Por: Fernanda
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A virtude que escolhe o bem

Fraude de empregados públicos.

Fraude na aquisição do Bolsa Familia 

Fraude para conseguir o FIES.

Fraude fiscal de empresas privadas.

Fraude no futebol.

Fraude de políticos.

Quem nunca ficou chocado, ou está chocado, quando lê noticias como essas? Elas nos deixam com a impressão que em nosso país (e certamente em outros...) a interpretação das regras é algo totalmente subjetivo, e as brechas de uma lei parecem ser mais observadas do que a própria lei.

Será que isso acontece porque nos faltam regras mais claras? 

Creio sinceramente que nossas regras são claras o suficiente, algumas podem até chegar a ser prolixas. O que nos falta na verdade é o bom senso, ou, de forma mais generalizante, uma virtude chamada prudência.

Existem sim casos em que a ignorância leva as pessoas a errarem, mas olhando para a maioria dos casos que conhecemos, quando uma bolsa, um exame ou uma lei são fraudados; uma propina ou um mensalão são aceitos... É mais por “esperteza” do que por inocência, concordam?

A prudência geralmente é entendida como algo muito pessoal, ligada apenas à conduta de uma ou outra pessoa. Mas como nossas escolhas tem consequências sobre o outro, a falta de prudência sai da esfera pessoal e passa a atingir toda uma família, toda uma instituição, cidade, ou até mesmo país.

Em definição, a virtude da prudência significa distinguir o verdadeiro bem. Dessa forma, uma pessoa prudente não deixa de colar apenas por medo de ser pego e zerar uma prova, mas porque sabe que colando estará cometendo uma fraude. Em outra análise, significa saber optar pelo que é bom, antes do que pelo que é confortável, prazeroso, fácil, cômodo... Portanto, prudente também é aquele que sabe a hora de desligar o Netflix, por mais interessante que a série esteja, porque sabe que os estudos lhe esperam.

Acontece, no entanto, com a prudência, o que acontece com muitas outras virtudes: muitas vezes é interpretada como fraqueza. O adolescente que se recusa a viver coisas que não são próprias de sua idade é visto pelos amigos como prudente ou como medroso? E a menina (ou menino!) que escolhe se vestir e se portar de um jeito respeitável, é vista como prudente ou como tímida? Ou a pessoa que não se mete em fofocas no ambiente de trabalho: será prudência ou será que ela possui algum interesse em fazer isso? 

É importante ressaltar que tem sim pessoas que agem por medo, por timidez, por interesse... A diferença está na intenção. E por mais que a imagem passada seja a mesma, o resultado é completamente diferente...

A prudência também é conhecida como condutora das virtudes, indicando regra e medida para as coisas. Por exemplo, se um homem decide colocar sua cabeça na jaula de um leão faminto, ele pode ser chamado de audacioso, mas jamais ser chamado de prudente. Se um homem passa a noite trabalhando, pode ser chamado de laborioso ou dedicado, mas não de prudente. Nesses em outros casos, a prudência é quem vem canalizar uma característica que já era boa, para que ela passe a ser melhor.

E uma coisa muito interessante sobre essa virtude é que a partir dela o homem é conduzido pela sua própria consciência. 

“Como assim pela própria consciência??? Desse jeito não vai cada um acabar fazendo o que quer? Pensar assim não é relativista demais??”

Não, não é! Para opiniões, opções e preferências superficiais as pessoas são muito diferentes entre si. Mas uma consciência consultada com sinceridade sobre alguma coisa importante, sempre sabe diferenciar o que é bom do que é mau. Usar a prudência a partir de um juízo pessoal não vai causar o relativismo, mas vai nos levar todos justamente a uma verdade que é única, embora precise ser aplicada em contextos que são vários.

E, por isso, é fascinante pensar que cada duvida moral, que cada caso, por mais particular que seja, tem respostas melhores e respostas piores. E se a prudência fosse usada, não haveria brechas nas leis, não haveria as coisas feitas “por baixo dos panos”, não haveria fraudes, pois seria a consciência a dizer o que é o bem a fazer e o mau a evitar. O “certo e o errado” não mudam com as circunstâncias; não mudam, por exemplo, se não tem ninguém olhando, ou se eu posso dar um jeitinho brasileiro. A verdade está sempre dentro de nós, pronta para ser ouvida.

Mas, é importante lembrar que, por mais que a prudência nos leve por um caminho acertado, ela não é certeza de que tudo dará certo, pois existem coisas que não dependem de nós. Como, por exemplo, quando você estuda para uma prova e mesmo assim vai mal...

“Poxa, eu merecia tanto ir bem!”

Muitos devem pensar que é melhor ir mal em uma prova por não ter estudado do que ir mal depois de ter se esforçado. Já tendo passado pelas duas situações, eu digo a vocês com toda certeza: pensar desse jeito não é nada além de vaidade. Pois ainda que as coisas deem errado, o prudente sempre tem paz, pois sabe que fez aquilo que deveria. E isso é mais importante do que o resultado.

O que se ganha então sendo prudente? Ganha-se a consequência a longo prazo das nossas escolhas, um prazer mais genuíno do que o de se deixar levar, o prazer de ter cumprido o dever, de ter feito aquilo que é certo. Ganha-se a certeza de que o tempo está sendo usado bem, e que a vida, ainda que muita coisa dê errado, tem construído alguma coisa. Ganha-se a paz.


Fernanda Gonzalez
Mestranda em Engenharia Urbana/ Oficina de Valores

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