Por: Fernando


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Sorria, mesmo se não estiver sendo filmado

Ainda que deles não tenhamos total conhecimento, intuímos que devam existir inúmeros estudos, pesquisas e teorias sobre a tristeza, a depressão, a melancolia e coisas tais. Nos surpreenderíamos com a quantidade de estudos que também existem sobre a alegria, o riso, o humor. E, já que os escritores do nosso querido blog da oficina escreveram tantas coisas sobre as mais variadas virtudes e situações para uma boa vida individual e social, não chega em boa hora também uma reflexão sobre a importância do humor, do riso e do risível?

É sabido até pelas pedras, que uma pessoa bem-humorada tem mais chances de ser bem-sucedida social e profissionalmente. Quando nós reconhecemos a alegria e o bom humor numa pessoa, dela queremos ficar sempre por perto, convidá-la para sair, tê-la numa roda de conversa. Por outro lado, de uma pessoa mal-humorada, sempre reclamona da vida, a gente instintivamente procura se afastar, como se fosse uma pessoa doente.

Sabemos que o bom humor e a alegria abrem portas, vitaminam as outras virtudes e são ingredientes que ajudam muito todas as nossas relações amorosas, afetivas, profissionais... se uma pessoa é constante e excessivamente séria, tem algo de angustiante e que nos inquieta. Tem algo que nos faz pensar se não se trata de uma pessoa cheia de si, demais arrogante e de pouca humildade. A seriedade excessiva numa pessoa demostra uma certa carência de doçura, de amabilidade e de misericórdia. O bom humor, o riso, ao contrário, são uma manifestação de generosidade: "sorrir daquilo que amamos é amá-lo duas vezes mais" (COMTE, André).

É ridículo levar-se demasiadamente à sério. Compreendo que, com a quantidade de sofrimento com que somos confrontados todos os dias, seja na internet, na TV, ou mesmo na esquina mais próxima quando encontramos uma pessoa necessitada de alguma ajuda, todas essas coisas possam endurecer nosso olhar para o mundo e vamos perdendo os motivos para sorrir, porque sorrir demais pode denunciar certa insensibilidade com a gravidade dos problemas que nos cercam. Mas é muito importante que não nos deixemos contaminar: a pessoa que costuma sorrir com frequência não é uma pessoa que deixou de pensar no sofrimento dos outros, ou deixou de olhar os problemas do mundo: "Eu não imaginava que rir me dispensasse de pensar, mas que rir (...) me levaria mais longe do que o pensamento" (BATAILLE).

A brevidade desse texto não permite que se possa ater-se nas interpretações das terminologias, de modo que não devo me estender nas distinções que podem existir entre humor, comédia, piada, sátira, ironia, brincadeira, nonsense, palhaçada, humor negro, ridículo... então coloco tudo na mesma panela. E é nesse ponto que as coisas começam a ficar sérias, nesse texto sobre humor. Óbvio que possuir bom humor não é uma característica que necessariamente torna você uma pessoa boa, já que tanto uma pessoa canalha quanto um herói podem ser bem-humorados, fato que aliás pode ser conferido em boa parte das virtudes.

Cabe nesse texto apenas uma brevíssima distinção entre duas terminologias que separam o "riso bom" do "riso mal", digamos assim. A distinção que deve ser feita sobre o que é risível. Risível, evidentemente, é aquilo do que a gente ri. É nesse ponto que se recomenda alguns cuidados. Porque aquilo que chamamos de ironia, ou humor negro, zombaria, pode ser engraçado, mas também pode ser uma arma contra outra pessoa. A ironia, ou a zombaria, é o tipo de riso que pode machucar de verdade. É preciso cuidado, sensatez para ser irônico. Eu já me vi em muitas enrascadas por ser usar desse tipo de humor, zombar na hora errada, com pessoa errada. Aprendi a evitar tais ironias. Podemos fazer graça sobre todas as coisas: sobre o fracasso, sobre a guerra, sobre a morte, sobre uma doença. Mas é necessário que essa graça que fazemos, esse riso que trazemos, possa contribuir com alegria e leveza sobre esses infortúnios e misérias. E não mais ódio e sofrimento do que o que já existem nelas.

Muitos pensadores se preocuparam com a verdade que existe no riso. De modo en passant, Freud, por exemplo, fez um estudo que bem pode ser considerado a sua teoria do riso: "O chiste e sua relação com o inconsciente". Em termos gerais, a tese consiste em dizer que o processo da brincadeira, do chiste, se assemelha ao processo do sonho. Nietzsche, em Além do Bem e do Mal, chega a propor que se categorize os filósofos de acordo com seus risos, numa escala que chegaria até aqueles que seriam capazes de "gargalhadas de ouro" como as dos deuses. "Que seja tida por nós como falsa toda verdade que não acolheu nenhuma gargalhada", escreveu Nietzche em Zaratrusta.

O riso pode provocar alívio psíquico, na risada há uma involuntária traição com o pensamento sério, mas que não pode excluir a possibilidade de sentir compaixão. É uma espécie de "curto circuito" que faz bem a todo  o sistema.

Mas chega desses pensadores. Coisa muito triste pensar o riso com seriedade. Esses pensadores só são ridiculamente apresentados para que se tenha noção de que o humor e o riso é coisa que deve ser levada a sério. Do tipo de coisa que pode mudar o mundo.

A tradição coloca em oposição o riso de Demócrito que morreu gordo e - numas das suposições - com 109 anos, com às lágrimas de Heráclito que morreu magro aos 60. Curioso que convencionou-se pensar nas pessoas muito magras como pessoas sérias e as gordas como mais alegres e risonhas. Mas isso é assunto que deixo para pensarem. Sobre esses dois filósofos, lembremos Montaigne ao falar sobre eles: "foram dois filósofos, o primeiro dos quais, achando vã e ridícula a condição humana, só saía em público com semblante zombeteiro e risonho; Heráclito, sentindo piedade e compaixão por essa mesma condição nossa, trazia o semblante continuamente entristecido, e os olhos carregados de lágrimas".

Na vida encontramos motivos para rir e para chorar. Não podemos ser indiferentes ao sofrimento. Por isso Heráclito nos ensina muito. No entanto, o choro pelo choro pode ser desespero e este por si mesmo não melhora nada. Nesse momento, a lição de Demócrito se coloca. Nem tudo é um grande drama. Há ridículo e comédia na vida, há também alegria e festa. Esquecer-se disso significa trancar-se numa escuridão que impede que vejamos bem a nós mesmos e aos outros. Lembrar e viver essa verdade faz com que a vida seja melhor tanto para aquele que sorri quanto para o que chora. Talvez Heráclito chorasse um pouco menos se tivesse um amigo como Demócrito...


Fernando Duarte
Professor de História / Oficina de Valores

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