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Por: Thales

Imagem: cristão é crucificado na Síria em 2014.


O sofrimento humano, quando causado pela humilhação e discriminação de orientação sexual, é uma imensa injustiça. Ocorreram e ocorrem, em nossa sociedade, grandes absurdos contra aqueles que se declaram homossexuais. De modo mais velado, mas não menos pernicioso, há preconceitos e discriminações por toda parte contra aqueles que se comportam de um determinado jeito, o “jeito de homossexual”. As relações homossexuais já foram (e em alguns lugares ainda são) consideradas crimes, passíveis de horrendas punições. Desvios desumanos na educação de jovens homossexuais já foram tolerados, e até a morte de pessoas já foi justificada pelo fato delas terem relações homossexuais. Sem entrar no mérito da discussão sobre a moralidade ou não da prática homossexual, ou da sua compatibilidade com a fé cristã, não tenho medo de dizer: fazer um homossexual sofrer, só porque ele é homossexual, é moralmente errado, e é incompatível com a fé cristã. Confesso que sinto uma profunda tristeza quando recordo que partes da minha Igreja, a Igreja de Cristo, já legitimaram esse tipo de ofensa.

O que se vê em manifestações como a do último domingo na Parada do Orgulho Gay, em São Paulo, é que a violência continua. A dor de ser discriminado por algo tão íntimo como a afetividade, é certamente enorme. E eu entendo quando esta dor motiva o desejo por retribuição, por vingança. Se os cristãos humilharam e humilham os homossexuais, então é talvez natural esperar que esses que são humilhados queiram dar o troco.

O problema é que este tipo de situação em nada contribui para que a sociedade e as comunidades religiosas mudem suas atitudes discriminatórias. O que de fato ocorre é um ciclo de violência que se retro-alimenta.  No meio desta manifestação, que não é símbolo apenas da luta por respeito, são mostradas e incentivadas, também, com destaque e holofotes, a extravagância, a irreverência, e até a promiscuidade, comportamentos contrários à moral cristã. Neste contexto, utilizar uma imagem tão forte para o cristianismo, como a crucificação de Cristo, inevitavelmente vai vincular todo o movimento a uma atitude de desrespeito, um certo sarcasmo violento, direcionada aos cristãos.

Manifestantes vestidos com roupas que satirizam a vestimenta litúrgica. Imagens que escarnecem dos símbolos religiosos como a cruz, as imagens, e até o mais poderoso símbolo da fé católica, a eucaristia (e que para os católicos não é apenas símbolo). Pessoas que fazem relações sexuais em público. Enfim, propaga-se uma onda de ódio que sem dúvida nenhuma vai ofender, machucar e fazer sofrer aqueles que crêem na sacralidade destas coisas. Ofender certamente não é o objetivo declarado da manifestação. Mas com certeza é um efeito razoavelmente esperado. E ofender alguém em algo tão íntimo como sua convicção religiosa certamente não é algo aceitável e, sem entrar no mérito da verdade da religião cristã, fazer um cristão sofrer, só porque ele é cristão, é moralmente errado, e incompatível com os ideais de amor e respeito mútuo defendidos pelos homossexuais.

“Representa a dor que sentimos”. Foi o que disse a transexual que encenou como crucificada, referindo-se ao ato de imitar a crucificação de Cristo durante a parada gay. Se eu pudesse responder pessoalmente a ela sobre esta afirmação, diria que meu coração estaria repleto de alegria se ela entendesse e vivesse o que ela acaba de afirmar. Nesta frase está escondida uma profunda e radical verdade: Jesus Cristo, em sua cruz, não só representa a dor dos homossexuais, ele assume esta dor. A cruz de Cristo toma para si todas as dores humanas. Com toda convicção eu digo isto: Cristo quer também sofrer na cruz pelos abusos e sofrimentos que são brutalmente e covardemente causados aos homossexuais de hoje e de sempre! Esta cruz não alivia simplesmente a dor. Ela é muito mais poderosa que isso. A cruz de Cristo tem o misterioso poder de encher a nossa dor de sentido!

A cruz, porém, não pode ser transfigurada e transformada em um mero símbolo de revolta. Só há uma única e verdadeira cruz: aquela que suspendeu Jesus de Nazaré há mais de dois mil anos. Esta é a cruz que pregamos. Minha alegria seria se aquela jovem transexual não produzisse uma cruz e meramente encenasse uma crucificação, mas sim olhasse para a cruz de Cristo e quisesse fazer dela a sua cruz. Ele certamente quer assumir como sua a cruz de cada um de nós. Sofreu e morreu para nos provar isto.

E nós, cristãos? O que devemos fazer diante dessas manifestações que nos fazem sofrer? Assumir a cruz de Cristo. Sofrer com Cristo e lançar sobre ele todas as nossas preocupações. Temos que responder àqueles que usam a cruz para escandalizar com o verdadeiro escândalo da cruz na qual Deus morreu. Que sejamos nós a por fim a este ciclo de ódio! Que a nossa resposta seja a resposta do amor! E que, de uma vez por todas, possamos expulsar o amor do mero discurso para que ele se torne vida! Que nós amemos estes que nos fazem sofrer, que amemos estes tão sedentos por amor. E que este amor seja expressado em gestos, orações, sacrifícios... e também palavras. Certamente nos é exigido uma resposta a esta situação. Não podemos ficar calados. Mas também quando não estivermos em silêncio, que nosso coração transborde amor, e não ódio. Afinal de contas, é do que o coração transborda que as nossas palavras estão cheias. Cristo, em sua cruz, amou aqueles que o perseguiam, e amou até o fim. Que nós saibamos imitá-lo sem medo, certos de que a verdade prevalecerá, que Cristo vencerá o mundo… certos de que, na verdade e na cruz, ele já venceu.


Thales Bittencourt
Doutorando em Filosofia - Oficina de Valores

3 comentários:

R A disse...

Nossa! Ótimo texto! Que profunda a sua reflexão e cristã! Parabéns e vou compartilhar!

Gabriele Santos disse...

Muito bom o texto! Parabéns :)

Antônio Souza - Pv. 19, 21 disse...

Recomendo o vídeo intitulado “O DIA DO BARULHO GAY” – PARADA GAY 2015 – ACRÓSTICO – Antônio Souza Pv. 19, 21. www.youtube.com/watch?v=ccFRnicdN8c

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