Por: Rodrigo
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Façamos uma pequena charada: o que é o que é? Representação concreta do pensamento humano que configura uma parte fundamental da linguagem, meio através do qual grande parte da comunicação acontece? Expressa universalmente em diversos idiomas, poderosa ferramenta de convencimento, transformação, motivação e destruição? Pode ser cantada, falada, escrita...? Sim, estamos falando das palavras! 

Mais do que um interesse, pensar esse assunto é uma necessidade. Certas realidades são tão elementares que tendemos a não olhar para elas com o devido cuidado. Em se tratando das palavras, tocamos num ponto que traduz muito do que somos. Talvez a primeira reflexão seja: tenho pensado sobre o que falo? O saudoso Freud sabiamente alertava “o homem é dono do que cala e escravo do que fala”.

Todo o nosso aparelho psíquico (pensamento, memória, sentimentos etc.) representa um universo particular, é uma área íntima no sentido mais estrito. A forma como o damos a conhecer é através da nossa capacidade de expressão, que se traduz em grande parte dos casos através das palavras. Enquanto eu guardo no meu íntimo, seja o que for, a responsabilidade é minha, a partir do momento que eu divido com alguém, eu perco o controle e a liberdade a respeito daquilo que falei, pois divido a responsabilidade com outra pessoa e ela pode fazer daquilo que falei o que ela quiser. Não quero com isso despertar um negativismo acerca das palavras e da comunicação, desejo, na verdade, despertar uma conscientização que parece estar adormecida na nossa cultura.

Temos valorizado quem “fala o que pensa”, são os considerados autênticos e sem papas na língua, mas no fundo, a pessoa que fala o que pensa, não pensa no que fala. Por isso vivemos, ao mesmo tempo, na era na qual as pessoas mais falam e na qual as palavras têm menos valor. A tecnologia da informação muito contribui para isso. Seja pela velocidade das publicações em ferramentas como twitter, facebook e whatsapp, seja pelo anonimato garantido pela web, todo mundo se torna crítico e combativo pela internet. Não é preciso muito para constatar que a consequência disso tudo é que atualmente falamos muito e falamos ‘nada’. Pensemos em alguns desdobramentos dessa cultura das palavras vazias

1 – Descompromissos

Os acordos verbais deram lugar às assinaturas e o aperto de mão deu lugar ao contrato. A impessoalidade da assinatura dos contratos é uma visível consequência da derrocada da importância da palavra. Dizem os antigos que contratos eram firmados pela garantia da “palavra de homem”. Dizer: “eu te dou minha palavra”, significava dizer que era garantia total do compromisso ser cumprido e o não cumprimento resultaria na perda da honra. Honra? Não temos e já nascemos sem ela... Lamentavelmente hoje a palavra não serve de nada em se tratando de compromissos, fomos descaracterizados por não entendermos o peso do que falamos.

2 – Fofocas

O texto "porque não gosto do big brother" explora essa questão de uma forma mais ampla, mas cabe mencionar aqui que não é à toa que os sites e jornais de fofoca vendem como água. Numa profunda falta de conteúdo e incapacidade no uso das palavras, nos contentamos em falar dos outros. Essa cultura de espionagem é mesquinha, mas inevitável, quando não temos assunto nos resta falar dos outros. A fofoca é o câncer dos nossos relacionamentos interpessoais, muito mais nociva do que se pode imaginar. Ao contrário do que pensam, a fofoca não é só o relato distorcido do fato, mas é também o relato do fato sem distorção, quando o objetivo é denegrir os envolvidos. Seja mentira ou verdade, falar da vida dos outros, sem a intenção real de fazer bem aos envolvidos é mesquinharia. 

3 – Reclamações

Tem coisa mais chata do que gente “reclamona”? Se tiver, confesso que não tenho a menor vontade de conhecer. Geralmente, quem muito reclama pouco admira. Vive com amargura no coração e sem a leveza necessária para perceber quanta coisa boa acontece e como as pessoas são maravilhosas. É incrível como tanto a fofoca, quanto a reclamação contaminam né? Por vezes os ambientes ficam insuportáveis por conta disso, sem falar que quem reclama geralmente pensa em si, mas dificilmente pensa no “objeto” da reclamação. Acaba faltando bom senso e até mesmo caridade.

As palavras são incrivelmente poderosas, sendo fonte de construção e destruição, a diferença entre um extremo e outro depende única e exclusivamente das escolhas que fazemos. O que as suas palavras têm provocado? Não tenho dúvidas de que precisamos silenciar muito mais, numa cultura que nos provoca a cada vez mais falarmos, ainda que não tenhamos o que falar. Cabe também lembrar que simpatia é quase amor, palavras de gratidão, ditas com bom humor e sinceridade, são alimentos sólidos para bons relacionamentos. A crise da palavra é mais grave do que possa parecer. Enquanto nos contentarmos com conversas e cabeças vazias, dificilmente conseguiremos estabelecer uma comunicação eficaz... E vamos repetindo o refrão do Gabriel, o Pensador incessantemente:

Ninguém tá escutando o que eu quero dizer!
    Ninguém tá me dizendo o que eu quero escutar!
    Ninguém tá explicando o que eu quero entender!
    Ninguém tá entendendo o que eu quero explicar!"

Rodrigo Moco
Psicólogo / Coordenador da Oficina de Valores

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