Por: Fernando
Sob Condições de tirania, é muito mais fácil agir do que pensar. Hannah Arendt 


Em 1961, a filósofa alemã Hannah Arendt pediu à revista americana "The New Yorker" que a enviasse como correspondente para acompanhar o Julgamento de Adolf Eichmann em Israel.


Um breve esclarecimento sobre quem foi Adolf Eichmann para quem não sabe de quem se trata: Eichmann foi um burocrata nazista durante a segunda guerra mundial. Tinha a incumbência de ir aos territórios ocupados pelos nazistas e enviar os judeus para os campos de concentração. 

Com a derrota da Alemanha, Eichmann conseguiu fugir para Argentina, arrumou um outro nome e passou a viver escondido. Até que a polícia secreta Israelense, o Mossad, numa operação audaciosa sem o consentimento do governo argentino, capturou Eichmann e o levou para Jerusalém onde ele foi julgado. 

Com os devidos esclarecimentos, voltemos agora ao julgamento. 

David Ben-Gurion, primeiro ministro de Israel, tentou fazer desse julgamento um espetáculo para o mundo, onde os judeus teriam a chance de finalmente julgar um dos monstros responsáveis pelo holocausto. O procurador geral Gideon Hausner, praticamente porta voz de Ben-Gurion, fez de tudo para seguir as ordens de seu governante e tentou construir a imagem do acusado como um vil e perverso psicopata: deveria ser reconhecida na pessoa de Adolf Eichmann e nos seus atos toda a monstruosidade doentia perpetrada por aqueles que colaboraram com o holocausto. 

Mas não foi um monstro que Hannah Arendt descobriu em Eichmann ao longo do julgamento. 

Enquanto o julgamento se desenrolava, Hannah Arendt se reportava para a New Yorker em uma série de artigos que ao final resultou em um livro que causou muita polêmica: "Eichmann em Jerusalém. Um relato sobre a Banalidade do Mal", publicado em 1963. Esse livro se tornou uma referência para quem deseja estudar a natureza do mal, de modo que hoje é difícil encontrar algum trabalho sobre esse tema que não o cite.

Hannah Arendt, ao estudar o caso de Eichmann, percebeu que ele não era esse monstro, nem o psicopata, nem o perverso como queriam construir no julgamento. Mas que Eichmamn era indivíduo comum, medíocre, pateticamente normal. Pagava suas contas em dia, executava com eficiência as ordens que recebia na sua função, pois na Alemanha nazista, as ordens de Hitler tinham força de lei. Dentro do contexto nazista, Eichmann era um cidadão exemplar e pelos seus atos sua perícia recebeu muitas condecorações. Não era antissemita, não nutria nenhum ódio particular contra os judeus, tendo inclusive recebido ajuda de uma família judia para arrumar seu primeiro emprego, bem antes de ingressar no partido nazista e posteriormente na Schutzstaffel (SS). 

Meia dúzia de psiquiatras examinaram Eichmann na prisão e não encontraram nenhuma psicopatia, atestaram a sua "normalidade". "Pelo menos, mais normal do que eu fiquei depois de examiná-lo", teria dito um dos psiquiatras. Embora tenha se declarado um gottglaubiger - termo nazista para aqueles que renunciavam ou não aceitavam o cristianismo - foi visitado por um padre na cadeia e este também não teve nenhuma impressão de "anormalidade". 

Então como explicar que um sujeito considerado "normal", como Adolf Eichmann, pudesse ter enviado tantos judeus para os campos de concentração? Como explicar que uma pessoa normal pudesse ter enviado tantas pessoas para a morte? 

Hannah Arendt percebe rápido que Eichmann era uma pessoa muito superficial. Era um homem cheio de clichês e frases feitas, dizia coisas sem nexo e quase nunca dizia nada que fosse pensamento próprio. Os juízes pensavam que essa aparente "mente vazia" de Eichmann fosse uma manobra para não responde-los, mas Arendt percebeu que não era isso. Eichmann era "vazio" e superficial mesmo. 

Para Hannah Arendt, a superficialidade daquele homem teria sido impedimento para que ele conseguisse pensar. Arendt, fundamentada nos filósofos da antiguidade, define o pensamento como a capacidade que nós temos de conversar com uma voz interna. Para esta filósofa, ao ser superficial e não ter a capacidade de conversar com essa outra voz e de se interrogar, Eichmann passou a ouvir a voz do sistema totalitarista do regime nazista. 

Hannah Arendt defende que embora exista radicalismo na maldade, a maldade é, em si, superficial. A bondade, por seu lado, exige profundidade. É preciso ser muito profundo para ser uma pessoa boa, é preciso ter sempre a capacidade de conversar com a outra voz interna. No sentido arendtiniano, está entre os atributos do hábito de se interrogar e de pensar, em sua natureza intrínseca, a possibilidade de evitar que se faça o mal. 

Eichmann deixou de pensar, deixou de interrogar a si próprio, não conversava com aquela outra voz interna e assimilou com muita facilidade as determinações do regime nazista, que sendo totalitarista, carrega consigo mecanismos para convencer as pessoas de que existe algo que deve pensar por elas. Por ser um sujeito superficial, Eichmann facilmente assimilou o que o sistema colocava. É nesse sentido que Hannah Arendt cunha a expressão "banalidade do mal", embora o termo não apareça mais do que duas vezes ao longo do livro.
A expressão "banalidade" surgiu na Idade Média. Ela se referia a coisas que os vassalos faziam para o senhor feudal, atividades como buscar água no poço, cozinhar o pão. Coisas sem muita importância, que o indivíduo nem se dava conta, mas que não contribuíam para que o indivíduo refletisse sobre questões maiores ao longo da sua vida. 

No terceiro Reich, o mal infligido aos judeus se tornou uma banalidade. Mas um mal, como esse, necessita de pessoas superficiais, que deixem de pensar por si próprias para fincar raízes. 

Podemos nos questionar se o que aconteceu com Eichmann aconteceria conosco nos dias de hoje. Aliás, podemos nos questionar se já não assimilamos o mal com facilidade. Afinal, muita maldade acontece no mundo o tempo todo. Assassinatos, guerras, fome, doenças, medos, injustiças... 

Será que não estamos assimilando e sendo assimilados por tudo sem grandes questionamentos? Será que estamos nos interrogando? É triste ver como muitos pedem pena de morte, aborto, diminuição de maioridade penal com uma facilidade que causa espanto. 

Será que estamos sendo profundos o bastante? Estamos nos questionando? Não estamos envolvidos em banalidades? Ou será que ainda não somos como Eichmann apenas porque ainda não encontramos a voz de um sistema que pretende pensar pela gente? Ou será que essa voz já surte efeito, mas no lugar de um sistema totalitário, como foi no caso Eichmann, o que nos "imbeciliza" dessa vez é a generalização das banalidades que nos envolvem? 

Para Hannah Arendt, o desumano se esconde em cada um de nós. Continuar a pensar e interrogar a si próprio e não sermos superficiais é a única condição para não sermos tragados por esse mal. 


Fernando Duarte Rosenkranz

Prof. de História / Oficina de Valores

1 comentários:

Vanessa Raeder disse...

Todos nós temos um pouco de maldade... Não somos completamente anjos ou completamente demônios.
Só o amor pode adormecer a maldade que habita em nossa alma.

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