Por: Alessandro
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O Decepcionante Jesus Cristo

Alguns dizem que Ele era de esquerda. Outros, que era de direita. Alguns O enxergam como revolucionário. Há também aqueles que afirmam que Ele não estava interessado em política, mas apenas na salvação das almas. Não é incomum que os pacifistas mencionem a vez em que Ele disse que devíamos oferecer a outra face. A estes se opõem os que fazem questão de lembrar sua fala que relaciona o céu com os violentos e a vez em que expulsou a chicotadas alguns camelôs que faziam algazarra no Templo de Jerusalém.

É impossível não recordar também a discussão entre tradicionalistas e progressistas. Se uns fazem questão de salientar o quanto o mundo moderno se afasta dele, os outros, mais modernos, bradam que quem está afastado, tanto dele quanto do mundo, são os tradicionalistas.

Chega a ser assombroso como os mais diversos partidos conseguem enxergar sua bandeira como contida na vida ou na doutrina do galileu que há dois mil anos foi crucificado. Vegetarianos, amantes dos animais, ambientalistas, socialistas, capitalistas, conservadores, modernizadores, espiritualistas, materialistas, jogadores de futebol e comentaristas de TV… Todo mundo, ou quase todo mundo, enxerga em Jesus Cristo um correligionário. O maior deles, talvez! Aquele que melhor encarnou a bandeira que hoje é por eles defendida. Aquele que fez isso 2000 anos antes de qualquer um!

Sendo sincero, quando alguém diz que seus adversários agem de maneira diferente da de Jesus, creio que fala uma grande verdade. Só não expressa a verdade completa porque normalmente não se inclui no bando daqueles que são diferentes do nazareno. Não inclui a própria ideologia no bojo daquelas que seriam criticadas por Ele. Não se inclui entre aqueles que ficariam muito incomodados com sua mensagem.

Tenho uma teoria que provavelmente não vai agradar a muitos: julgo Jesus Cristo a maior decepção da história humana. Decepcionou os que viveram em seu tempo e decepcionaria a todos nós caso convivesse conosco.  Eu assumo que a mim, Ele decepciona.

Decepcionaria direita e esquerda ao dizer que seu Reino não pertence a esse mundo. Aos primeiros, decepcionaria porque provavelmente não se importaria que os menos favorecidos fossem “privilegiados” nas políticas públicas. Aos que estão no lado oposto do espectro político decepcionaria por defender uma moral mais tradicional do que aquela que julgam que Ele defendia e por não julgar que todas as religiões sejam iguais.

Aos tradicionalistas ele decepcionaria por causa de suas releituras inusitadas das tradições judaicas e por dizer que muitos costumes arraigados negam princípios maiores que aqueles que julgam defender. Deixaria chateados os progressistas pelo fato de dizer que não veio abolir o que antes foi dito, mas dar pleno cumprimento.

Se a lista continuasse, não seria difícil elencar motivos e mais motivos para grandes decepções. Quem coloca Jesus em um partido ideológico, só o faz quando mutila a figura que afirma admirar. Se as fontes tradicionais forem consultadas com mais afinco, e a profundidade de suas paradoxais declarações forem realmente ponderadas, ficará fácil deduzir que muitos dos que O elogiam, seriam os primeiros a expulsá-Lo de seu círculo de amizades ou de sua roda de interesses.

Boa parte dos que gostam de Jesus não gostam de alguém que conheceram ou ao menos estudaram, mas de alguém que fabricaram. No fundo, admiram uma figura que julgam confirmar suas opiniões.  Uma figura que sacraliza suas posições.

Não há como aproximar-se dele sem decepcionar-se com Ele. Talvez este seja um dos fatos mais incontestáveis sobre Jesus de Nazaré.

Quem não se decepcionou com Ele, não se deixou questionar por Ele.  Colocá-lo nas caixinhas ideológicas que temos à disposição é a maneira mais fácil de fingir que conhecemos alguém de quem mal sabemos o nome. E isso vale tanto para ateus quanto para cristãos. Não é difícil encontrar aqueles que O criticam por algo que Ele não disse ou fez. Também não é incomum encontrar, entre os que acreditam, aqueles que creem em alguém que não existiu, mas que é uma mera paródia, ou uma caricatura, daquele em quem dizem crer.

Não pretendo incorrer no erro que denuncio e dizer que O entendo plenamente. Que onde todos erram, eu acerto. Não… Também eu sou um decepcionado. Se não o fosse, isso significaria que fiz com que Ele coubesse na minha medida, que sua mensagem fosse circunscrita às minhas certezas.  

Sou um decepcionado com Cristo. Dia após dia, ano após ano, tenho acumulado decepções. Acho estranho, no entanto, como essas decepções têm a estranha capacidade de me alimentar, de fazer com que eu saia dos meus esquemas e descubra horizontes maiores. Claro que isso não é fácil… Vez por outra fico satisfeito com Ele. Reconheço que nesses momentos faço uma grande inversão psicológica e considero que eu seja o mestre e Ele o seguidor.

Não há verdadeiro cristianismo sem decepção, sem escândalo. Olhando com certa atenção os ditos e feitos de Jesus é impossível não perceber que Ele nunca dá respostas prontas que se encaixam perfeitamente nas concepções daqueles que Lhe dirigem suas perguntas. Ao responder, sempre provoca. Revela grandes respostas e novas e importantes perguntas.

Aproximar-se de uma figura que é tão incompreendida, embora seja decepcionante, é deveras fascinante. Essa aproximação, no entanto, só rende quando há a coragem do deixar-se interpelar, do não querer dizer o que Ele pensa sem ter prestado atenção no que Ele tem a dizer.


Ao fim desse texto, talvez alguns estejam pensando: “É isso que fulano precisa ouvir/ler. Ele não entendeu nada.”  Confesso que o próprio autor pensou algo do tipo antes de chegar a essas  últimas linhas… Nessas horas,  cabe lembrar que a crítica ao outro, mesmo quando verdadeira, é, muitas vezes,  a melhor defesa contra a autocrítica. E que muitos dos que dizem conhecê-Lo, na verdade nunca O encontraram.

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - UFRJ / Fundador da Oficina de Valores

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