Por: Fernando

Três questões que muitas dores de cabeça deram aos nossos antepassados permanecem ainda em nós, mas vem enfraquecendo e correm o risco de ficarem tão escondidas que teremos dificuldade em encontrá-las: De onde viemos? Para onde vamos? Qual é o propósito da nossa existência?



Essas questões parecem não causar tanto incômodo hoje como já causaram um dia. Quase ninguém perde o sono por causa delas. Isso não é consequência de que todo mundo tenha encontrado as respostas - ao menos de forma satisfatória e definitiva. Fato é que essas questões foram jogadas para um canto muito longíquo da nossa consciência e o nosso cérebro não tem lá muito tempo e energia para gastar com algo que hoje parece trivial. Acrescente a isso o fato de que nosso cérebro foi enganado. Por causa de uma cultura advinda da modernidade científica, relegamos também essas questões para a ciência e temos a sensação de que devem existir por aí um bocado de cientistas se ocupando desses assuntos. Então, mais uma vez, para que o cérebro vai gastar-se com algo que, além não nos levar a lugar algum, aparentemente é o trabalho de outras pessoas?

Mas esse nosso involuntário, ou forçado, abandono dessas dúvidas tornou-nos de certo modo preguiçosos e relapsos com o tempo que temos. Ao nos esquecermos de nos questionar, de pensar sobre o sentido da nossa existência, a sensação de ser ela despropositada faz com que nós acabemos por viver de forma mecânica e com que nossas ações passem a ser condicionadas às demandas que vão surgindo. Se não há propósito não faz sentido impor-se e fazer algo que contrarie uma vontade momentânea. 
Assim vamos levando a vida, com o sentimento de que não a vivemos de verdade, mas que ela foi passando...

Num primeiro momento, termos deixado essas questões de lado pareceu nos dar certa liberdade. Pois, se não temos que buscar por um sentido, então todas as direções e sentidos são possíveis e talvez possamos escolher um quando tivermos experimentados todos os caminhos. Parece até uma atitude sábia. Mas não é. 

Evidente que essas três grandes questões - voltemos a elas, por favor - não podiam ser esquecidas por completo. O manto mágico do consumo, do imediatismo, do Carpe Diem foi jogado sobre essas questões profundas e ao retirar o manto o que nós constatamos foi que no lugar das três questões apareceu uma outra. O abandono dessas três questões fez germinar no nosso tempo uma quarta questão, quase um arremedo das três clássicas, uma questão com a qual nossos antepassados não se defrontaram. Que grande feito! Uma questão que não era levantada na Antiguidade e nem mesmo na Idade Média. Uma questão que é própria do nosso tempo e talvez seja a única que nos cause angústia e nos faça perder o sono algumas vezes:

"O que é que eu estou fazendo com a minha vida?”

Essa é a grande questão que nos aflige na atualidade. Ela é nossa! Individual e intransferível. 

A questão "o que estou fazendo com a minha vida?" da contemporaneidade não é a mesma coisa do "por que nós existimos?" de outros tempos. O "por que nós existimos?" era motivo de reflexões e debates acalorados. Pessoas ficaram famosas por pensarem sobre elas. O "o que estou fazendo com a minha vida?" de hoje em dia é um pensamento vago que ocorre vez ou outra com qualquer um de nós. Às vezes assistindo tv, às vezes escutando uma musica, às vezes num bar com amigos; e lá vem a imperiosa: " o que eu estou fazendo com a minha vida?". Mas poucas pessoas entram em crise existencial por causa disso... Logo, logo aparece alguma distração que silencia essa voz. 

Tenho uma teoria maluca - dentre várias - que indaga se esse lampejo de consciência, essa fagulha, essa pergunta que chega de uma hora para outra, será uma voz do nosso espírito. Não será alguma centelha que ascende para que a gente se dê conta - ao menos por uma breve instante - de que estamos vivendo muito com, pela e para a matéria? Se essa questão moderna de agora não será fruto de uma vida pouco, ou quase nada espiritualizada. Então, lá do fundo vem a pergunta inquietante do espírito inquieto: "o que estou fazendo com a minha vida?" "Será que estou vivendo da maneira correta?" "Será que a vida é isso mesmo?" "Será que é assim mesmo: trabalho, estudo, casa, entretenimento, cuidados com o corpo? Então, porque a sensação de que falta algo?" "Por que a sensação de estou perdendo tempo?"

Eu imagino que essas questões não seriam incômodas a um monge medieval, por exemplo. Para ele o trabalho, o cuidado com o corpo e mesmo o entretenimento eram atividades que faziam parte de um rito espiritual. Não se fazia pela matéria, mas pelo espírito. Um monge tinha como premissa as três grandes questões que nós abandonamos.

Não é minha proposta que todos se tornem monges medievais, mas que percebamos que vivemos em uma situação oposta. Vivemos uma vida não espiritualizada e voltada para a matéria. Para nós, que não nos importamos mais com essas coisas, o trabalho é para ganhar dinheiro e comprar coisas para satisfazer o corpo; cuidar do corpo é ter corpo sarado e atraente; entretenimento é satisfazer os sentidos, para satisfazer o corpo. Cuidamos do corpo pelo corpo. Em última instância... o corpo.

Como nossa experiência sobre a avassaladora passagem do tempo é algo bem percebido - o tempo e o espelho nos lembram e demostram isso o tempo todo - a matéria perece, e é finita. Não importa o quanto alguém malhe, o quanto use cremes ou faça plásticas... o corpo acaba! 

Então o espírito - que tem sede de infinito - volta e meia nos dá um alerta à luz da nossa temporária consciência do fato de que esquecemos da eternidade: "O que estou fazendo da minha vida?"

Como a voz do corpo fala mais e mais alto atualmente, a gente não dá a mínima chance para essa outra voz se fazer mais presente. A primeira voz, a voz do corpo, é imediatista e pede coisas que podemos arrumar fácil e rápido. A segunda voz traz um certo desconforto: ao nos perguntarmos coisas do tipo "o que eu tenho feito da minha vida?" corremos o risco de que venha à tona uma situação inquietante: "talvez eu tenha que mudar radicalmente a minha vida". Quando nos damos conta disso abrimos espaço para aquelas três questões lá do início florescerem de novo. Como algo assim, dessa magnitude, "mudar radicalmente a vida", exige muito de nós e é algo muito trabalhoso, não é incomum deixarmos de lado. 

Cuidado! Essa voz conscienciosa, "espiritual" - como escolhi chamar - e que vem sabe-se lá quando, de onde e sabe-se lá porquê, pode ser nosso melhor guia! Pode ser a nossa voz mais verdadeira. Enquanto ficamos apenas pergundando "o que eu tenho feito com a minha vida?", a vida passa, a matéria perece e as energias para mudanças arrefecem. Então um dia você acaba se perguntado: "o que foi que eu FIZ com a minha vida.?" Nesse caso, ou já se viveu muito tempo e tomou consciência de que não fez nada de bom e não tem mais energia para mudar, ou se ainda é novo e fez uma grande besteira. Seja qual for o caso, existe a possibilidade de restauração. Mas o trabalho sem dúvida é infinitamente maior. 

"O que eu tenho feito com a minha vida?" é um bom sinal que existe tempo e energia necessários para consertar as coisas e tomar um caminho certo. O manto do mágico pode ter escondido e trocado as três questões por essa, mas é um truque! A verdade mesmo é que o manto não pode desaparecer com as três questões. Elas existem em algum outro lugar. 

Ainda há tempo... Esteja atento!

Fernando Duart Rosenkranz
Prof. História -  Oficina de Valores

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