Autor: Rodrigo Moco

Não tenho dúvidas de que só reconhecemos verdadeiramente o valor das coisas quando nos deparamos com uma necessidade real delas. Pensemos nisso de modo aplicado a situações recorrentes do cotidiano. Não há nada de excepcional em ir ao banheiro, correto? Pense, porém, naqueles dias em que você está super apertado, dentro do ônibus, um trajeto de 15 minutos parece durar 15 horas e quanto mais se aproxima a casa, mais angustiado você fica e quando enfim chega em casa, não há nada mais atraente e desejado do que o banheiro e a sensação de fazer o que ninguém pode fazer por você ali, é a mais revigorante do planeta.

Nesse caso descrevi uma necessidade fisiológica que torna algo tão corriqueiro em um evento carregado de expectativas. Assim sempre será tudo - pense no seu primeiro salário, primeiro beijo, primeiro dia de aula, a experiência de comer após um longo tempo em jejum. Todas essas situações convergem para uma mesma realidade, representam um contexto no qual a ausência de algo nos faz perceber o quão extraordinárias são as coisas simples. Acontece que, cada vez mais, temos acesso a mais coisas, daí a tendência que temos é a de fazer o inverso: tornar simples o que é extraordinário. Foi em uma dessas que caí do cavalo, ou melhor... da moto!

Sempre gostei de motocicletas, desde criancinha. Meus dois tios mais próximos sempre andaram de moto, sendo um deles atualmente dono de uma empresa de motoboys, além de ter trabalhado nessa função durante uns 15 anos. Sempre admirei os mais diversos modelos, desde as populares de pequeno porte até as superesportivas, naipe de Valentino Rossi e as famosas “estradeiras”, Harley Davison e similares. Aos 18 anos tirei minha habilitação e desde então piloto com grande frequência. Ao longo desse período de quase 7 anos até aqui, só havia sofrido uma pequena queda. Há duas semanas, com grande esforço, adquiri uma moto nova! Fiquei muito empolgado, uma esportiva de porte médio.

Aos poucos vinha me acostumando à moto e me encantando com a leveza da pilotagem e a sua potência. Considero-me um bom piloto e pouco temo as quedas, não sou imprudente, mas também não sou medroso, gosto de moto e sempre me garanti. Há pouco tempo vivi uma experiência que me impactou. Voltava para casa já durante a noite, quando passei por uma rua escura, sem iluminação pública; o que não pude imaginar é que justamente no meio de uma curva havia muita terra no chão, foi aí que a moto ficou totalmente instável e em uma fração de segundo, a única coisa que pensei foi: “já era, fui para o chão!”. Como disse anteriormente, não sou imprudente, isso amenizou a queda que não foi grave (graças a Deus!). Levantei com o joelho ralado, a calça (gostava dela) um pouco rasgada e um incômodo no braço, ergui a moto rapidamente, a coitada ficou com o tanque amassado, sem uma das pedaleiras e sofreu escoriações. Dói no coração, só de pensar nos gastos da reforma, sem falar na autoestima abalada pela queda boba.

Liguei para a minha namorada e alguns amigos que estavam por perto de carro, inclusive iríamos nos encontrar. Eles chegaram, deram um suporte bacana e tudo se resolveu ali naquele primeiro momento. Inconformado com o que tinha acontecido, reclamava com a minha namorada o fato de eu ter passado 6 anos sem uma queda significativa e há duas semanas com a moto nova ter tomado esse prejuízo. Ela, que com muito cuidado me acompanhou o tempo inteiro, falou com certa frieza, mas sem nenhuma indiferença, que era pra eu tentar tirar algo de bom do que havia acontecido.

Ouvi e acolhi. Daquele momento em diante, percebi quanta coisa eu estava ignorando: caí da moto e não tive nenhuma contusão grave; minha namorada providencialmente optou por ir de carro e não na moto comigo (ela foi privada da queda, e dizem que o carona sempre sofre mais); percebi o quanto meus amigos foram solícitos e comprometidos comigo; e acima de tudo, pude perceber que nem a moto, por mais que tenha beleza e potência, nem eu, com minhas habilidades, pudemos fazer nada perante a um pequeno aglomerado de terra no chão de uma rua escura.

Acho que no fundo, a constatação da nossa pequenez perante a vida é o que nos faz perceber o quanto ela é valiosa (texto da Nathalia), e quando percebemos o quanto a vida é valiosa, recobramos o foco para o que é essencial. Sem dúvidas, a maior dor que senti nesse acontecimento foi no bolso. Ainda nem sei quanto terei que gastar, mas só de olhar para os sinais do pequeno estrago na moto me sinto mal. Gastarei um dinheiro que não tenho para gastar, mas isso tem me feito pensar em como tenho administrado as minhas finanças. Será que não tenho porque passo por dificuldades financeiras, ou porque geralmente gasto mal o meu dinheiro? Não tenho dúvidas de que é a segunda alternativa. Será que eu não estava tendendo a me apegar aos bens materiais? Creio que sim também. Embora eu não seja imprudente, será que não estava exagerando na autoconfiança ao pilotar? Sem dúvidas!

A queda, qualquer queda, exige que olhemos para dentro. Seja para reunir forças para levantar, seja para remoer os motivos que nos levaram para o chão sem forças para sair do lugar. A diferença entre uma possibilidade e outra reside na nossa capacidade de lidar com as próprias limitações. Deparar-se com elas é sempre difícil, primeiro porque é duro admitir que erramos e também porque muitas e muitas vezes não conseguiremos fazer o que gostaríamos. Mas a verdade é sempre libertadora. Reconhecendo-os ou não, nossos limites existem. Quando não os reconhecemos, somos escravos deles inconscientemente; quando os reconhecemos e não aceitamos, somos escravos deles conscientemente. Somente quando os reconhecemos, aceitamos e lutamos contra eles é que somos verdadeiramente livres, conscientes e responsáveis!

Cair é doloroso sim... Mas levantar, amigos, é muito bom! Vida que segue, porque ainda que tudo leve a crer que não, o melhor ainda está por vir!

Rodrigo Moco
Psicólogo - Coordenador da Oficina de Valores

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