Por: Thales
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Uma coisa que eu nunca quis é ser adulto. Sempre achei essa vida de seriedade muito chata. E sempre me surpreendia quando notava nos meus pais e nos outros adultos à minha volta algumas coisas incompreensíveis. Por exemplo: os adultos não gostam de videogame, de desenho animado, de chocolate. Como isso é possível?! Videogame é a melhor forma de diversão já inventada, sou capaz de jogar por dias seguidos. Desenho animado é muito melhor do que aqueles programas de televisão chatos de adulto. E chocolate? Quando criança minha fome de chocolate era interminável! Só parava de comer quando acabava, quando me obrigavam a parar, ou quando passava mal. Eu nunca entendi como pode alguém perder interesse por essas coisas quando fica mais velho.

Recentemente, porém, eu estava refletindo sobre o fato de fazer um tempo já que eu tenho tido que tomar decisões importantes e impactantes na minha vida. Que carreira seguir? Alugar casa ou comprar? Em que cidade morar? Qual o melhor carro pra minha rotina? Qual o melhor plano de previdência? Por um lado, sinto uma empolgação e penso: “agora a parada ficou séria”. Por outro, dá um frio na barriga constatar que, sem perceber, agora eu vivo uma vida de adulto. Só que, surpreendentemente, eu continuo gostando muito de videogame, de desenho animado, e de chocolate. Então, o que define se eu sou adulto ou não?

Você com certeza conhece alguém que é mais maduro do que os outros de sua idade, e também conhece alguém que às vezes é um pouco imaturo para os anos que tem. Isso quer dizer que ser adulto é muito mais do que ter chegado a uma idade específica. Ser adulto é comportar-se com maturidade. Mas o que é, de modo concreto, esse comportamento? Penso em três pontos principais que definem a maturidade.

1. Fazer com alegria também aquilo de que não gostamos.

Quando nós somos crianças ou adolescentes, nós só fazemos com alegria aquilo que gostamos. Quando somos obrigados a fazer o que não queremos, na hora que não queremos, nós sempre reclamamos, e achamos aquilo um absurdo. Durante um tempo da minha infância, eu detestava arrumar meu quarto. Se ia ficar tudo bagunçado de novo mesmo, pra que gastar tempo com isso se eu podia ficar vendo desenho animado?? Quando meus pais me mandavam arrumar, nas vezes que eu obedecia, obedecia com muita má vontade, como se aquilo fosse uma injustiça. O problema era que eu só queria gastar meu tempo como eu queria, ou seja, com as coisas que eu gostava de fazer. Hoje em dia eu sei que isso é pura imaturidade. Nosso tempo tem que ser gasto para fazer o melhor e o nosso dever, e não simplesmente aquilo que a gente quer.

Eu sempre detestei lavar louça e há uns anos eu não lavava mesmo. Achava muito errado minha mãe insistir pra que eu lavasse, pois ela sabia que eu não gostava. Só que um dia descobri que ela também não gosta e percebi que ajudar minha mãe é um dever. E isso significa precisamente que eu devo fazer, gostando ou não. Aprender a fazer essas coisas com alegria, ou seja, sem reclamações e sem demora, é parte do que significa ser maduro.

2. Nem sempre estamos certos.

Um outro aspecto da imaturidade é a exigência que as coisas aconteçam do “meu jeito”. Convivi e convivo com tanta gente que se sente ofendida por não conseguir que as coisas aconteçam da maneira que querem... É também o mesmo defeito de quem nunca dá o braço a torcer nas discussões. Esse é um dos meus defeitos mais graves e chatos: eu tenho convicção demais na minha opinião e tenho uma grande dificuldade para admitir que estou errado, mesmo com coisas pequenas e bobas. Muitas vezes essa intransigência se disfarça de zelo por fazer “o melhor”, por defender “o mais certo”. Só que isso pode ser, no fundo, mera soberba. Temos que aprender que nosso julgamento não é perfeito. Nossas escolhas podem sim ser falhas. “O jeito” do outro também pode ser bom. E, principalmente, as coisas muitas vezes não acontecem do jeito que a gente quer, gosta ou prevê. Em nossas discussões, muitas vezes chegamos a um ponto em que todos os argumentos já foram colocados e nessa hora alguém tem que ceder. “Que esse alguém seja eu”. Essa é a regra que tenho seguido há algum tempo e acho que agir assim é agir com maturidade.

3. Tem hora pra tudo.

O que as crianças fazem de melhor é se divertir. É muito bom passar horas e horas brincando, jogando videogame, vendo televisão. Por outro lado, a criança e o adolescente tem muita dificuldade de perceber o valor de fazer as coisas que não tem um retorno imediato. Só que a vida de adulto pressupõe exatamente isso. Gastamos a maior parte do nosso tempo com coisas que são importantes justamente por possibilitarem um futuro melhor para nós mesmos e para aqueles que amamos, e na maioria das vezes essas coisas não são tão imediatamente agradáveis. A maturidade, porém, não é só fazer essas coisas chatas e nunca se divertir, como eu pensava quando era criança. Agir com maturidade é perceber que cada hora na nossa vida tem uma atividade apropriada para ser feita. Mesmo com bem menos tempo para isso, eu continuo adorando jogar videogame. O desafio é saber gastar tempo com isso só nas horas certas e não na hora de trabalhar, de estar com os amigos, de estudar...

Esse ponto também se aplica ao modo de nos relacionarmos com os outros. Temos que aprender que tem momentos nos quais certas brincadeiras são inconvenientes, e existem brincadeiras que são inconvenientes em qualquer momento. Saber discernir a hora de parar é ser maduro.

Tenho percebido que a vida de adulto é tudo menos chata. Viver de maneira consciente de nossas responsabilidades e ao mesmo não perder o gosto pelas alegrias de ser jovem é uma grande aventura. Que a nossa vida esteja à altura deste desafio.

Thales Bittencourt
Doutorando em Filosofia – Oficina de Valores

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