Por: Alessandro Garcia

Por que gosto de ser professor?

Há poucos dias, em uma visita à minha mãe, comentei o quanto sou realizado sendo professor. Após dizer isso, ouvi mais ou menos o seguinte comentário: “Que bom meu filho.  As pessoas pensam que professor morre de fome. Quando me perguntam o que você anda fazendo e eu digo que se tornou professor logo dizem: Nossa, ele estudou tanto e virou professor?”

Comentários como esse são muito comuns. Conheço vários colegas professores que dizem a seus filhos que eles podem seguir qualquer carreira, EXCETO o magistério. Longe de julgar tais declarações e dizer que são absurdas, entendo os motivos que levam muitos a pensar assim.  O salário dos docentes é em média menor que o de muitas outras profissões que demandam o mesmo grau de escolaridade. E mesmo o ganho em prestígio é pequeno quando comparado a outras profissões tidas como mais nobres. Entendo tudo isso. Tive mesmo uma grande crise com minha carreira. Alguns dos fatores, embora não os principais, de tal crise estavam ligados às duas situações que mencionei acima.

Para minha alegria, nem todo mundo que comenta sobre minha escolha profissional o faz em tons pejorativos. Faz pouco tempo que ouvi de uma jovem estudante de história a seguinte frase: “Gosto de conversar com você. Você é o único que me anima a ser professora!”. Claro que minha felicidade não veio de eu ser considerado um caso raro, mas de conseguir transmitir para ela um pouco do quanto essa profissão me encanta, do quanto gosto de ser professor e julgo que vale a pena investir nesse caminho. Foi justamente para comunicar um pouco dos motivos que me empolgam na docência que resolvi escrever esse texto.

E então, por que gosto de ser professor?

Gosto de ser professor porque essa profissão permite que eu lide diariamente com duas das “coisas” que mais amo: pessoas e ideias.

É difícil transmitir para quem não leciona o frio na barriga que todo início de ano letivo (ou de semestre, no caso do ensino superior) causa em mim. Entro em uma turma nova e me vejo diante de um universo de possibilidades totalmente inédito. Várias pessoas que nunca vi antes, olhares curiosos e receosos, um punhado de gente com interesses e conhecimentos diferentes dos meus. Claro que esse universo traz seus riscos. Será que vamos nos dar bem? Será que conseguirei tornar o assunto interessante para estas pessoas? Como será que as coisas se darão? Como em toda e qualquer relação existirão tensões, mas a riqueza encontrada sempre supera as expectativas.

Costumo dizer que ser professor faz com que eu rejuvenesça. E rejuvenesço porque tenho constante contato com a juventude em seu estado bruto. Diversas das novidades do mundo contemporâneo são ensinadas a mim por aqueles a quem eu devo ensinar sociologia ou filosofia.  Além disso, eles me rejuvenescem porque neles encontro um brilho que eu desejo nunca perder. Encontro a empolgação de quem olha para vida como quem tem muita vida para gastar. Sou contagiado pelo riso, pela alegria e pela coragem daqueles que ainda não esqueceram que a vida é um mar de possibilidades.

Talvez muitos achem que estou dourando a pílula. Faço questão de interromper o raciocínio para dizer que não estou. Meus alunos me cansam, às vezes irritam, mas com frequência fazem com que eu fique mais jovem.  Por eles sou sempre informado, questionado, apresentado a pontos de vista que eu não alcançaria por mim mesmo. Creio que a sala de aula é mais que um diálogo socrático. Sócrates, com seu método de ensino, fazia com que o discípulo quebrasse suas ideias pré-concebidas e chegasse a uma tese melhor fundamentada. Ele, no entanto, saía do diálogo como entrou. Todo professor que minimamente tem uma abertura aos alunos sabe que relação docente é de mão dupla e que, muitas vezes, é o mestre aquele que sai transformado.

Além do convívio e do diálogo, também me encanta o fato de trabalhar falando de algo que julgo muito interessante.  Não é todo mundo que tem o privilégio de poder falar constantemente de filosofia, sociologia e literatura. Não é todo mundo que dia após dia tem a possibilidade de mostrar a outros como um campo do conhecimento é fascinante. Mais uma vez, é preciso salientar que há frustrações e incompreensões, afinal não é sempre que conseguimos maravilhar o outro com aquilo que nos maravilha. Apesar disso, não consigo deixar de dizer que o saldo é muito positivo e que poucas coisas empolgam e alegram tanto quanto ver alguém descobrir o tesouro que um dia também me encantou.

Alguns parágrafos acima, mencionei que passei por uma forte crise com minha profissão. Antes de encerrar quero explicitar melhor as raízes dessa crise e meu caminho de superação. Fazendo isso creio que meu gosto pelo magistério ficará mais claro. A angústia começou quando comecei a comparar outras atividades com a minha: aqueles que trabalhavam com informática produziam softwares, os engenheiros e arquitetos projetavam casas, os químicos fabricavam remédios, corantes, combustíveis e mais um milhão de coisas. E eu? Eu simplesmente não tinha um produto. A resposta padrão de que todas as outras profissões dependiam do professor não satisfazia. A meus olhos, parecia que eu era apenas parte de uma engrenagem. Não deixava marcas, não me via sendo útil.

Fui fazer outra coisa. Não larguei totalmente a docência, mas reduzi bastante meu tempo em sala de aula. Trabalhei em uma prefeitura na Secretaria de Assistência Social. Um trabalho importante pra caramba, que lida diretamente com aqueles que mais precisam. Além disso, era um trabalho que realizava um sonho de todo e qualquer professor: terminava no fim do expediente. Eu não levava provas para casa, não tinha que preencher pautas e fazer planejamentos. Conseguia dar conta do meu trabalho no tempo que lá estava.  

Bom, sabe o que senti enquanto fazia isso? Saudades. Saudades da vida acadêmica e do ofício de docente. O começo da superação da minha crise não foi um argumento, mas uma espécie de nostalgia, de sensação de que o que eu realmente sabia fazer era outra coisa. Resumindo o trajeto: em menos de um ano eu voltava ao local do qual antes eu ensaiava minha fuga. E voltava muito feliz.

E a utilidade?

Reconheço que descobri que essa talvez não seja a melhor palavra para descrever os frutos do ofício que exerço. Claro que ela existe, e poderia passar alguns parágrafos falando sobre a função social do professor. No entanto, não é a partir desse conceito que tenho me relacionado existencialmente com a docência.  Coloquei no lugar um termo bem simples: valor.

O que faço é valioso. Muito valioso. Valioso porque transforma a outros e me transforma. Valioso porque colabora na trajetória de pessoas que podem ser muito melhores do que eu, mas que, em alguma medida, dependem de mim para desenvolverem suas capacidades. É valioso porque o conhecimento vale mesmo quando não é útil, e muitas vezes só tem sua utilidade descoberta porque alguns o buscaram quando ninguém julgava importante. É valioso justamente porque nessa profissão não fabricamos produtos, mas desencadeamos processos.


Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - UFRJ / Fundador da Oficina de Valores

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