Por: Larissa

Imagem: divulgação

O médico amigo

Ouvi uma piada uma vez: “Um homem vai ao médico, diz que está deprimido. Diz que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador onde o que se anuncia é vago e incerto. O médico diz: ‘O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade, assista ao espetáculo. Isso deve animá-lo’. O homem se desfaz em lágrimas e diz: “Mas, doutor...Eu sou o Pagliacci’’.

Isso não é bem uma piada, mas uma fatal realidade. Às vezes me pego pensando em quantos Pagliacci existem por aí, em quantos fazem o mundo sorrir quando na verdade choram por dentro. É aquela frase: "Quem conhece um sorriso de verdade, sabe que nem todo palhaço é feliz’’. Essa história do Pagliacci e esta última frase, eu retirei de um texto do Yuri, que, diga-se de passagem, me marcou muito. Achei válido escrever sobre o tema, já que fiquei pensando nele por alguns dias.

A felicidade sempre foi algo muito ansiado pela alma humana, e a sua busca às vezes se torna motivo de tombos pelo caminho. Mas o que me chamou a atenção nisso tudo foi sem dúvida o nosso amigo Pagliacci. Se até o médico não soube ver por trás da máscara, quem veria então? Ele fazia milhões sorrirem e nem uma pessoa (apenas UMA) foi capaz de perceber que o ‘’palhaço’’ precisava chorar. É triste e irônico o fato de possuir o reconhecimento do mundo e, ao mesmo tempo, não se reconhecer. Fico pensando em como um cara desses, consegue, mesmo sabendo de sua infelicidade, colocar uma roupa colorida junto de um nariz engraçado e sorrir para fora enquanto chora por dentro. Não parece muito lógico ou saudável. Mas de qualquer maneira, eu o admiro por não usar de seu problema como forma de arrancar a pena das pessoas e principalmente, por ele não sentir pena de si mesmo e ir à luta.

Falando nesse universo de palhaço, como não mencionar o inesquecível e amável "Patch Adams" (Robin Willians), que nos ensinou tanto sobre a alegria em seus filmes. O suicídio dele foi mais uma prova de que nem sempre o que se mostra é o real. O que não deixa de ser compreensível. Nós, muita vezes, aparentamos uma coisa e sentimos outra, falamos uma coisa e pensamos outra.

Isso se deve ao fato de nossa sociedade estar se tornando algo robotizado e imediatista, onde aparentar qualquer tipo de falha na aparência, na segurança e em outros quesitos pessoais se torne falta eliminatória para quase tudo que fazemos. Somos treinados para mostrar sempre o nosso MELHOR, sempre com a MELHOR roupa, a MELHOR aparência... Concordo que seja importante saber se portar diante das situações e dificuldades impostas pela vida. Não apenas mostrar o nosso melhor, mas dar o nosso melhor em tudo que fazemos é sem dúvida motivo de atenção aos olhos de quem recebe essa ação. Mas, gostaria de voltar ao ponto central do texto: o Pagliacci. Bom, porque o próprio médico recomendou o espetáculo como remédio, se deduz que o show deva ser maravilhoso e engraçado. Daquele tipo de apresentação que não deixa a desejar. Daquele tipo de bilheteria esgotada e crianças e adultos saindo satisfeitas e felizes. As roupas devem ser escolhidas a dedo e a maquiagem deve demorar horas, de tão perfeita. Os truques e piadas devem ser de tirar o chapéu. Isso com certeza é ótimo. Um bom profissional se destaca por onde passa. Mas continuo não entendendo algumas coisas: Se o palhaço Pagliacci é tão bom e faz todos gostarem de seu trabalho, por que ele chorou quando escutou do médico que o remédio para sua tristeza era, nada mais nada menos do que ele mesmo? Por que suas piadas e sua alegria funcionavam tão bem para o mundo e não funcionava para ele? Por que sua aparência exterior era impecável quando na verdade seu interior estava em cacos? E a última pergunta não menos importante: por que será que eu, e talvez você que esteja lendo esse texto, se identifique e talvez até se sinta como o nosso amigo, em outras áreas de nossa vida?

Porque às vezes, nessa correria toda, no meio de tantas situações, informações, robotizações, impressões, multidões e tudo que nos cerca, acabamos perdendo o essencial. Perdemos a razão e o sentido. Razão de acreditar e sentido pra viver aquilo em que se acredita. Às vezes vemos tudo, mas não enxergamos absolutamente nada. Talvez um médico possa realmente ajudar. Mas a maior ajuda que podemos receber é de nós mesmos. Porque só quem sente sabe o tamanho do sentimento, seja ele bom ou ruim. Só quem chora sabe o peso da lágrima, seja ela boa ou ruim.

Enfim, escrevi tudo isso para concluir duas coisas: a primeira é que palhaços não possuem a obrigação de serem felizes. São como qualquer pessoa (tirando o incrível dom que possuem); e a segunda é que no fundo somos todos "palhaços" de nós mesmos. De nossas emoções, sentimentos, pensamentos, sonhos e tudo ligado ao nosso ser. Parece que já nascemos sabendo realizar truques. Às vezes fazemos palhaçadas para alegrar os outros e quando sozinhos (ou com o médico) choramos. Todos nós, antes de dormir, quando tiramos a ‘’maquiagem’’ imposta pela sociedade, encontramos na maioria das vezes um estranho no espelho. Um estranho que só pode ser reconhecido e melhorado através dele próprio. De qualquer forma, torço para que um dia Pagliacci possa ser feliz com ou sem multidões o assistindo, com ou sem uma maquiagem e algumas piadas. Mas, também torço para que cada um de nós descubra a razão de acreditar em algo e de sentir esse algo verdadeiramente. Torço para que possamos enxergar além do que vemos. E que possamos ter a sensibilidade de diferenciar um sorriso de uma lágrima. Pois muitos conseguem sorrir com os olhos e chorar com um sorriso. Muitos são como Pagliacci e pedem ajuda neste exato momento. E se algum deles vier até mim ou até você, que possamos ter a percepção de um médico mas a simplicidade de um amigo. A receita para a melhora mais o remédio para a cura. E esse remédio na maioria das vezes não é um comprimido.
Larissa Eira
Estudante/Oficina de Valores

1 comentários:

Andrea Ferreira disse...

Muito bom o texto ,valeu a pena ler .
Que eu tenha a percepção de um médico,mas a simplicidade de um amigo...

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