o fazer mal uma prova, não é fruto de não dominar um assunto ou não saber pesquisar um conteúdo; é consequência desses “nãos” contínuos que se tornaram hábito. E, ainda pior, esse hábito transforma-se em um discurso para que o professor tenha a obrigação de ser “compreensivo”, de aceitar passivamente tais irresponsabilidades. E quando há uma discordância de tal, o docente pode tornar-se o “vilão da história”.

Sendo assim, a irresponsabilidade se estabelece como fundamento para justificar tudo, e, até mesmo, um meio comum no ambiente escolar e, acreditem se quiser, até nas universidades; afinal, a irresponsabilidade para com tais atividades se torna uma bola de neve que veio dos acúmulos do não fazer na escola. A essa atitude podemos chamar de “cultura da irresponsabilidade”.

“A cultura da irresponsabilidade” tenta se justificar dizendo que as atividades propostas são desnecessárias, ruins, difíceis, aniquilando assim qualquer tipo de tentativa de assumir os próprios deveres, de demonstrar a importância das escolhas certas para o crescimento do indivíduo, escolhas que o moveriam a decidir não pelo que é mais agradável e sim pelo que seria o melhor para todos, mesmo à base de sacrifícios.

A noção de responsabilidade nos demonstra que ser fiel nas pequenas coisas do dia a dia traz retornos grandiosos no futuro.

Ângelo Rodrigues
Professor de Filosofia/Oficina de Valores

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